Thursday, May 21, 2020

Bolas de Golfe

por Milton L. Torres



Entre 1998 e o ano 2000, eu morei em frente a um campo de golfe. Isso me deu a oportunidade de catar várias bolas de golfe que teimavam em se extraviar de seu destino pretendido e pousavam no meu quintal como aves cansadas. Nem sempre aqueles que as lançavam naquela direção vinham reclamá-las. Talvez pensassem que não valia a pena atravessar a rua movimentada para tentar recuperar o que haviam perdido. As bolas de golfe variavam em cores, principalmente brancas, vermelhas e amarelas, mas eram de tamanho uniforme, pois aquilo podia acontecer com qualquer uma. Algumas se perdiam em seu primeiro voo e pareciam imaculadamente perfeitas. Outras traziam as marcas das tacadas da vida e apresentavam pequenas deformações. Ainda outras vinham manchadas ou sujas. Além disso, em geral, continham um número, de zero a cinco.
Eu nunca me interessei pelo golfe e confesso que não compreendo a razão dos números, das cores e outras características peculiares às minhas amigas esféricas. Apesar disso, eu guardei aquelas bolas de golfe e elas me acompanham há quase 20 anos. Conservo-as em casa, em um balaio de vime, que vem resistindo bem à passagem do tempo. Nem sei explicar exatamente por que conservo essas lembranças de um tempo que veio e se foi. Não sofro de nenhuma nostalgia inexplicável por não mais morar em frente ao campo de golfe e sua paisagem sedativa.
O que sei é que esses globos em miniatura passaram a fazer parte da minha vida e que, toda vez que olho para eles, me ensinam a mesma lição: os relacionamentos são esféricos e sem alças. Não há como nos apegarmos a eles pela bruta força de mãos e braços. Em sua circularidade quase perfeita, os relacionamentos nos exigem investimentos cíclicos e recorrentes. Como as bolas de golfe, lançamos nossas emoções em vários sentidos e direções. Como resultado dessa audácia, essas emoções e os relacionamentos aos quais se filiam acabam se comportando como as pelotas coloridas do meu balaio de vime. Ao sofrerem as tacadas da vida, em seu voo primeiro ou enésimo, acabam sujas, manchadas, deformadas. Extraviam-se e se perdem. Para recuperá-las, é necessário transpor não apenas uma rua movimentada, mas o fosso profundo que se interpõe entre nós e as pessoas amadas ou toleradas.
Nunca tentei consertar as bolas de golfe do meu balaio de vime. Mas não acho que seja possível desentortá-las, nem lhes eliminar as manchas. O máximo que fiz foi lavá-las para conservá-las limpas e apresentáveis, uma espécie de maquiagem postiça a fim de atenuar as cicatrizes profundas de golpes e colisões. No final das contas, após anos e anos de convivência com os equívocos redondos de meus relacionamentos, esse balaio de gatos em que se transformou o meu coração, concluí que é inevitável sofrer com marcas e manchas. Descobri, porém, que há uma razão existencial por que as bolas de golfe são numeradas. Esses números sugerem nossas prioridades. A prioridade “zero” são os relacionamentos efêmeros aos quais nunca deveríamos dar o poder de nos magoar. A prioridade “cinco” são os relacionamentos periféricos, insignificantes, que não conseguiriam nos magoar mesmo que tentassem. A prioridade “dois” são os relacionamentos secundários, que não são importantes o bastante para requerer sacrifícios e esforços múltiplos de manutenção. Entretanto, há a prioridade “um”, aqueles relacionamentos sem os quais seria impossível continuar a vida como a conhecemos e desejamos. No caso dessas bolas de golfe número 1, por elas vale a pena atravessar a movimentada rua do tempo, em que um calendário autoritário ou um relógio arrogante, como automóveis desgovernados, nos ameaçam os gestos e as afeições. Por elas, vale a pena cruzar o fosso das mágoas, por mais profundo que seja. Vale a pena correr todos os riscos, inclusive o da vulnerabilidade. Vale a pena fazer sacrifícios e imolações, apesar das manchas e cicatrizes. Vale a pena recuperá-las para impedir que vão parar em um balaio de vime, em um canto qualquer e, em vez disto, acomodá-las majestosa e intencionalmente no trono do nosso coração, à vista de todos, à vista de Deus.




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