Friday, April 14, 2017

Os Verdadeiros Ovos de Páscoa: A Páscoa Não Acaba Nunca


por Milton L. Torres

            A história humana está cheia de heróis anônimos e epônimos que optaram por entregar a própria vida a renegar uma causa, trair os próprios princípios ou tolerar a opressão dos inocentes. Entre os mais famosos, estão pessoas como Sócrates, executado, em Atenas, por aqueles que desejavam se beneficiar do obscurantismo e da ignorância; Mário Graco, executado pelo senado romano por causa de seus ideais democráticos e igualitários; Tiradentes, executado pela metrópole portuguesa por causa de sua defesa da liberdade; Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazistas, na Alemanha, depois de falhar seu plano de eliminar Hitler; Antônio Gramschi, executado pelo regime fascista na Itália; Martin Luther King, assassinado pelos opositores da igualdade racial nos Estados Unidos; e Nelson Mandela, longamente aprisionado por causa de sua militância contra o Apartheid na África do Sul. Esses heróis vêm de todas as partes e lutaram pelas razões mais diversas. Em comum, têm, senão a morte inglória e cheia de sofrimento, pelo menos o ideal de resistência e corajosa defesa de princípios dos quais não podiam abrir mão...
            Nenhum deles é, porém, o que poderíamos chamar de herói pascoal. Eles lutaram na esperança de triunfar e subverter o status quo. Lutaram porque tinham a esperança de vencer e sair incólumes do preço que a derrota os faria pagar. Por favor, não entendam mal. Eles sabiam que podiam perder. Sabiam que, em caso de derrota, enfrentariam algum tipo ignominioso de morte. Mas havia a fresta de esperança que os fazia vislumbrar o triunfo de seus ideais e o reconhecimento de seus esforços. Pode ser que, ao se deparar com a cicuta, Sócrates tenha se dado conta de que voluntariamente abraçava um caminho de morte e extinção, mas não antes. Até aí, acreditava na absolvição. Por isso, não guardou silêncio no tribunal e se defendeu como pôde. Até Mahatma Ghandi tinha estreitas gretas pelas quais entrevia o sucesso de sua filosofia de resistência pacífica. Ele sonhava com isso. Era isso que o alimentava e impelia...
            Jesus foi o único herói pascoal da história de nosso mundo. Convencido, como estava, de que não tinha a menor chance de escapar dos abusos, da tortura e da morte, ainda assim não hesitou em enfrentar a violência de seus algozes e superar o abandono covarde dos amigos. Ninguém o defendia e Ele tampouco se defendeu. Era uma ovelha muda, pronta para o abate. Seu nível de sujeição às forças cruéis que o intimidavam e torturavam não teve, nem tem precedentes. Continua como exemplo único e inigualável do poder do amor, pois só o amor o movia. Jesus não morreu porque tinha que morrer. Ele morreu porque queria morrer. Não queria, porém, morrer como morrem os suicidas. Não morreu para abandonar a vida ou estancar o sofrimento. Não abraçou a morte porque desistiu de lutar, mas abdicou da luta por algo infinitamente maior: a franquia do perdão.
            Nós fizemos de tudo com Jesus, desde a cusparada nojenta e cheia de desprezo e escárnio, até a exposição vergonhosa de sua nudez, e mais, muito mais, as pancadas, os espinhos, os pregos, a lancetada que lhe atravessou o pulmão, o vinagre que o emudeceu... Só não lhe quebramos os ossos. Isto é, não literalmente. Fomos nós que fizemos essas coisas, e continuamos a fazê-las, toda vez que praguejamos contra Deus ou esfolamos o nosso semelhante (amigo ou inimigo, próximo ou distante, da nossa intimidade ou gente que nem conhecemos), nas guerras combatidas com armas no campo de batalha ou nas guerras travadas com os penetrantes punhais de palavras desproporcionais e indiferentes, no conforto do lar, nos saguões das igrejas, nas vias públicas ou na ambiciosa empreitada de galgar a escada social. E o que ele, Jesus, nos fez e faz? Com o herói pascoal, não se trata de desforra ou desagravo, mas de chances: oportunidades de recomeçar, a cada páscoa, a cada dia. Estamos na páscoa. Este é o território do herói pascoal. É sua dimensão e reino. Sua causa e sua vida. Por que não abraçamos, juntos, a oportunidade que ele nos oferece? Vamos tornar esta páscoa em algo mais do que a troca sem graça de ovos coloridos e de sabor docemente narcótico. Não são ovos de páscoa que Jesus nos convida a distribuir. Vamos aceitar o exemplo de perdão e entrega de nosso herói pascoal, e submeter-nos mais a sua vontade, entregando-lhe o coração. E entregar o coração a Jesus é entregá-lo a todos aqueles por quem ele morreu... Os verdadeiros ovos de páscoa são as ações de gentileza e abnegação que Jesus deseja que pratiquemos durante a páscoa, e a páscoa nunca vai acabar, enquanto Jesus sofrer por nós... e nós, por ele!




Sunday, April 02, 2017

Rosto desfigurado

por Milton L. Torres

          Talvez você ache estranha a grande quantidade de relatos da violência praticada no contexto do flerte não correspondido, que nos chega dos antigos gregos. A própria obra máxima daquela literatura, a Ilíada, tem como premissa o rapto da belíssima Helena, uma ação tão brutal que gerou a guerra de Troia, combate de dez longos anos entre gregos e troianos, que Eratóstenes situa entre 1194 e 1184 a.C. Aliás, os antigos gregos contam que Helena foi raptada duas vezes: uma por Páris e outra por Teseu. E os relatos gregos não param nela, sendo igualmente famosos, entre tantos outros, os raptos de Ariadne, Antíope e Hipólita (por Teseu) e Medeia (por Jasão). Sem contar os casos em que a moça era levada como espólio de guerra ou para consumar um amor consensual proibido pela família, esses casos nos assustam pelo estatuto heroico dos raptores, alguns dos quais, como Teseu, por exemplo, parecem não viver para outra coisa, senão raptar mulheres indefesas.
          Um caso que merece menção especial nos é relatado por Partênio de Niceia, o tutor do grande poeta Virgílio, que, na época de Cristo, escreveu uma obra poética intitulada Erotiká pathêmata (“sofrimentos de amor”), na qual narra diversos episódios de amor não correspondido. Trata-se da história de Apríate, supostamente a primeira mulher a reagir a uma tentativa de rapto. Apríate vivia na ilha de Lesbos, onde acabou atraindo a atenção de um rapaz fogoso chamado Trambelo. Diante das constantes recusas da moça, o rapaz decidiu raptá-la e estuprá-la. Apríate reagiu com valentia e acabou assassinada pelo rapaz, que lhe jogou o corpo ao mar. Obviamente, o poeta errou ao incluir essa história em seu catálogo. Afinal, quem ama não destrói o objeto de seu amor. De qualquer forma, o crime lhe custou a vida nas mãos de Aquiles, o herói da guerra de Troia. Se a narrativa tem algum cerne de verdade, a história nos remete à tentativa de estupro ocorrida 1200 anos antes de Cristo. Em geral, rapto e estupro eram vistos como ações de hybris, invariavelmente punidas, senão pelos cidadãos, pelo menos por divindades vingativas e pelo destino.
          No livro apócrifo conhecido como Atos de Pedro, em um trecho preservado apenas em cóptico, a multidão recrimina o apóstolo por ter curado inúmeras pessoas, mas ter negligenciado a própria filha, cujo lado direito do corpo sofria de uma paralisia aparentemente incurável, que lhe desfigurava o rosto. O apóstolo ora, então, a Deus, e este restaura a menina à condição anterior de beleza. Logo em seguida, o apóstolo faz outra prece e a moça torna a ficar com a face paralisada. Ele, então, explica aos boquiabertos espectadores, que pedira a Deus que desfigurasse a filha, depois de esta ter sido raptada por um cidadão rico chamado Ptolomeu. Sua intenção era de preservá-la de novos avanços. No final da narrativa, o ricaço se arrepende e, antes de morrer, deixa, em testamento, seus bens para a moça, que os repassa à igreja. Em outro livro apócrifo, a epístola de Tito, que pode ter preservado mais um trecho dos Atos de Pedro, conta-se que um jardineiro pediu a Pedro que lhe abençoasse a filha. O apóstolo orou pela menina, mas ela logo morreu. Inconformado, o jardineiro pediu que o apóstolo orasse de novo. Depois da segunda oração, a menina voltou a viver. No dia seguinte, porém, foi estuprada por um escravo.
          As antigas histórias de rapto e estupro se multiplicam, e parece que os velhos métodos de coibição nunca surtiram efeito, pois continuam a acontecer atualmente, talvez até em maior proporção. Em 2015, foram cinco estupros por hora no Brasil, um deles no estado de São Paulo. É impressionante que os antigos gregos fossem tão adiantados em filosofia, educação, música, medicina, ciência e política, mas não tenham conseguido impedir que homens tão inteligentes se comportassem como animais. Mais perto de nossos dias, o filósofo Nietzsche lamentou, em Assim falou Zaratustra, que um ente tão sublime quanto o ser humano continue a ser feio e se pareça com um animal selvagem... Certamente falava só dos homens. Eu também. É inadmissível que o descontrole de alguns homens continue a obrigar as moças a viverem vidas desfiguradas na esperança de deter o próximo ataque. Falo também às autoridades. É inadmissível que continuemos a ser tão coniventes com aqueles que praticam esse tipo de violência ou qualquer outro. A esse respeito, precisamos adotar uma política de tolerância zero.






Wednesday, March 22, 2017

A poesia da vida

por Milton L. Torres

Pare e pense! Não vale a pena se preocupar demais em entender a vida. Não vale a pena quebrar a cabeça para compreender todos os seus intrincados mistérios. Carlos Drummond de Andrade diz que, em vez disso, se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida. Isso significa que temos que nos contentar com uma dessas possibilidades: ou desvendamos mistérios ou sentimos a poesia. Satisfazemos a curiosidade ou a sensibilidade. Vivemos em função do cérebro ou do coração.
Isso não significa que os mistérios não nos possam intrigar, só que não precisam nos deter, nem nos imobilizar. Diante deles, o queixo cai, mas os olhos precisam imediatamente contemplar o efeito estético de sua presença. Aí, a gente precisa voltar a viver, voltar a sentir. Um exemplo prático disso acontece quando nos deparamos com a morte, especialmente se ocorre de modo repentino, prematuro ou com uma pessoa por quem temos muita afeição. O mais importante, nessa hora, não é receber explicações, entender a cadeia de causalidades que precipitou a tragédia, mas refletir sobre a beleza da vida de quem se foi. Não se trata tanto de entender o significado dessa vida, mas sua significância. As pessoas tendem a se indagar por que Deus permite essas coisas, mas a pergunta que faz mais sentido é como essa vida que se foi enriqueceu a vida de quem fica. O que precisamos fazer, em meio às lágrimas da despedida, é celebrar a ventura de ter convivido com aquela pessoa.
Mas não é apenas a morte que representa, para nós, um enigma difícil de decifrar. O que dizer do amor não correspondido? Por que o coração, os olhos, o corpo todo nos dispõem para uma alma da qual nos sentimos gêmeos, só para que esta nos inflija rejeição e constrangimento? O que dizer da paternidade? Por que alguns filhos se parecem tanto com os pais, enquanto outros lhes são diametralmente opostos? Quem inventou essa química? Que gênio maldoso se encarregou de rodar essa roleta maluca?
É melhor desistir dessa álgebra improvável. A teoria do caos está criptografada no próprio pulsar da vida. Em vez de quebrar a cabeça e o coração, é preferível quebrar os preconceitos, assumir atitude de apreciador da arte de viver,  aceitar que não há só um jeito de ser feliz, abrir o coração e os olhos para as possibilidades e, finalmente, não se deixar possuir por nenhuma única grande e insubstituível ideia. Em vez de se obcecar pela solução da vida, busque enxergar a poesia da vida…





Saturday, February 18, 2017

O que é viver?

por Milton L. Torres

Pare e pense: o que é viver? Quais são as coisas que faço que me deixam ter a certeza de que estou vivo? Comer? Namorar? Andar de bicicleta? Dançar? Beber? Fumar? Comprar uma dúzia de ovos no supermecado? Será que uma dessas coisas prova mesmo que estou vivo? Será que todas elas juntas provariam isso?
O que é um dia perdido? Um dia em que não comi, não namorei, não bebi, nem fumei? Quais são os ingredientes necessários em 24 horas para que, no final do dia, eu possa dar um soco no ar e dizer: - Hoje eu vivi!?
Ou será que a vida é definida pelos negativos? Eu estou vivo porque não tenho doenças, não estou sofrendo, não estou na cadeia, não quebrei a perna, não estou de luto, não arranquei um dente e, por todas essas razões, eu posso me esbaldar na vida...
Ou, aliás, será que a vida é definida pelos picos de êxtase? Será que eu preciso de uma tonelada de adrenalina para que tenha a impressão de ter vivido bem o meu dia? Montanha russa, arranha-céu, a rasante no helicóptero, a escalada do Evereste, a disputa de pênaltis, shoplifting, a curva a 120 km por hora...
Quantos dias você já perdeu na vida? Se é que já perdeu algum! Uma vez mesário nas eleições? Duas ou três tentativas na prova do ENEM? Um dia inteiro tentando marcar uma consulta? Uma semana inteira de cama? Três meses com a perna engessada? Uma vez por ano fazendo a declaração do imposto de renda? Uma hora por dia preso no engarrafamento? Oito horas por dia dormindo... Você está mesmo vivo nessas horas?
Será que a gente precisa viver cada dia diferente? Será que conta como vida viver o mesmo dia várias vezes? Do mesmo jeito, nas mesmas condições, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, respirando o mesmo ar, vendo o mesmo céu, fazendo as mesmas coisas? E aí? A minha vida é o que eu faço ou deixo de fazer? A minha vida são as pessoas com quem eu COM-VIVO? A minha vida é o que me dá prazer? A minha vida é o que me dá sentido? Talvez sua resposta seja diferente da minha. Afinal de contas, não somos a mesma pessoa, nem temos a mesma vida. Não sei como você computa seu grau de satisfação com sua vida, com os dias que você está vivendo. Qual é a sua unidade de contagem? O número de banhos que você toma por dia? A quantidade de dinheiro que gasta ou ganha? O número de refeições? Quantas vezes você faz sexo? Quanta gente nova você conhece? Quantas ordens você dá? Quantos olhares de inveja você recebe? Tudo isso? Nada disso? Eu só fico aqui imaginando...
Eu não sou de Marte. Eu sei o que é respirar com prazer o ar que me mantém vivo. É isso! As coisas simples é que conto no meu cômputo de satisfação com os meus dias, com a minha vida. O arroz dormido que tiro da geladeira e esquento. O suor da caminhada banal até o trabalho. O copo d’água frio e refrescante. Uma ou duas pessoas que me olham todo dia como se eu fosse a pessoa mais importante deste planeta. O esconderijo no qual me refugio para ficar a sós e apreciar, devidamente, qualquer pequena surpresa que me faça o coração saltar. E como salta o meu coração!





Saturday, February 11, 2017

Cabanas do Alasca

Eu fui missionário no Alasca e escrevi um livro sobre minha vida naquele lugar inóspito de invernos rigorosos. Uma coisa que não pus no livro, mas deveria ter posto, é a descrição das cabanas do Alasca. Ali, as pessoas não compravam simplesmente uma casa. Na época em que vivi no Alasca, esperava-se que o dono construísse a própria cabana, geralmente de madeira e, à semelhança de uma palafita, elevada acima do terreno para que o calor dela não derretesse o chão de permafrost, uma mistura de gelo e terra.
Um verdadeiro morador daquela região gelada sentia uma empáfia difícil de conter quanto ao resultado confortável de seus esforços de construtor. E, mais do que isso, sentia orgulho do fato de que as portas nunca eram trancadas e de que havia sempre um aviso, em placa elegantemente pintada, em papel de caixa improvisado, em madeira ou em latão, mas sempre visível, que dizia: “entre, use o que precisar e deixe tudo como encontrou”.
É que as pessoas daquele lugar virtualmente abandonado por Deus tinham a plena consciência de que a vida fora de algum abrigo providencial não se sustinha por muito tempo. O inferno gelado invadia e entorpecia os membros, a cabeça e os órgãos internos. Era como se, o tempo todo, cortejássemos a morte. Em uma questão de minutos, perdiam-se a compostura e a vida. Por isso, essa hospitalidade forçosa, infalível, inapelável.
         O que eu aprendi no frio debilitante do polo norte é que as pessoas deviam ser como cabanas do Alasca. Um encontro com o outro é como uma reação química que produz calor e energia. Quem dera se, em nossos encontros, o outro abrisse a porta do nosso coração para nele se esquentar sob a temperatura afável de sua lareira, deixando, então, tudo como encontrou. Afinal de contas, o mundo lá fora é hostil e traiçoeiro. Só o aconchego de um coração terno pode nos proteger do vento frio que sopra por toda parte, dos vendavais e tempestades, das nevascas, geadas e granizo, da vida! Da próxima vez que você ouvir os uivos do temporal que se aproxima, experimente fazer-se de cabana para quem estiver sob ameaça da borrasca. Provavelmente, o calor desse encontro será suficiente para aquecer a ambos...





Quatro conselhos para os corações desenganados e cambaleantes

por Milton L. Torres

Alguém já decepcionou você? Já deixou você para trás e foi embora sem nunca nem se voltar para ver como você ficou? Você ainda sofre com isso? Sabia que só depende de você a decisão de mudar e não mais sofrer com os desapontamentos da vida?
A Bíblia diz, em 2 Coríntios 5:17, que “quando alguém se torna cristão, vira uma pessoa totalmente nova. Já não é mais a mesma pessoa, pois tem início uma nova vida”. O que muita gente não entende é que essa declaração não é uma exigência, mas uma promessa. Deus não exige, pura e simplesmente, que reformemos toda e qualquer coisa em nossa existência porque Ele entende que a vida que vivemos, sem Ele, é uma vida de quebrantamento em que nos deparamos o tempo todo com promessas quebradas e corações partidos. Por isso, Ele não manda, mas sugere que optemos por uma vida em que essas coisas não mais perdurem.
Embora não o exija, Deus espera que experimentemos transformação, pois Ele sabe das coisas. Ele nos observa e vê que podemos ter vidas melhores. Podemos juntar os cacos de nossa existência depauperada e triste, e viver uma vida sem medos e lamentações mórbidas. Por isso, Ele nos dá essa opção. Ele sabe que somos capazes de aprender e, se conseguimos aprender, é porque podemos também mudar. Ele entende que sofremos e, se estamos sofrendo, Ele sabe que vamos querer mudar. Por isso, Ele nos ajuda. Mas a decisão é nossa. Podemos optar por uma contínua rotina de sofrimento e prostração ou decidir que as pessoas não podem mais nos magoar porque não mais lhes damos esse poder, essa capacidade.
Quatro conselhos que podem fazer a diferença em sua experiência como ser vivo no planeta Terra: ame a quem ama você! ajude a quem precisa de você! perdoe a quem já magoou você! esqueça-se de quem deixou você! Eu sei. Meus conselhos não soam tão nobres e espirituais quanto os preceitos do sermão do monte. Parecem até o resultado do desejo de autopreservação. Não se engane. Só estou tentando dizer a mesma coisa de uma forma mais suportável para nosso coração desenganado e cambaleante. No final das contas, não se exige nada de nós a não ser o amor: por Deus, pelo próximo e por nós mesmos.




Steve Jobs e a autenticidade da vida

por Milton L. Torres

No dia 12 de junho de 2005, Steve Jobs fez um discurso de formatura na Universidade de Stanford que já se tornou um clássico. Não sou especialmente fã de Steve Jobs nem vou repetir o discurso. O que me afasta da Apple não é, porém, o seu CEO, mas o esnobismo de muita gente que usa os seus produtos. Mesmo assim, vou me ater a uma frase na qual Jobs expressa uma grande verdade. Ele disse (abro aspas): Seu tempo é limitado. Não perca tempo vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixe prender pelo dogma. [E ele, então, dá sua definição de dogma: viver a vida segundo o raciocínio alheio...] Tenha coragem de seguir o próprio coração (fecho aspas). Ele tem razão. Não vale mesmo a pena viver uma vida pautada nas opiniões dos outros.
A fala de Jobs me lembra um poema de Walt Whitman, a quem estimo e admiro muito mais. Abro aspas de novo: O que você deve fazer é amar a terra, o sol e os animais; menosprezar as riquezas; dar esmolas a quem pedir; proteger os tolos e os incapazes; dar parte de seu tempo e renda ao próximo; detestar tiranos; nunca brigar por causa de Deus; não tirar o chapéu para nada, nem ninguém; ficar à vontade entre os poderosos, os sem-cultura e as mães; reexaminar tudo o que você aprendeu na escola, na igreja ou nos livros e abrir mão do que insulta a alma (fecho aspas).
Não vou tentar interpretar essas falas para você. Não é preciso. Mas existe sim uma relação entre o que Jobs e Whitman disseram e a forma como encaramos nossos dias, um após o outro. Não viver dogmas e abandonar o que insulta a alma são gestos equivalentes, postura de quem quer assumir responsabilidade pelas próprias decisões, pela própria vida. Tenho a impressão de que Jobs nunca foi verdadeiramente feliz. Nesta vida, não existem garantias para a felicidade. Mesmo um homem tão bem sucedido profissional e financeiramente pode chegar vazio ao final de sua existência. Aliás, as pessoas podem ser felizes e, então, morrer, mas ninguém morre feliz. Isso não impede, porém, que aproveitemos a sabedoria que essas pessoas coletaram ao longo da vida. Whitman e Jobs sugerem que a forma mais significativa de viver é a autenticidade. Espero que cheguemos lá! Eu e você.




Tuesday, February 07, 2017

O aniversário de um filho

por Milton L. Torres

O aniversário de um filho é a celebração da propagação da vida, que se alastra e contagia a casa, a natureza, o mundo... É um reacender de esperanças, um alçar voo para além do confinamento de dias corriqueiros e monótonos, cobrindo de purpurina e brilho o que nos resta de nossos sonhos e aspirações. É a oportunidade para interromper a corrida louca das horas para perceber que nossa existência produz frutos que valem a pena semear, cuidar e colher.
O aniversário de um filho é nossa elevação à condição de seres perenes, cujo reflexo não desaparece no tempo, mas teima em reaparecer nos gestos banais, no sorriso inesperado, no olhar, na fala, no andar e no jeito de encolher os ombros ou esticar os braços. Quando essas coisas nos surpreendem, nós compreendemos o segredo da vida e nos contentamos com os poucos anos que são concedidos a cada geração, pois sabemos que, de uma forma ou outra, nossa mortalidade encontra seu cumprimento no próprio amor que dedicamos aos gestos banais, sorriso inesperado, olhar, fala, andar e jeito de encolher os ombros ou esticar os braços daquele cujo aniversário festejamos com alegria tão grande quanto a do nascimento...
Tente imaginar a vida sem aniversários! Você terá que pensar na vida das criaturas de Deus que não medem o tempo. Nem pássaros, nem cães, nem bois... só os seres humanos comemoram o momento glorioso de sua passagem anual para situações mais enigmáticas e desafiadoras, de sua iniciação à vida e aos mistérios do envelhecimento. Ao mesmo tempo, só nós podemos sucumbir ao medo paralisante que nenhuma outra criatura sente: o medo de que o tempo vá acabar! Mas não no dia do aniversário de um filho. Nesse dia, não há medo. Nesse dia, não importa se passaremos ou não, pois haverá alguém lá, alguém cuja contínua existência é mais importante e preciosa para nós do que nossa própria sobrevivência e destino.
De fato, no aniversário de um filho, perdemos todos os receios: de morrer de câncer, de virar vegetais, de viver à pálida luz de uma enfermidade ou de não ter coragem de viver a vida que desejamos. Não importa quão ocupados, quão cegos, quão alienados, quão entediados, nesse dia, paramos e fazemos nossas preces. Lançamos ao vento o punhado de areia que tínhamos na mão, apostando em uma longa vida, com momentos de felicidade e fartas ocasiões em que poderemos dizer: - Feliz aniversário, filho!



Friday, January 27, 2017

O meu amigo Braga disse

por Milton L. Torres

O meu amigo Braga me disse que a gente só precisa de quatro coisas para ser feliz: viver com paixão, praticar o bem, pagar o preço e sentir-se abençoado. Eu acho que eu consigo resumir isso em quatro palavras. O que a gente precisa para fazer essas coisas que ele sugere é paixão, bondade, perseverança e bênção. Para viver com paixão, obviamente a gente precisa de paixão. Para praticar o bem, a gente precisa de bondade. Para pagar o preço que tudo isso exige, a gente precisa de perseverança. Finalmente, para se sentir abençoado, é preciso, antes, receber e aceitar a bênção. Sem querer ser engraçado, concluo que, para ser feliz, a gente precisa de PBPB: paixão, bondade, perseverança e bênção!
A paixão vem do coração; a bondade, da alma; a perseverança, dos músculos; e a bênção, de Deus. Claro que a gente não tem controle sobre essas coisas o tempo todo. O que o meu amigo Braga quis dizer é que a gente tem que ter consciência de que precisa dessas coisas. Por isso, para ser feliz, é necessário estar em paz com o coração, com a alma, com o corpo e com Deus. E essa serenidade não falta ao meu amigo Braga, que aprendeu, a duras penas, a sobreviver com um coração largo, maior do que a envergadura total do corpo, maior do que a boca escancarada, que o crânio grande de homem cerebral e o pulmão ofegante de aventuras. Essa serenidade não lhe falta à alma pura de amigo inveterado, à prova de qualquer traição ou desapontamento, acima de qualquer torpeza ou fracasso. Essa serenidade não lhe falta ao corpo enorme, do tamanho de seus sonhos e ideais. Essa serenidade não lhe falta à fé e à certeza de que religião se vive amando, pregando a Palavra com gestos simples e pequenas atenções, não com retórica artificial e vazia, da boca para fora.
Por isso, creio no meu amigo Braga quando ele me diz que, para ser feliz, eu preciso de paixão, bondade, perseverança e bênção. Ele me mostra como essas coisas fazem a diferença na vida feliz de quem as vive. E é isso exatamente o que quero: mais entusiasmo prazeroso pelas efemérides de meus dias corridos; mais carinho nos relacionamentos, às vezes tão apressados e superficiais; mais elasticidade diante da rejeição sumária, da inveja tão perniciosa a ponto de verter agressões verbais e psicológicas, mais espiritualidade para cumprir a missão de amar, ajudar e inspirar aqueles que, por algum motivo fútil, tenham se alienado das minhas convicções ou das suas próprias.
O meu amigo Braga me disse que a gente só precisa de quatro coisas para ser feliz. Discípulo de Joshua Abraham Norton, imperador dos Estados Unidos da América e protetor do México, ele sabe das coisas. Quatro coisas são necessárias. Por que, então, a gente inventa tanta coisa extra, tantas exigências autoimpostas, tantas desculpas esfarrapadas só para continuarmos infelizes e de cara amarrada? Acho que isso nem o meu amigo Braga, apesar de sábio, pode responder...




Não oramos por amor

por Milton L. Torres

Pedimos a Deus um monte de coisas, mas não oramos por amor. Queremos vida longa, uma conta robusta no banco, uma saúde de ferro, o emprego dos sonhos! Oramos por dinheiro, pelas pessoas, por coisas, por planos, por vontades e fantasias, mas não oramos por amor. Oramos até para que o time de futebol ganhe o campeonato, para passar no teste, para comprar o sapato certo, para sobreviver à cirurgia, para melhorar da doença, para pagar as dívidas, para converter os ateus e pela paz no mundo. Oramos para ter o que comer, mas não oramos por amor.
Se fosse por altruísmo que não orássemos por amor, no desejo de deixá-lo para os mais carentes, os indigentes desprovidos de amor... Se houvesse por aí uma quantidade restrita de amor, limitada, difícil de encontrar como ouro, caviar, lanterna chinesa, jacaré albino ou peixe voador... Se necessitasse muito esforço para arranjar... Se fosse muito longe para buscar, ou muito fundo, ou muito alto... Se fosse pesado demais para carregar, ou muito feio, ou difícil de guardar... Então, eu entenderia por que não oramos por amor!
Mas, não! O amor é lindo e fácil de guardar. Não se compra, nem se vende, mas tem para todo mundo, pois é simples de achar. Hipoteticamente. O difícil do amor é que ele exige compromisso, como uma flor que a gente tem que regar. Todos os dias. Se não, murcha. Se não, morre! E a gente não quer esse trabalho... E, por isso, em vez de orar pelo que seria suficiente para acabar com a maldade e oferecer felicidade, gastamos nossas orações com quilos de coisas e toneladas de ambição, como se Deus atendesse a egoísmos.
Deveríamos orar é por amor, amor para perdoar, para aguentar, para tolerar... Amor para mim, para você, para o outro, o semelhante, para os inimigos, para o mundo. Eu até garanto que, se orássemos pelos inimigos, sinceramente, nem teríamos inimigos, nem úlcera, nem câncer, nem ódio. Seríamos santos, pois, no amor, tudo se cria e nada se perde. Se orássemos por amor, teríamos amor e vida. Se orássemos por amor, seríamos amor e vida.




Uma vez me chamaram de louco

por Milton L. Torres

Uma vez me chamaram de louco, não metaforicamente. Eu sei que a pessoa sabia que eu não sou louco. Mas ela falou sério. Sua intenção era provavelmente desacreditar qualquer coisa que eu tivesse a dizer sobre o que eu estava dizendo. A loucura lhe pareceu o caminho mais curto e direto. Afinal de contas, os loucos não têm mesmo muita credibilidade. Além disso, a pessoa também pode ter tido a intenção de me desestabilizar. Eu já fui chamado de muitas coisas, mas confesso que ser chamado de louco me incomodou. Foi um tijolo a mais na parede quadrada que, às vezes, se erige rápida à nossa frente, contra a nossa vontade e sob os nossos protestos.
Uma vez me chamaram de louco, no sentido de débil mental. Isso é pior do que ser chamado de tolo, inconveniente, mal-educado ou sem noção. Essas outras coisas a gente consegue recuperar, estão ao alcance das mãos, dos braços, das pernas e dos pés. A gente pode agarrá-las ou chegar lá, mas quando a sanidade parece tergiversar, não nos restam muitas opções além da camisa de força e da babugem nojenta que nos escorre pelo rosto.
Incomodar-me com essas coisas é a minha prova de que, apesar da imputação cáustica, não sou louco. Ou melhor, não sou inteiramente louco. Eu me reservo a regalia de, ocasionalmente, contrariar o senso comum, desafiar o mundo e não me render às pressões das opiniões alheias. Se você concorda comigo que, às vezes, precisamos mesmo dessa certeza rebelde de que nossa própria ponderação vale tanto quanto o julgamento do resto do mundo, meio a meio na balança, com 50% de chances de você estar certo e o resto do mundo errado, então posso dizer que você é meio louco, como eu. Mas não desanime – você podia ser chamado de coisas piores: indiferente, alienado, desligado ou insensível; uma pessoa sem opinião, Maria-vai-com-as-outras, essa Maria que também era louca, mãe de D. João VI, incapaz de governar, só podendo sair de casa na companhia dos outros.
Uma vez me chamaram de louco, não metaforicamente. Embora constrangido, pensando bem, chego quase a me conformar. Pode ser que haja aí, de fato, certa verdade. Será que há um lado inofensivamente bom na loucura? O que fazem os loucos? Intercalam desvario e lucidez, criam caso e têm dificuldade de se conformar às expectativas alheias, mas falam com sinceridade. Têm fantasias e assomos de grandeza, mas não sofrem quando contrariados. Não contestam quando acusados, apontados e marcados; em vez disso, retribuem à provocação com sorrisos serenos e francos. É quase como que, mesmo loucos, soubessem de seu valor intrínseco...

Quando me chamaram de louco, foi isto o que eu fiz: agi como louco e simplesmente sorri. Vamos espalhar esta loucura de não revidar às afrontas e insultos? Da próxima vez que o chamarem de louco, ou de qualquer outra coisa, não contraponha argumentos de autodefesa e comiseração. Só ria. Talvez rir seja suficiente para vindicá-lo. Se não for, tudo bem. Há quem diga que o mundo precisa dos loucos.