Saturday, January 06, 2018

Natal de anjos


por Milton L. Torres

                E se um anjo lhe aparecesse e dissesse: - Eu não gosto do natal! O que você faria? O que você perguntaria se tivesse a chance de se aproximar desse ser celestial e lhe indagar as razões de seu desencanto e decepção com o natal? O que você acha que o anjo que não gosta do natal lhe diria? Eu posso imaginar o anjo fazendo cara séria, olhando-o firmemente nos olhos e, com certo ar de reprovação, devolvendo-lhe a pergunta: - Por que eu deveria gostar do natal?
                Essa não seria a hora perfeita para você desembrulhar suas respostas enlatadas e mencionar que o natal é o aniversário do nascimento de Cristo, que o espírito de natal enche os corações de esperança e alegria, que a época natalina é a mais feliz do ano. Anjos são criaturas muito inteligentes e, provavelmente, o nosso anjo já conhece esses jargões, já ouviu muitas vezes essas frases serem ditas da boca para fora, sem nenhum conteúdo emocional ou espiritual. Além disso, em seu íntimo, você sabe que não é por isso que nosso anjo não gosta do natal.
                É melhor revolver o coração e tentar tirar de lá uma resposta mais sincera e articulada! Vamos, você consegue! Por que os anjos deveriam gostar do natal quando nós, seres humanos, o comemoramos da forma mais egoísta e disparatada que podemos conceber. Por que os anjos deveriam gostar do natal quando, nessa época, nossas preocupações mundanas se voltam para a glutonaria, a bebedeira, o consumo, a ostentação e, acima de tudo, a indiferença?
                Como podem os anjos gostar do natal quando, em meio a tanta carência e necessidade de nossos semelhantes, gastamos tanto com nossos próprios desejos fúteis e fantasias pervertidas? Quando, em meio a tanta fome, nós comemos e bebemos não como se fosse natal, mas como se estivéssemos às vésperas do dilúvio ou da destruição de Sodoma e Gomorra? Quando, diante de tanto sofrimento, nós nos esquivamos do dever para prosseguir no nosso caminho de levitas e nem damos ouvidos a esses apelos insistentes de nosso coração de samaritanos?
                Apesar disso tudo, você pode dizer ao anjo que releve! Você pode dizer a ele que siga o exemplo do Pai amado que, no caso de Abraão, estava disposto a poupar uma cidade inteira por amor a uma meia dúzia de almas fiéis e puras. Você pode apontar para as crianças e dizer ao anjo que elas, sim, vivem o verdadeiro espírito do natal porque se desprendem das amarras dos egoísmos diários para desejar só o bem àqueles que com elas compartilham a vida. Você pode dizer como nos compadecemos delas e, por sua causa, nos dispomos aos mais inacreditáveis sacrifícios só para vê-las sorrir alegres. Você pode apontar para estas pessoas que nos ouvem agora, estas pessoas que estão aqui, neste lugar, nesta hora, dizendo ao anjo, que, doravante, nós nos empenharemos, de todas as formas possíveis e imagináveis, para que os anjos gostem do natal. Pode dizer ao anjo que nós buscaremos, neste natal, a felicidade do próximo mais do que a nossa própria alegria e que, ao fazer isso, daremos início a uma corrente do bem, que há de contagiar a todos os outros seres humanos deste planeta para que, juntos, transformemos o natal naquilo que, de fato, deveria ser: um natal de anjos!



Sunday, December 17, 2017

Discurso de Formatura para a Turma de Tradutores & Intérpretes de 2017

por Milton L. Torres

         Ser professor é a tarefa mais difícil do mundo, pois nenhum outro emprego exige que nos afeiçoemos às pessoas para, três, quatro ou cinco anos depois, termos essas mesmas pessoas separadas de nós de forma abrupta e, quase sempre, definitiva. Há casos, como o dos enfermeiros, em que genuína afeição acontece, mas por pouco tempo. Não se criam laços, imagino, e as raízes dessa afeição podem ser ternamente arrancadas do terreno fofo em que estiveram plantadas por um intervalo minúsculo de tempo. Com os professores é diferente. Os laços se estreitam, se apertam, se misturam, se entretecem de maneira tão definitiva que é só com sangue que se desfazem, com lágrimas!
         Turma de tradutores e intérpretes de 2017, não quero incomodá-los com os sentimentos de saudade que vocês tão despretensiosamente nos impõem hoje. Afinal de contas, a ocasião exige um espírito mais alegre, um vislumbre mais venturoso do futuro e da vida!  Não estamos aqui para lamentar essa cúmplice proximidade que, sob Deus, nos uniu para sempre, mesmo à distância de milhares de anos-luz, mesmo sob os escombros debaixo dos quais enterramos hoje esses sentimentos de falta e perda! Pelo contrário, estamos aqui para celebrá-los. Estamos aqui para celebrar que não serão mais forçados a fazer nenhuma interpretação sob o crivo de um professor dedicado, mas exigente. Estamos aqui para celebrar sua vitória na impecável, ou quase impecável, apresentação do TCC. Estamos aqui para celebrar o fim de projetos integradores e provas interdisciplinares que portam o exótico nome de uma velha tia rabugenta! Estamos aqui para celebrar que não precisarão entregar nem mais uma linha para a Ana Schäffer, nem mais um memorial para a Tania Torres. Estamos aqui para celebrar que não terão que cantar nem mais uma música para o Édley, não terão que representar nem mais uma peça de literatura brasileira, portuguesa, inglesa, norte-americana ou grega! Não terão!
         O que vocês terão que fazer, doravante, será muito mais complexo e desafiador. Vocês se emaranham hoje nesta impenetrável, inquebrantável, inesquecível teia de sentimentos e sonhos. Resta-lhes, a partir de hoje, um único professor: a vida! Resta-lhes, a partir de agora, uma única prova: o caráter! Resta-lhes, a partir de agora, um único olhar em direções comensuráveis: para frente, para o alto, para dentro, para o amanhã. Não há como prever quantos viverão, quantos sobreviverão, quantos serão, de novo, amados e quantos amarão. Só posso, ao invés de lhes dar essas garantias, convidá-los a olhar para trás toda vez que forem tentados a ceder à dúvida. Lembrem-se do orgulho com que cada professor os observa hoje. Lembrem-se do meu tom de voz. Lembrem-se! Porque, ainda que se passe uma eternidade até o nosso próximo encontro, seus nomes agora têm significado: Marina, Débora, Giovana, Naty, Vítor, Hanna, Karina, Luma, Laíza, Alexandre, Benjamin, Viviane, Thaís, Évelyn e César. Essas palavras deixaram de ser meros hipocorísticos, como diria a Naty, e se transformaram em nomes mágicos, abre-te-sésamos da minha vida.
         Obrigado por vocês existirem. Obrigado por vocês terem trazido riquezas incalculáveis para a vida no aquário. Obrigado por vocês tangerem, hoje, tão profundamente as cordas que embalam o nosso sonho, que é, principalmente, ter-lhes ofertado de volta um pouco do muito que vocês nos concederam com seus sorrisos, olhares, gestos, perdões e, acima de tudo, sua atenção benevolente. Sentimos que, de modo estoico, vocês se esforçaram para ouvir nossas historietas, essas bravatas e lugares-comuns com as quais entupimos seus ouvidos e mentes. Vocês nos fizeram sentir importantes. Isso só demonstra sua nobreza e aptidão para o bem, herança certa e líquida da educação que receberam em casa.
         Vocês vão agora e levam consigo um pedaço grande do nosso coração, provavelmente os 250 gramas que o Mercador de Veneza recomenda. E nós, professores e amigos, ficamos aqui para viver a vida com os 50, 60 gramas de coração que nos restam. Não precisam inventar novas tecnologias, não precisam fazer propaganda enganosa, não precisam descobrir a cura do câncer, não precisam ficar milionários antes dos quarenta anos de idade nem serem os primeiros astronautas a colocar os pés em Marte. Não precisam. Podem até fazer essas coisas. Mas não precisam. Considerem esse volume do nosso coração como um empréstimo, a peso de ouro, cujo pagamento exige apenas uma coisa: que vocês sejam felizes!





Wednesday, November 15, 2017

A reação do professor


por Milton L. Torres

                Se todos os alunos que eu tiver de agora em diante, até a minha aposentadoria, resolverem me odiar e decidirem me fazer todo tipo de pirraça e desfeita em sala de aula, no cômputo geral, eu direi que fui feliz como professor. O afeto que recebi até hoje dos alunos é avassalador e garante que nenhum complexo de inferioridade me persiga. Posso dizer, de boca cheia, que fui tão amado quanto amei!
                Se você já leu alguma linha que eu tenha escrito no passado, sabe duas coisas: que eu sou meio dramático para falar das minhas experiências como professor e que sou absolutamente sensível ao que se passa na sala de aula, especialmente quando isso afeta os meus alunos. Aliás, considero os momentos da aula como os mais sagrados do dia. Nada me dá mais prazer do que ser testemunha do despertar das mentes jovens para as línguas, a literatura, a filosofia e a vida! Afinal de contas, o que são essas coisas senão a mais autêntica manifestação da existência?
                Se você não entende por que eu estou falando dessas coisas agora, eu explico. Ontem alguns alunos se organizaram para me fazer uma demonstração de carinho, que poderia ter sido uma homenagem por eu ter sido seu professor conselheiro deste semestre, ou pelo fato de meu aniversário ter sido há alguns dias, ou uma despedida do coordenador que deixará a função no final do ano. Não foi nada disso. Foi uma espontânea e, para mim, comovente revelação de carinho. E sabe de uma coisa? Fiquei surpreso, mas não espantado! Não se pode esperar senão carinho de quem é carinhoso. Não se pode esperar senão o máximo de quem é o melhor!
                Se você ainda continua perdido e sem qualquer noção quanto às razões por que estou aqui ruminando e saboreando um momento inesquecível, é porque você não estava lá. Não sabe por que se leem os clássicos, não entende por que é importante encontrar alguém para amar, não veste camisa branca de manga comprida, não entende, não sabe “além da matéria”, nunca lhe disseram “da face da terra”, nunca os alunos o chamaram, em latim, de “arquiteto do próprio destino”, nem de “capitão”, nem de “o cara”! E, possivelmente, nunca nenhum aluno tenha tido a coragem de encará-lo de frente e dizer: - Você é o professor chato mais legal que já passou na nossa vida! Nem deve ter ouvido a palavra FAVORITO no contexto da relação professor-aluno. Pois eu, sim! Eu estive lá! Eu vi com os próprios olhos! Eu ouvi com os meus ouvidos! Eu senti com este coração que bate, mas, às vezes, bate desordenado, skipping a beat!

                Se você ainda não consegue me entender... Eu lamento. Se após se, não é possível iniciar outro parágrafo com a conjunção condicional. Paremos de nos referir às hipóteses e sejamos claros: você não entende muito de educação e não sabe o que é ser professor de alunos excepcionais que entendem das palavras, das línguas, dos livros, dos pensamentos e, principalmente, dos corações! Obrigado, Franklim, Taila, André, Julie, Yuri, Adriane, Ana, Jeyce, Jeynifer, Dri, Emiily, Amanda, Camilla, Agatha e Giovana, os melhores alunos que um professor poderia desejar. É por causa de vocês que posso dizer que tenho o melhor emprego do mundo, melhor do que o estrelato na TV, melhor do que a cátedra das ciências, melhor do que o hub do vale do silicone, melhor do que o bisturi do médico e do que a aquarela do pintor, melhor do que o frenesi da bolsa de valores! Sem dor no estômago, sem noites em claro, sem reservas quanto ao futuro, só com boas emoções, muitas emoções...



Monday, November 13, 2017

Crianças que viajam sozinhas

por Milton L. Torres

Em 2002, tomei um voo em Atenas para Frankfurt, onde faria uma conexão para os Estados Unidos. Ao embarcar, notei um casal choroso que se despedia da filha de uns oito anos de idade que ia tomar o mesmo voo para fazer uma conexão rumo ao Brasil. Sem notar a presença deste outro brasileiro à paisana, conversavam, em português, sobre os riscos de uma criança viajar sozinha. A menina tentava tranquilizar os pais, sacudindo afirmativamente a cabeça para cada conselho recebido.
Depois do embarque, notei que a menina se acomodou em um assento pouco à minha frente. Antes, porém, da decolagem, corri até ela e lhe disse, em português, que, se ela tivesse qualquer dificuldade para se comunicar, podia recorrer a mim, porque eu falava português. Para minha surpresa e satisfação, ela me explicou que, além do português, falava outras línguas, inclusive o inglês. Voltei, portanto, ao meu assento, convencido de que, apesar de tão jovem, a menina de cabelos cacheados tinha desenvoltura suficiente para lidar com a situação sem a minha interferência. No entanto, no meio do voo, o avião foi desviado para a Bulgária porque uma pessoa tivera uma complicação cardíaca. Depois que nosso avião foi invadido pela equipe de resgate e o passageiro foi retirado às pressas e em grave condição, a menina pediu à aeromoça para se sentar ao meu lado. Permanecemos juntos até nos separarmos para nossos respectivos voos.
Até hoje eu me perguntava que impulso me havia levado a procurar a garotinha de Atenas para lhe oferecer minha proteção. Até hoje eu pensava que havia sido meu instinto paternal. Afinal de contas, eu tinha uma filha da mesma idade e isso me havia levado a agir como pai. No entanto, estou agora, neste exato momento, noutro voo, entre Caracas e a Cidade do Panamá, e um garotinho de uns nove anos de idade viaja sozinho, sentado entre mim e uma jornalista venezuelana, que não podia lhe ser mais indiferente. Eu, por outro lado, estou aqui cuidando de todos os detalhes possíveis para que ele tenha um voo confortável e seguro. Aí me dei conta de que não podia ser apenas o instinto paternal agindo. Com os filhos crescidos e nenhum neto à vista, chego à conclusão de que é outra a razão para minha preocupação com crianças que viajam sozinhas. É que sou professor!
Dizem que sou um professor do tipo tradicional e, se isso significa que sou igual ou parecido com os professores que tive ao longo de minha carreira acadêmica, então devo concordar: sou tradicionalíssimo. Os professores que encontrei nas escolas públicas de Minas Gerais, as únicas nas quais estudei até chegar à faculdade, eram responsáveis, exigentes, envolvidos, tinham tutano e substância, foram a melhor influência que tive na minha infância e a principal razão por que escolhi a carreira de professor. No entanto, esses professores são impiedosamente criticados pelos pedagogos de hoje como arrogantes, presunçosos e, acima de tudo, controladores. Não conheço outra profissão que tenha sido tão constantemente difamada quanto a do professor. Sendo assim, não é de admirar que quase ninguém ainda nos respeite, nem mesmo os alunos que convivem conosco e testemunham nossos esforços. A sociedade também decidiu crer naqueles que se levantam para denunciar nossas incapacidades.
Para o avanço da medicina, não foi necessário pichar os médicos. Para o avanço da tecnologia, não foi necessário falar mal dos programadores. No entanto, para o “bem” da educação, não se faz outra coisa senão atacar os professores, seus métodos, sua conduta, seus ideais. Até o adjetivo “tradicional”, de significado tão positivo em outras esferas, foi conspurcado por sua associação com a profissão docente. Não é à toa que estamos nos tornando uma classe sem coração e, o que é pior, sem alma.

Podem me criticar e me diminuir, mas é com uma preocupação como a que tenho com as crianças que viajam sozinhas que entro cada dia na sala de aula. Sou responsável por todas elas. Sinto a sua apreensão e inseguranças. Busco a sua felicidade. Na ausência imediata dos pais, eu me ponho in loco parentis. Por isso, se o avião estiver em perigo, não lhes vou perguntar o que devo fazer. Eu é que vou lhes dizer o que devem fazer. Não espero que me salvem nem que me confortem. Eu é que quero salvá-las e, para salvá-las, peço que confiem em mim, pois, no caso da sala de aula, não sou apenas um passageiro qualquer nem tampouco um tripulante distraído. Eu sou o capitão, com a experiência de trinta e tantos anos de voo. Mas como podem confiar se escutam tantas coisas negativas que se dizem hoje do professor? Por isso, peço que parem com o enxovalhamento dos professores. Parem com as pedradas! Nós só queremos proteger as crianças que viajam sozinhas... Só queremos levá-las, em segurança, ao seu destino.



Monday, November 06, 2017

Como sobre-viver ilesos


por Milton L. Torres

                Carl von Clausewitz foi um militar da Prússia que ajudou a negociar o tratado de paz entre a Rússia, a Prússia e a Grã-Bretanha, o que ajudou essas nações a deter Napoleão Bonaparte. Como homem acostumado à linha de frente, von Clausewitz sabia o que era a guerra. Por isso mesmo, declarou de forma enfática: “se queremos que a mente emirja ilesa dessa luta renhida com o invisível, duas qualidades são indispensáveis: um intelecto que, mesmo na hora mais negra e tenebrosa, consiga reter o brilho da luz interior que o leva à verdade; e a coragem para seguir essa luz tênue aonde quer que ela o leve”. Eu acho que o militar superestimou o poder dessa luz interior. Em nenhuma circunstância, conseguiremos passar incólumes pela vida. E nem deveríamos querer isso. As marcas que carregamos dessa luta nos ajudam a medir o grau de nosso enlouquecimento e a magnitude de nossas realizações. A luz não impede a dor; ela, ao contrário, não faz, em certas ocasiões e só em certas ocasiões, nada mais do que ofuscar os olhos alheios de modo que não consigam discernir que trazemos na alma os hematomas de sangrentos golpes.
                O meu amigo Joubert Castro Perez sabe muito bem o que inventar para sobre-viver! Sobre-viver, com hífen. Entenderam? O que eu mais gosto nele é que ele não faz nenhuma pretensão de possuir essa luz tênue e individual de verdade, embora a tenha! Ele não se faz de medida para medir os outros. Ao contrário disso, ele se apresenta a todos os que o conhecem com as marcas de suas loucuras e realizações. Dá para ver em cada ferida, sem tentativas de ocultação, o quanto tudo isso lhe custou. Dá para ver na carne viva! E quando se vive à flor da pele, a gente consegue sentir, depressa e prontamente, a dor do outro. Daí vem essa sensibilidade sutil e aérea que o Joubert leva a tiracolo, sua tentativa não de esconder ou abafar, mas de elevar o corpo magro à altura protegida das ideias e dos ideais.
                Se quisermos passar ilesos pela vida, a única alternativa que nos resta é a solidão. Mas não foi isso que o Joubert quis. Em vez disso, de vez enquanto, ele se recolhe à companhia do caniço e das iscas. Ali recupera o brilho tênue da verdade e assim continua a nos ofuscar com sua sabedoria despojada e simples, com o sorriso luminoso de quem, em sua complacência, já viveu a vida e sabe o segredo, o segredo arcano que ninguém mais conhece, o enigma que ainda nos intriga. Pois não se enganem: o Joubert sabe das coisas! O Joubert sabe tudo!



Wednesday, June 07, 2017

Mensagem que mandei a uma aluna que me perguntou se eu me lembraria dela depois de formada

A vida é mesmo cheia de surpresas. Nunca pensei que, nas voltas que ela dá, eu viesse a me tornar amigo de uma descendente de italianos com cara e atitude de japonesa, mas que gosta de mandarim e fala inglês. O mais interessante é que você consegue fazer tudo isso sem perder o fôlego ou a pose. Aliás, pose não lhe falta nunca, até quando está atrasada ou visivelmente na contramão dos fatos. Não sei se somos do mesmo planeta. Já peguei você em rasantes voos em Marte, Júpiter ou algum satélite perdido no espaço. Ainda bem que você tem suas estratégias para retornar a Houston, nem que seja na cauda do cometa ou no tapete de Aladim. Mas você não precisa sofrer de nenhum complexo de inferioridade. Sonhar de olhos abertos é uma arte que poucos conseguem cultivar. E, no cultivo desse legume chamado sonho, você parece especialista. Aliás, eu sempre soube que os japoneses eram bons de horta! O surpreendente é que, às vezes, me pego catando as sementes que você plantou. O que eu quero dizer é que eu também gosto de me perder nos anéis de Saturno ou em alguma terra distante: na Grécia, de preferência. É, por isso, que – depois que você se formar e for embora – tenho a esperança de nos encontrarmos com frequência. É só a gente programar nossos devaneios para a mesma hora ou batcanal.
Será impossível não me recordar de você. Afinal de contas, foram muitas as encruzilhadas nas quais nos encontramos, de repente, sem nos dar conta disso. Às vezes, você abandonou o navio antes de ele afundar. Outras vezes, entretanto, você aguentou o tranco e ficou até o fim. De qualquer forma, você foi sempre leal, amiga, paciente, animada e presente (ainda que, às vezes, só de corpo). Sempre quis o melhor para si mesma e para os outros. Nunca foi desleal, autoritária ou impertinente. Podia continuar aqui no UNASP e fazer dez graduações que continuaríamos amigos, pois os nossos santos se batem, pássaros da mesma pena que somos, embora cada um voe à sua maneira e para destinos nem sempre coincidentes.
Infelizmente, daqui a pouco você terá que partir para seus voos de ave solitária e, a partir de então, dona do próprio nariz (ou será que eu devia dizer do próprio bico?). Vai ficar um pequeno vazio no coração de cada um que conviveu com você ou participou de uma boa briga com a italiana desse cruzado forte de esquerda. Quando você tiver comprado aquela casa com a qual você está sonhando e que já descreveu para mim, saiba que haverá, em algum canto da sala ou da cozinha, um pequeno espaço cheio de ar que pode muito bem representar esse vazio do qual acabei de falar. Nunca mais seremos os mesmos. Nunca mais conviveremos todos juntos e felizes como quando estivemos aqui no UNASP. Seus amigos partem para suas próximas aventuras, eu fico aqui imaginando o que vocês estão fazendo da vida e você parte em busca desses sonhos com os quais você se envolve tão fácil e completamente. Pode ir, sonhadora! Você tem a minha torcida. Desejo mais o seu sucesso do que a vitória do Brasil na copa.

Tripulação, preparar para o pouso


por Milton L. Torres

                Em nossa era global de viagens rápidas e frequentes, cada vez mais confortáveis e seguras, eu especialmente gosto de ouvir o anúncio do piloto, geralmente sem nenhum aviso prévio: - Tripulação, preparar para o pouso.
                A frase evoca a alegria de voltar para casa, de chegar ao destino, a realização e satisfação de ter cumprido um trajeto, de estar perto da destinação... Provoca também a movimentação dos passageiros, apertando o cinto de segurança, travando suas respectivas mesas, desligando os dispositivos eletrônicos, devolvendo o recosto do assento para a posição vertical, desfazendo-se dos descartáveis. É um chamado à ação que precede a inação. É um convite a um estado de alerta em que, apesar disso, nos colocamos, meio entorpecidos, sob os cuidados daqueles que nos farão pousar em segurança.
               Fico imaginando se é possível ouvir essa mesma frase estereotipada num ambiente diferente daquele ao qual estamos acostumados nos voos da aviação comercial. Imagino também se ela provocaria em nós reações equivalentes. Eu acho que isso é possível. Foi assim que me senti quando completei cinquenta anos de idade. Ouvi, claramente, uma voz falando pelo autofalante: - Tripulação, preparar para o pouso.
                Diferentemente, porém, do que acontece na aviação comercial, pareço ter sido o único a ouvir a voz, apertar o cinto de segurança e seguir os demais itens de protocolo para um pouso seguro e feliz. As demais pessoas continuaram a se comportar como se estivessem no meio da viagem, em velocidade de cruzeiro, acima das mais altas nuvens do céu...
                É interessante que, na vida, ao contrário da aviação, não chegamos juntos ao destino. Cada um chega lá na sua vez, às vezes até inesperadamente. Os outros não ouviram a voz. Mas eu ouvi, e fico grato por ter ouvido. Seria trágico se o avião pousasse inesperadamente, em meio à turbulência, e eu não estivesse preparado para esse acontecimento sinistro.
                Desde que ouvi a voz, não faço outra coisa senão me desfazer de tudo o que é descartável. Não vejo sentido em me apegar a toda essa tralha que venho carregando comigo, até agora, até este momento da viagem. Assim, venho descartando as coisas. Naquela hora, quero comigo apenas o que for estritamente essencial.
                Ao mesmo tempo, apertei, com firmeza, o cinto de segurança. Isso significa que estou preparado para um pouso suave, impacto ou colisão. O que vier pela frente não me pegará de surpresa. Outra coisa que venho apertando é a mão dos outros passageiros. Não se trata de medo de voar, só quero o conforto de saber que alguém me segura a mão porque é importante a companhia dos outros. Não podemos terminar a viagem solitária e tristemente.
                Já travei a mesinha e coloquei meu assento na posição vertical, pois o fim da viagem não é hora de trabalhar, nem de relaxar. Pelo contrário, é hora de alcançar o equilíbrio pelo qual seremos lembrados. É, acima de tudo, o momento de sermos corteses, amorosos, espontâneos e fiéis às coisas que nos definiram e continuarão a definir enquanto houver lembrança da partida e da chegada.
                Fora isso, ainda não consegui desligar os dispositivos eletrônicos, mas já tenho uma boa ideia de que precisarei fazê-lo em breve, hoje ou amanhã de manhã. Afinal de contas, não adianta tomar todas as outras medidas de segurança se não vamos investir nossa atenção inteira no fim da viagem e suas repercussões. Nessa hora, é preciso ter as mãos livres para abraçar e beijar, e despedir-nos, e desejar boa sorte, e olhar bem para os olhos das pessoas e recordar o quanto elas nos fizeram felizes, o quanto fomos felizes juntos...
                O melhor, entretanto, é que, nesse fim de viagem, não temos que reclamar nossos pertences na esteira de número três, nem providenciar os meios para a continuação do deslocamento. Outros cuidarão dessas coisas... Podemos, em vez disso, apenas descansar em paz!





Thursday, May 11, 2017

Convite para dançar


Milton L. Torres

                Eu fui precoce na minha adolescência. Desde aquela época, meu desejo era encontrar a moça certa e, com ela, constituir família. O problema é que eu era tímido. Morando no subúrbio de Belo Horizonte, a melhor forma de conhecer uma moça era frequentar os bailes do bairro, e era isso que eu fazia. Eu me arrumava da melhor forma que podia, ia periodicamente para os bailes e observava as pessoas, mas sempre me faltava coragem para me aproximar de uma moça e convidá-la para dançar. Sem essa coragem, minhas chances eram mínimas e eu ficava ali, no canto, torcendo para que alguma delas, alta ou baixa, bonita ou feia, se aproximasse de mim e me convidasse para dançar. Mas isso nunca aconteceu. Nenhuma vez. Never ever! Talvez, por isso, hoje tenho uma imensa satisfação quando alguém me convida para dançar.
                Não, eu não virei dançarino. Estou falando metaforicamente. Considero como convite para dançar toda vez que uma pessoa discorda de mim. É minha oportunidade de interagir, expressar minhas ideias, falar de minhas emoções, de certezas e incertezas, de movimentos cadenciados e estéticos, de arte e técnica. Quando alguém discorda de mim, não me aborreço, nem me ofendo. Não me descabelo. Os olhos brilham, o sorriso se estampa no rosto, e começo os meus movimentos, ensaiados e precisos ou espontâneos e instintivos. Às vezes, me esqueço do tempo e do espaço. O foco de minha atenção recai inapelavelmente na escolha das palavras e no prazer de ser diferente, pensar com meus próprios neurônios e assinar, com letras garrafais, o meu próprio nome.
                Assusto-me, ocasionalmente, quando percebo que os outros se sentem atropelados. Detesto ver suas fisionomias carregadas, os lábios apertados e a fronte sisuda e pouco amigável. É como se marcassem o passo com um pé esquerdo cafifento e intrometido que insiste em me pisar um dos pés, na falta do cruzado de direita que poria fim a minha alegria e tagarelice. Dizem que também o boxe é uma dança. Mas não sou pugilista. A minha agilidade se resume ao compasso da fala. Não são estocadas, nem golpes as palavras que uso, mas rodopio e coreografia. Sua intenção é o sensível e o razoável. Seu desígnio e finalidade é o plausível, o imaginável, o presumível!
                Se você me convida para dançar, presumo que goste, que queira, que lhe apeteça. Vou logo lhe tomando a mão, os braços, a cintura, no balé das palavras, no ritmo de nossa sintonia. Por um momento, nos tornamos namorados nos argumentos, amantes nas ideias, afeiçoados no pensamento. E me enlevo tanto, que sou capaz de só lhe soltar a mão, os braços e a cintura, quando estivermos extenuados de mil rodopios e contradanças. A menos... a menos que, como me fez a primeira moça que convidei para dançar uma quadrilha, a razão de meu trauma adolescente, você fique vermelho de pudor e, com um muxoxo, se despeça com um tapa, bem dado, no meu rosto encabulado.