Tuesday, January 17, 2017

Pretendo viver uma vida longa ou As vantagens de dizer o que se pensa

por Milton L. Torres

                Pretendo viver uma vida longa. Não sei o que você pensa disso, mas eu simplesmente adoro viver. Eu gosto de futebol, sou fã de sorvete, fico horas conversando com alguém que seja bom de papo, não perco nenhuma refeição, paro para admirar o sorriso das pessoas e, principalmente, não abro mão da música. Nada me incomoda: nem o latido do cão, nem o mormaço da tarde, nem a chuva inesperada, nem o canto do grilo, nem a coceira no pé, nem a buzina impaciente, nem o engarrafamento na hora da pressa, nem mesmo as reclamações dos outros. Nunca sofro de dor de cabeça, não tenho falta de ar, nunca padeço de tédio. Tudo, para mim, é diversão: o trabalho, a briga, os estudos, o ócio, a leitura, a hora de lavar os pratos! Está bem, há uma coisa que não coloco na minha lista: exercício físico, se não for para competir.
                Pretendo viver uma vida longa. Não guardo rancor, não fico remoendo os erros, não tenho medo de chutar o balde, não me acomodo com o que sei; porém, digo, logo de cara, o que me limita e, por isso, faço tudo do meu jeito, quer você queira ou não. Se não houver lugar para mim, o problema é seu. Vai perder a companhia! Eu não vou ficar sozinho. Tenho, afinal, esse instinto, faro para encontrar o outro, habilidade para ralar o coco, e o sorriso de uma lata aberta, sem medo, nem remorso! Não ligo para roupa, nem carro, nem smartphone, nem outro badulaque que encha os olhos do habitante comum da cidade. Eu não sou comum, nem troco ouro por espelho.
                Há vantagens na roupa velha e sem grife, pois corta o caminho do cálculo ambicioso, de quem só gosta das roupas e das grifes. Há vantagens em dizer o que se pensa: só se aproximam aqueles que já nos pesaram as palavras e sentiram que estão na mesma maré irresistível que nos puxa para o mar, nos mesmos sonhos alados, aguados, banhados com os raios do sol e com a luz das estrelas, a mesma vocação para o espaço aberto e os mergulhos profundos, sem ar, sem claridade, no meio dos tubarões. Há vantagens em dizer o que se pensa: esvazia-se a garrafa velha, limpa-se o antigo armário, cheio de vestes puídas e fantasias emboloradas, onde a traça corrói e o verme não se cansa nunca. Há vantagens em dizer o que se pensa: adeus, sentimentos sufocantes, lastimosos, comiserações e frustrações molestas!

                Pretendo viver uma vida longa. Não sei o que você pensa disso, mas é isto o que pretendo: setenta, oitenta, noventa, a dentadura no copo, o amparo da bengala, de mãos dadas, sem enxergar direito, tateando, trôpego, olhar morcegal, mas vivo! De pena trêmula na mão, o olhar fixo na página, um sorriso nos lábios e as certezas no coração, que ainda bate e palpita em um brinde à vida. Pretendo viver uma vida longa. Se não der, porém; se não me for possível, porém, alcançar a coroa longeva da minha fortuna, não me lamente! Valeu mais ter vivido feliz até hoje do que apenas projetar uma sombra imóvel e indistinta na parede esburacada do tempo, no tapume encovado de um futuro com o qual só posso sonhar, imaginar e desejar... Quem vive feliz nem precisa, de fato, viver muito, pois não há como viver mais, só viver melhor!

Friday, January 06, 2017

Anjos Desengonçados

por Milton L. Torres

Já sonhou que estava voando? Os braços abertos, as pernas rigidamente impulsionando o voo, como se o céu fosse uma piscina azul e as nuvens boias clandestinas empurrando a imaginação até a próxima parada... Até o pouso? Já se sentiu no palco iluminado, marcando o ritmo da canção, da sua canção, cantada em uníssono por milhares de vozes na plateia, enquanto você aguarda o fim do coro, esperando a sua vez de retomar a melodia, de elevar a voz até o mais agudo tom, antes de receber os aplausos intermináveis daqueles que, extáticos, observam? Já se imaginou invencível, inquebrável, imbatível, indomável, infringível? Já acordou alguma vez, no meio da noite, com o peito encharcado de sonhos e visões além do alcance da memória, além das fabulosas fronteiras da fantasia? Já se viu como o centro de tudo, o vértice de convergência do universo, a ponte invisível e infinita que liga todos os pontos e que atribui sentido à vida, ao prazer, à eternidade? Já sorveu atordoado o néctar inebriante de miragens e poções que vão lá, ao longe do futuro, fora do abraço das mãos, mas perto da boca, dos olhos e do coração?
Quer saber o porquê disso tudo? Somos iguais a anjos! Não estamos aqui para rastejar, nem para imitar o passo lerdo dos bípedes que se amontoam à nossa volta. Deveríamos ruflar as asas e subir, subir, subir, até o sol, até as estrelas, até a escuridão silenciosa e confortante do espaço sideral. Daí, os nossos sonhos de grandeza, a nossa vontade de ser os protagonistas da história universal, esta necessidade que temos de voar, cantar, vencer, sonhar, viver. Somos iguais a anjos! E por que não o fazemos? Por que nos limitamos a seguir, sem pressa, em nenhuma direção? Por que ficamos patinhando e definhando e nos debatendo exaustos no entorpecido lago da insignificância? Sim, somos iguais a anjos, mas anjos desengonçados, atrapalhados, desajeitados e canhestros. Como eles, nós caímos do céu e agora, desconjuntados, nos contentamos em viver a vida terrena dos répteis! Nós nos tornamos reptilianos. Sonhamos como anjos, mas andamos, vivemos e agimos como répteis. À moda das serpentes, o que franqueamos aos outros é peçonha e frieza...

Precisamos recuperar as nossas asas, reconquistar a nossa condição igual a anjos! Eu sei. Você já está pronto para contestar, e protestar e bradar suas objeções religiosas e metafísicas. Não cabe em nossa tradição essa ideia de que seres humanos e angélicos se misturem. Somos só humanos, feitos do pó da terra e condenados à poeira da estrada da vida. Quando erramos, a culpa é dos demônios que nos tentam incessantemente. Quando acertamos, atribuímos qualquer minúsculo e improvável acerto aos astros, ao destino. O nosso princípio mais solícito é, em todo caso, nos eximir sempre e totalmente de qualquer responsabilidade. Mas você não sente a ânsia? Não lhe lateja a vontade de ruflar as asas? Qualquer metafísica que se preste tem que nos dar pelo menos um átimo de esperança! Você crê? Sabe o que faria um anjo? Anjos são ventos e labaredas de fogo, que saem ao encontro das pessoas! O pão dos anjos chega na exata hora da mesquinha fome... Percebe o que nos falta para sermos anjos? Há anjos desengonçados e toscos, e eu quero ser um deles. Quero chegar na hora exata do sofrimento corriqueiro, da dor insuportável, do desespero, da desesperança e da morte. Desjeitoso e pesado, quero sair ao encontro das pessoas... Quero de volta as minhas asas... Quero ser igual aos anjos!

Wednesday, January 04, 2017

Nunca, nunca quebre o coração de um pai


por Milton L. Torres

Você pode partir o coração de qualquer um que tenha coração. Eu lhe dou o meu consentimento explícito. Não me importo. Não poupe o cavaleiro de armas reluzentes, nem os heróis tatuados com serpentes! Não poupe nenhum rapaz que a espere na esquina, nem Débora, Rita, nem Cristina. O nome não importa. Nem o grau da aproximação. Pode ser amigo, colega, parente! Se quiser, saia por aí quebrando corações: de ilustres desconhecidos, de coronéis circunspectos só na aparência, de astronautas em busca de aventura, de atletas risonhos, mas sem compostura, de pianistas hábeis e suaves bailarinas, até do palhaço que solta fogo nas narinas! Mas nunca, nunca quebre o coração de um pai, que um velho coração não suporta, não aguenta esse ai! Não me tire a única esperança de ternura. Não me tome o fio fino e pequenino em que a vida se pendura.
E, quando for tentada, por um capricho passageiro ou deliberada intenção, a quebrar o coração do pai, lembre-se de que basta uma acanhada negligência, um esquecimento sutil (quase imperceptível, quase involuntário), certa sonolenta indiferença, qualquer que seja seu formato, textura ou entretom, para produzir a avalanche que fará brotar a onda avassaladora da minha falência total e irremediável. Afinal, coisas tão velhas quanto um coração de pai não se quebram, espatifam-se, esfarelam-se. Não podem ser coladas nem sofrer reparos. Por isso, cuidado, muito cuidado com um coração de pai! Não me tire a única esperança de sutura, pois só uma filha pode salvar o coração do pai.
Pode me levar um rim. Tome um pulmão e o afogue na piscina, me faça perder uma perna numa mina, me arranque um braço ou corte meio quilo do meu fígado, me fure um olho, me envenene com repolho, me fatie os dedos em tantos segmentos, que até na China se ouçam meus lamentos, me perfure uma mão, me arrebente um colhão, me extraia um dente por dia, me enfie agulhas na unha do dedão do pé, faça como quiser, mas nunca, nunca quebre o coração de um pai, que essa dor não posso suportar. Não me tire a única esperança de doçura; me poupe da tristeza, do desgosto e da loucura.
Pode me deixar imóvel, reduzido ao cárcere. Pode levar todo o meu dinheiro, me tome os livros, as roupas, me deixe de chinelos. Roube o meu humor, a fé, a confiança. Mas não faça ruir os meus castelos, me dê a expectativa, de que quem espera sempre alcança. Você pode fazer tudo isto e muito mais, qualquer coisa, ultraje, pirraça, infâmia ou desfeita, mas me deixe o coração intacto. Não o quebre com martelos, não o faça em farelos! Não me tire a única esperança de alvura; pois o amor de filha é a prata, no branco, da abotoadura.

                Nunca, nunca quebre o coração de um pai!

Thursday, December 29, 2016

Chegou o ano novo


por Milton L. Torres

                Chegou o ano novo, e nós chegamos com ele. Podíamos ter ficado pelo caminho, como outros ficaram. Mas não ficamos! Aviões caíram, mas nós seguimos voando. Estrelas se apagaram, mas nós seguimos brilhando. Vozes silenciaram, mas nós seguimos cantando. Queridos adormeceram, mas nós seguimos acordados. E isso não é mérito nosso. Se seguimos, é porque foi a nossa vez de receber misericórdia, como no caso daquela tartaruguinha recém-nascida que, num ato de bondade aleatória, um estranho lançou ao mar para fazê-la viver, crescer, experimentar o sabor das ondas e se apaixonar pela vida e pelos vivos. Somos tartaruguinhas recém-nascidas que faremos o que for preciso para continuar vivas no balanço das ondas...
                Só que não! Se refletirmos bem, não será nem um estranho nem um ato aleatório de bondade que nos impelirão a boiar e nadar e dar braçadas enérgicas nos primeiros minutos do ano de 2017. Será o nosso Amigo, Aquele que nos conhece muito bem. Ele gosta de fazer isso. É o Seu costume. Passa o réveillon na praia, tentando salvar o máximo possível de tartaruguinhas enrugadas e míopes. Algumas nem se dão conta de que são salvas, mas é Ele que as salva, todas elas, todos nós. Podemos até não lhe sentir o abraço protetor, as mãos firmes e ternas, mas é sempre Ele que nos impele. Estamos aqui hoje porque Ele nos escolheu. E, se Ele nos escolheu, é porque tem fé em nós! Ele sabe que, neste novo ano de 2017, podemos fazer a diferença na vida dos outros, como Ele faz a diferença em nossa vida. Ele sabe que nossa tendência é nos recolher à segurança do nosso casco, nos acomodar aos passos lentos com que nos deslocamos de um lado para o outro e sucumbir à miopia que praticamente nos obriga a enxergar apenas o que nos está diante do nariz e, às vezes, nem isso.
Ele sabe. E, por isso, Ele nos oferece a metáfora de um ano novo, que, na verdade, não é nada diferente do ano que acabou. Os dias são os mesmos 365, os meses são os mesmos 12, as semanas são as mesmas 52! As febres são as mesmas, as fomes são as mesmas, o cansaço é o mesmo, o trabalho é o mesmo, a casa é a mesma, a família é a mesma, até o corpo é o mesmo! Mas é porque o nosso Deus também é o mesmo, que a metáfora vale. É um novo princípio, uma nova chance: a nossa oportunidade! No dia da nossa alegria, no dia da nossa comemoração, no início dos nossos meses, devemos tocar a trombeta e nos lembrar do Senhor (Nm 10:10). No início do nosso ano, devemos tocar a trombeta e nos lembrar do Senhor. No primeiro dia do resto da nossa vida, devemos tocar a trombeta e nos lembrar do Senhor.

Fomos escolhidos! Estamos escalados para mais um ano. Quer você se sinta como a tartaruga enrugada e míope da minha analogia, ou melhor, ou pior, ainda pode sair em direção às ondas, ainda pode escolher o mar, ainda pode escolher a vida, ainda pode decidir hoje que, em 2017, você não vai desistir, que você será mais feliz, mesmo que as condições sejam até mais desfavoráveis. Com um sorriso nos lábios, eu o convido a tomar a trombeta e fazer com que ela soe alto. Eu o convido a se lembrar. Eu o convido a recordar os momentos felizes da vida: o primeiro passo, o primeiro passeio de bicicleta, o primeiro beijo, a primeira volta no automóvel, a primeira vez, a primeira braçada no mar... Eu o convido a querer tudo de novo: um novo passo, um novo passeio de bicicleta, um novo beijo, uma nova volta no automóvel, uma nova vez, uma nova braçada no mar, um novo ano! Eu o convido a tocar a trombeta!

Tuesday, September 13, 2016

Esta é minha Bíblia

por Milton L. Torres

Eu costumo iniciar as minhas pregações com a seguinte declaração:

"Esta é a minha Bíblia. Eu sou o que ela diz que eu sou. Eu posso fazer o que ela diz que eu posso. Hoje, vou aprender a Palavra de Deus. Minha mente está alerta, meu coração está receptivo. Hoje eu vou ser transformado. Nunca mais serei o mesmo. Pois vou receber agora a incorruptível, a indestrutível, a eterna Palavra de Deus. Em nome de Jesus. Amém."

De fato, o texto não é originalmente meu. Joel Osteen, pastor da maior igreja evangélica dos EUA, localizada em Houston, no Texas, costuma dizê-la em inglês. O texto varia um pouco, mas o cerne é:

"This is my Bible. I am what it says I am. I can do what it says I can do. Today, I will be taught the Word of God. I boldly confess: My mind is alert, My heart is receptive. I will never be the same. I am about to receive The incorruptible, indestructible, Ever-living seed of the Word of God. I will never be the same. Never, never, never. I will never be the same. In Jesus name. Amen."

Osteen defende uma teologia de prosperidade que crê que, se pensarmos de forma positiva, Deus nos dará Suas boas dádivas. Ele baseia essa ideia numa tradução bastante peculiar de Colossenses 3:2. Por isso, recebe algumas críticas. Há, inclusive, uma paródia de sua declaração que é mais ou menos assim:

"Esta é uma Bíblia. Eu sou o que ela diz que eu sou: um sujo, miserável, pecador que odeia a Deus. Eu tenho o que ela diz que eu tenho: um coração corrupto capaz apenas de desprezar o Senhor que me criou e me sustenta. Eu posso fazer o que ela diz que eu posso: obras que, em seu melhor, parecem trapos de imundície para Deus. Hoje vou aprender a Palavra de Deus, mas o meu coração duro não terá nada da verdade, a menos que a graça de Deus venha a intervir. Eu corajosamente confesso que a minha mente é corrupta e meu coração depravado. Que Deus te abençoe, em nome de Jesus. Amém."

Apesar dessas críticas, vejo um lado bastante positivo na declaração: o fato de que ela aponta para a validade da leitura da Bíblia e da confiança em Deus, quando buscamos transformação. Sendo assim, é provável que eu a continue usando nas vezes em que tiver a oportunidade de fazê-lo.

Wednesday, August 24, 2016

Resenha: Platão e a Educação

PAVIANI, Jayme. Platão & a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 126 p.

por Milton L. Torres

Paviani (2008, p. 7-10) reconhece as dificuldades de se ler Platão, mesmo assim, defende os benefícios de um retorno ao antigo filósofo. Para ele (p. 11-13), Platão foi uma importante testemunha da condenação de Sócrates, desapontamento que o levou a viajar pelo mundo a fim de testar suas ideias educacionais e filosóficas. Apesar de sua desilusão com os maus resultados que teve, inventou a dialética e promoveu o diálogo a gênero literário. Seu pensamento foi especialmente marcado pela tensão entre o concreto e o abstrato, seu interesse metafísico, sua propensão pedagógica e ética, e seu idealismo. Por isso, Paviani (p. 23) indaga: como ler Platão hoje? Sua resposta passa por assinalar problemas contemporâneos que são similares aos da Grécia antiga: pensar filosoficamente a educação como problema de Estado, para formar moral, política, dialética e filosoficamente os cidadãos.
Os diálogos filosóficos foram o principal instrumento platônico para discutir a educação, mas assumiram caráter distinto a depender da época de sua produção. Os diálogos aporéticos da juventude contemplam as grandes questões sem lhes propor uma solução final; os diálogos da maturidade revelam o idealismo platônico; enquanto que os últimos diálogos, mais comedidos, apontam para certa desilusão política. Todos eles exibem, porém, algumas características consistentes: o objetivo educacional, a atitude irônica e a tendência interrogativa (PAVIANI, 2008, p. 29-33).
A educação moral em Platão depende do conceito de arete, o ideal da virtude heroica, e da ideia de natureza (essencialismo). Trata-se de processo ético e político. A forma como o filósofo se posiciona a esse respeito reflete o ambiente educacional de Atenas, no qual havia certa dependência da ideia de uma paideia (“formação”) intrinsecamente ligada à poesia de Homero (PAVIANI, 2008, p. 39-42) e o advento dos sofistas, criadores de uma pedagogia utilitarista, de quem Platão deplora a ênfase retórica e o relativismo (p. 43-46). É o momento da profissionalização e institucionalização da educação e Platão, por isso, se rebela contra a educação tradicional, propondo, em seu lugar, a fundamentação metafísica para um projeto educacional (PAVIANI, 2008, p. 47-51).
No embate do Sócrates platônico com os sofistas, a grande questão é se é possível educar. O otimismo e o relativismo destes contrastam com o toque aparente de ceticismo deste. Paviani (2008, p. 55) enfatiza que parte da razão pelo fracasso educacional de nossa época reside, em certa medida, de não termos conseguido imitar o entrelaçamento platônico entre formação intelectual e enfoque ético. Apesar de suas dicotomias nem sempre defensáveis, parece que Platão, segundo Paviani (2008, p. 57-64), representou um meio termo entre o relativismo (de Protágoras) e a objetividade excessiva (de Parmênides).
Paviani (2008, p. 65-69) lamenta o juízo equivocado de Platão que o levou a rejeitar, na República, a arte como parte do processo educativo: a ignorância de que poesia é ficção e não realidade. O lado positivo desse equívoco foi a proposta de uma reforma educacional de base metafísica que subordinou a arte, suplantada pela filosofia, à episteme (seu antídoto contra o relativismo e a mimese), desbancando o valor do senso comum. O lado negativo foi a implantação de uma censura abrupta que privilegiou o ético, político e pedagógico, em detrimento do estético. De qualquer forma, o resultado foi a essencialização da função ética, política e pedagógica da educação.
Para isso, foi necessário que Platão criasse uma metodologia a partir da influência de conceitos socráticos como os de maiêutica e anamnese. Privilegiando a razão e as situações concretas, o filósofo desenvolve uma teoria da aprendizagem que afirma que, por meio do respeito às etapas e da formação de hábitos, é possível ensinar. Essa ideia da educação como uma espécie de treinamento é especialmente perceptível em Leis, sua última obra. Também se percebe, em Platão, uma preocupação constante com a retórica sofista, considerada perigosa por sua ênfase relativista e seu menosprezo à racionalidade, à dialética e à dimensão divina (PAVIANI, 2008, p. 65-81).
O amor seria, então, o objeto da pedagogia, dada a relação entre eros e logos. De fato, no Banquete, o Sócrates platônico define o amor como uma espécie de busca pedagógica (PAVIANI, 2008, p. 82-86). Nesse sentido, o uso platônico dos mitos rompe momentaneamente com a dialética e reflete sua vocação para a narrativa. O mito da caverna, por exemplo, fornece-lhe um núcleo metafísico para sua concepção epistemológica, ética e política. Sua teoria pedagógica acaba, portanto, valorizando a reflexão, demonstrando interesse político, estimulando as ciências, promovendo a dialética, assumindo feições idealistas e desconfiando da ideia de prazer (PAVIANI, 2008, p. 91-97).
Segundo Paviani (2008, p. 99-107), os principais diálogos platônicos sobre o tema da educação são o Mênon (sobre a virtude e a anamnese), o Protágoras (sobre a virtude e a crise educacional), a República (um seminário sobre ideologias) e Leis (um projeto pedagógico), sendo suas características mais comuns a estrutura dialética, a superação de contradições e aporias, e a passagem da opinião para o conhecimento científico. De modo geral, Paviani trata, com bastante destreza e rara capacidade de síntese, a perspectiva platônica da educação e nos dá uma visão panorâmica e coerente de seu projeto educacional.

Friday, July 15, 2016

Mentalidade de Morcego


por Milton L. Torres

           Não sou de reclamar da vida. Prefiro gastar minhas energias, celebrando-a. Hoje quero, porém, falar com o ombudsman. Como a gente só vive uma vida, tem que acertar tudo da primeira vez. Se a gente pensar bem, não parece certo. Por isso, tanta gente acredita em reencarnação, divórcio e vida após a morte. O que todo mundo quer, afinal das contas, é uma segunda chance...
          Não seria muito melhor se a gente tivesse a possibilidade de um ensaio antes de a coisa ser para valer? A gente nascia, crescia, fazia todas as asneiras que a gente sempre faz, parava, apertava reset e começava tudo de novo, pelo menos uma vez. Eu sei, muita gente ia querer ficar apertando reset toda hora. Ia ser preciso limitar. A gente colocava explícito nas regras: uma única vez, que nem acontece com os salvo-condutos que os calouros ganham nos programas musicais da televisão.
        Outra condição: a gente ia precisar lembrar de tudo. Assim, não seria difícil repensar as escolhas e, na segunda vez, fazer a coisa certa ou menos errada. Com isso, a gente descarta as encarnações e as almas penadas. Para que serve viver outras vidas? Eu não tenho vocação para barata, nem avestruz, nem bezerro. Não quero virar o Gasparzinho da esquina. O que eu quero é viver a minha vida de novo, melhor, mais sábio, mais perspicaz. O que eu preciso é de mais intuição, a sensação, ainda que tênue, de que há alguma lógica no que acontece conosco, de que dá para evitar as trapalhadas, quando eu tropeço nos meus próprios passos, e as atrapalhadas, quando eu faço as outras pessoas tropeçarem.
           De fato, quando paro para pensar, eu me sinto um morcego, olhando o mundo de cabeça para baixo, sem conseguir consenso, nem simpatia. E é como se eu fosse o último morcego do mundo, o único da minha espécie, dependurado ali na viga que sustenta a vida, com os olhos arregalados e míopes.
          Acho que a vida é especialmente injusta com os jovens. Eles têm que tomar tantas decisões importantes quando estão menos preparados para fazê-lo. Sorte a do Benjamin Button, que escapou disso! E não adianta a gente falar. A razão, inclusive, por que não se deve falar a surdos é que eles não ouvem...
Quer saber de uma coisa? Eu sou favorável às segundas chances. Devíamos inventar um novo tipo de divórcio, um divórcio para filhos. Seria mais ou menos assim: depois de passar a infância ou a adolescência com os pais, os filhos deviam poder entrar com pedido de divórcio e, depois disso, procurar pais novos, mais do seu agrado! Podiam fazer que nem Heródoto falou dos leilões de Babilônia em relação às belas e às feias. Compareceriam, acompanhados, ao leilão os filhos que queriam se divorciar dos pais e os pais que queriam se divorciar dos filhos. Os filhos ofereceriam os pais descartáveis para adoção. Assim, os filhos que também estavam sendo descartados podiam adotar esses pais. Depois, os que haviam feito o descarte podiam se adotar mutuamente. Isso poria fim às incompatibilidades e todos poderiam ser felizes, sem dores, a não ser a do descarte. Mas o que é uma dorzinha de nada quando a cirurgia plástica vai resolver o seu problema de um nariz protuberante e grotesco?
Não precisa fazer cara de espanto. Estou mesmo levando a sério essa história de mentalidade de morcego. Se você não concordar comigo, não se preocupe. Simplesmente continue a viver a dignificada vida de ser humano normal, sem dar muita atenção aos guinchos que ecoam da minha parte escura do poleiro. Porém, se você se sente às vezes assim, seja bem-vindo. Tem muito espaço aqui do meu lado. Mas aviso logo: de cabeça para baixo, a gente está sujeito a vertigens...