Sunday, October 26, 2014

Entrevista sobre religião e cultura

Fui recentemente entrevistado por uma aluna do curso de jornalismo do UNASP acerca do tema da religião e da cultura. Abaixo seguem suas perguntas e minhas respostas:

1. Os escritores bíblicos usaram diversos gêneros literários para transmitir a inspiração dada por Deus por meio do Espírito Santo. Qual o lugar dessas histórias no contexto cultural em que foram produzidas? Elas eram consideradas histórias tradicionais ou, fazendo uma comparação contemporânea, estariam mais para uma narrativa como Star wars, quadrinhos da Marvel ou as tramas de Avenida Brasil (novela da Globo), por exemplo?

A produção literária dos autores bíblicos teve caráter eventual e não seriado. O que eu quero dizer com isso é que, ao contrário das novelas atuais e de outras manifestações da televisão, cinema e mercado editorial de nossa época, os livros da Bíblia não buscavam qualquer tipo de retorno econômico para seus autores. Ou seja, o objetivo não era agradar o público, mas transmitir uma mensagem. Além disso, os autores bíblicos não sobreviviam de sua produção. Não eram profissionais do entretenimento que ficavam imaginando meios de cativar a atenção de seus leitores. Pelo contrário, sua mensagem era, até certo ponto, dura e impopular. De modo geral, eram pessoas comprometidas com a ideia de que alguma coisa estava errada e precisava ser reparada. Além disso, ao contrário do que acontece com a televisão e o cinema, que difundem uma ideologia sutil que vai minando a resistência aos poucos e que procura estabelecer os pontos de vista de uma classe dominante, a mensagem escriturística, especialmente a da Bíblia Hebraica, era patentemente subversora do status quo. Portanto, eu diria que não são apenas milhares de anos que separam a televisão e o cinema da Bíblia, mas um abismo conceitual impossível de ser transposto.

2. Ainda em relação à forma como as histórias foram contadas, é correto afirmar que os autores bíblicos usaram os recursos mais avançados e criativos da época?

Só foi possível que a mensagem do Novo Testamento se espalhasse tão rapidamente justamente pela razão de os primeiros cristãos terem lançado mão da tecnologia mais avançada daquela época: o livro. Até o período do Novo Testamento, os escritos sagrados eram depositados em rolos de difícil manuseio. O historiador Heródoto, que viveu mais de quatro séculos antes de Cristo, nos informa que o livro já havia sido inventado em sua época, mas era, apesar disso, pouco utilizado. Considerações de ordens econômicas impediam seu uso em larga escala. O livro era feito a partir da pele de animais e, por essa razão, era necessário o sacrifício de vários carneiros para a produção de um único exemplar. Como resultado disso, a invenção permaneceu engavetada. O advento do Cristianismo alterou drasticamente essa situação. Os primeiros cristãos estavam tão ansiosos em proclamar sua mensagem que não se importaram com o preço da nova tecnologia e, mesmo enfrentando graves problemas de ordem econômica, passaram a usar o livro na divulgação do evangelho. Graças ao esforço desinteressado desses cristãos, o livro acabou popularizado e o Cristianismo recebeu a denominação de religião do livro. Portanto, eu diria que os primeiros cristãos foram muito felizes ao lançar mão da mais avançada tecnologia de sua época para cumprir a missão que lhes havia sido confiada.

3. Do ponto de vista bíblico, é correto utilizar a indústria cultural para transmitir conceitos bíblicos?

Não existe oposição entre cultura e religião. De fato, a religião é, em grande medida, uma manifestação da cultura. Eu diria mesmo que é impossível praticar uma religião sem lançar mão do aparato cultural que lhe dá sustentação. A Bíblia não se interessa, porém, pelos aspectos idiossincrásicos da cultura. Por exemplo, pouca coisa há na Bíblia contra a prática da escravidão, pois a Bíblia não tenta transformar a cultura. Seu objetivo é a transformação do homem interior. Por isso, quando Onésimo, um escravo fugitivo, se converteu por causa da pregação de Paulo, ao descobrir sua condição, o apóstolo o devolveu ao dono com recomendações de que o escravo se tornasse útil (Fm 11), uma clara solicitação para que Onésimo tivesse permissão de pregar o evangelho. Ora, se a pregação do evangelho tolerou uma instituição cultural tão obviamente desumana, não há de se opor à sociedade superficial e leviana. O próprio Jesus disse que “quem não é contra nós, é por nós” (Mr 9:40; Lc 9:50). Se Hollywood se dispuser a pregar o evangelho, que se junte a nós. Isso não nos impedirá, contudo, de continuar denunciando nossa sociedade como um antro de perdição e suas práticas como perversamente vergonhosas.

4. Ao adaptar histórias de livros para outros gêneros, talvez para apresentar um conteúdo novo, autores acabam utilizando a liberdade criativa para explorar trechos da história que não foram originalmente contados. Isso pode ser mal recebido, como no segundo filme da trilogia de O Hobbit, ou ser bem aceito, como a última adaptação de Super-homem (foi apresentado um super-homem em maturação, com conflitos de identidade). Do ponto de vista teológico, é possível explorar trechos de relatos bíblicos que não foram explorados originalmente? Como isso poderia ser feito? Que cuidados, do ponto de vista bíblico, devem ser tomados?

O sonho de todo pastor é conseguir explorar, em seu sermão, um aspecto original e interessante do relato bíblico, algo que consiga emocionar ou convencer seus ouvintes. Contudo, para alcançar essa finalidade, ele não pode manipular o texto a fim de fazê-lo dizer o que não diz. Acima de tudo, é preciso manter o espírito em que as passagens bíblicas foram escritas. Do contrário, não há pregação, mas entretenimento. O mesmo se aplica aos filmes e livros baseados nas histórias bíblicas.

5. Há jovens que acreditam que a Igreja tem uma visão retrógrada a respeito da cultura, indicando que a Bíblia não fala sobre não ir ao cinema, por exemplo. Por outro lado, há pessoas que acreditam que a Igreja, ao investir em produtos da indústria cultural como CDs ou produções cinematográficas, está sendo "mundanizada" e inclusive usam textos de Ellen White para isso. Qual seria a posição que você, baseado nas recomendações bíblicas e de Ellen White, considera ideal?


Em João 17:15, Jesus orou pelos discípulos com as palavras: “não rogo que os tires do mundo, mas que os livres do mal”. Com isso, Cristo reconheceu que é impossível viver em sociedade sem que nos relacionemos com ela. Ocasionalmente, assisto a um filme que me tenha sido recomendado por um amigo ou familiar. Gosto também de assistir, na televisão, aos jogos do meu time de futebol. Esses momentos em que me desligo das preocupações diárias funcionam como uma espécie de válvula de escape. Eles me proporcionam a oportunidade de me esquecer, momentaneamente, da grande luta espiritual que travamos a cada dia. O que não pode acontecer é me demorar nesse esquecimento. Estamos no mundo e participamos dele. Apesar disso, não podemos ter prazer no mal. Não sei por que as pessoas insistem tanto na noção de que a igreja está se tornando mundana. Isso se deve provavelmente à ideia incorreta de que a igreja deve ser uma reformadora radical da sociedade. A igreja é de Deus e eu deixo que Deus se preocupe com ela. A igreja não foi chamada para fazer oposição ao mundo, mas para transformar o coração das pessoas. Para usar uma imagem já desgastada pelo tempo, um hospital não faz objeção aos doentes, mas à doença. Se a igreja romper categoricamente com o mundo, terá prescindido do ambiente no qual deve realizar sua missão. Há claras declarações bíblicas que apontam para o triunfo da igreja. Há claras declarações bíblicas que afiançam o amor incondicional de Deus por Sua igreja. Nossas especulações quanto à condição mundana da igreja simplesmente traem nossa falta de fé no poder de Deus para cumprir Seus desígnios ou nossa incredulidade no amor que Ele professa ter por nós. Minha maior apreensão, portanto, diz respeito a nossa condição espiritual como indivíduos e não como igreja, pois não há declarações bíblicas que afirmem que determinada pessoa da igreja vá se salvar. Por exemplo, eu diria que possuir uma rede de televisão como a Novo Tempo é um fato tão pouco mundano quanto possuir uma publicadora da qualidade da CPB. As duas instituições se prestam a nos lembrar continuamente da necessidade de Deus em nossa vida e a desejar a oferta que Deus nos faz de uma vida verdadeiramente abundante, uma vida que alcançaremos ou não como indivíduos e não como igreja. O futuro da igreja já foi decidido por Deus. Resta agora que decidamos se, como indivíduos, vamos participar dele ou não.

Friday, December 27, 2013

Entrevista sobre o Natal

entrevista feita pelo jornalista Alex Bússulo ao Prof. Milton L. Torres
e publicada originalmente no jornal Nogueirense (21/12/2013):
http://nogueirense.com.br/entrevista-dr-milton-l-torres/

Jesus Cristo realmente nasceu no dia 25 de dezembro?
Não. Não há nenhuma indicação precisa na Bíblia quanto à data do nascimento de Jesus.

Por que esta data foi escolhida para a celebração do Natal?
Segundo o historiador romano Tito Lívio (22.1.20), contemporâneo de Jesus Cristo, os romanos tinham, desde 217 a.C., uma comemoração importante no mês de dezembro, conhecida como saturnais.  As festividades iam de 17 a 24 de dezembro, sendo o último dia um momento de alegria e troca de presentes. Como se tratava de um festival de inverno, era comum que as casas fossem enfeitadas com luzes e que árvores fossem adotadas como símbolo da preservação da vida durante o inverno. Além disso, 25 de dezembro era também considerada a data de nascimento do deus Mitra, uma divindade muito venerada nos tempos antigos. Finalmente, o dia 25 de dezembro foi declarado pelo Imperador Aureliano, em 274 A.D., como aniversário do nascimento do deus sol (natalis solis invictus). A data foi escolhida porque marcava o solstício de inverno no hemisfério norte, isto é, o momento em que os dias voltam a ser mais longos do que as noites. Posteriormente os cristãos de Roma adotaram essa data sob a alegação de que esperavam, assim, abençoar a data pagã, dando-lhe um caráter cristão. De Roma, a observância do feriado se espalhou para o Ocidente.

Existem evidências arqueológicas do nascimento de Jesus? É possível saber quando ele nasceu?
Há pouca coisa além dos relatos dos evangelhos, especialmente Mateus e Lucas. O nascimento de Cristo não foi comemorado nos dois primeiros séculos porque os cristãos esperavam o rápido regresso de Jesus e porque o Cristianismo era uma religião proibida. Uma celebração aberta podia acarretar perseguição e morte. Por essas razões, a data se perdeu. Apesar disso, a especulação sobre a data exata do nascimento de Cristo começou no início do terceiro século quando Clemente de Alexandria sugeriu que a data mais provável seria 20 de maio. Hipólito, que morreu em 236 A.D., argumentava que Jesus havia nascido numa quarta-feira, mesmo dia em que o sol foi criado, mas não dá a data exata. Um tratado de 243 A.D., intitulado De pascha computus, isto é, “o cálculo da páscoa”, coloca o nascimento de Jesus no dia 28 de março. De fato, não há nenhum dia do ano que, em algum ponto da história, não tenha sido sugerido por um ou outro como o dia do nascimento de Cristo.

Quando começou a se comemorar o Natal?
A mais antiga menção à data de 25 de dezembro como festa cristã vem do assim-chamado calendário filocaliano, do ano 336 A.D., escrito em latim. Nesse calendário, na data que se tornou tradicional, aparecem os dizeres natus Christus in Betleem Iudeae, isto é, “nasceu Cristo em Belém da Judeia”. Depois disto, outras evidências do início da celebração do natal como festividade cristã vêm de Constantinopla, no ano 380 A.D. Em seu sermão 39, Gregório de Nazianzo menciona que o natal tinha passado e lembra seus ouvintes de que, entre outras coisas, depois do natal, os anjos deram glórias a Deus. Com isto, o religioso esperava deter os excessos de comida e bebida que já eram cometidos por ocasião da festa. Em 386 A.D., temos outra evidência do início do natal, desta vez na cidade de Antioquia. João Crisóstomo, em seu sermão de natal, relembra que o feriado já era comemorado há dez anos em Antioquia e tenta superar as críticas daqueles que se opunham à festividade porque a consideravam uma comemoração pagã. Em vez disso, a igreja de Jerusalém comemorou o nascimento de Cristo na data de 6 de janeiro até o ano 549, quando também adotou a data de dezembro.

Como o Natal é comemorado em outras partes do mundo?
Para grande parte dos armênios, o natal é comemorado no dia 6 de janeiro, uma data que, ao longo da história, competiu com 25 de dezembro. Os anglicanos, até o século IX, celebravam o natal no dia 16 de dezembro, data que eles chamavam de “sapiência”. Em 1607, o rei James instituiu uma peça teatral que deveria ser representada na noite de natal. Durante a colonização dos Estados Unidos, os puritanos, por sua vez, se recusaram terminantemente a participar de qualquer atividade natalina, uma festa que eles consideravam pagã. Além disso, para eles, o natal deveria ser um momento de jejum e luto, não de celebração. Tradicionalmente, os católicos comemoram o natal com três missas no dia 25 de dezembro. O nome do natal, Christmas em inglês, vem justamente desse costume: Christes Maesse, “a missa de Cristo”. A forma como os brasileiros o comemoram foi muito influenciada pelo formato da celebração nos Estados Unidos: a família participa da ceia de natal e, depois, se reúne ao redor da árvore enfeitada com luzes para abrir presentes. Muitas pessoas nos países do Ocidente também gostam de ir à igreja nessa data. Na Guiana Inglesa, o natal é comemorado com o desfile de uma banda de músicos mascarados que arrecadam dinheiro. Na Nigéria, o natal é uma data favorita para os casamentos. Em Serra Leoa, as pessoas se presenteiam com frutas. Os cristãos da Coreia levantam cedo no natal e se organizam em pequenos corais que saem pelas ruas arrecadando dinheiro para os menos afortunados. Ou seja, há tantas tradições nacionais de natal que é impossível relatá-las todas aqui.

Para o mundo cristão qual o real significado do Natal?
Numa tentativa de serem politicamente corretas, muitas pessoas estão esvaziando o natal de sua dimensão religiosa e cristã. Até a aparentemente inofensiva opção de se dizer “boas festas” em vez de “feliz natal” pode dar indícios de que o natal está perdendo seu apelo religioso. Os próprios cristãos podem estar contribuindo para esse menosprezo à solenidade religiosa do natal. A data de 25 de dezembro foi escolhida fortuitamente porque coincidia com um importante festival pagão, mas o nascimento de Jesus é um evento histórico de dimensão salvífica. Como não temos nenhuma certeza da data real de seu nascimento, qualquer data serviria para comemorá-lo. No entanto, o natal está aí, estabelecido como resultado de uma tradição de vários séculos. Seria muito triste perder a oportunidade de comemorar o nascimento de Jesus, juntamente com milhões de outras pessoas, simplesmente porque temos excesso de pudor. O natal tem significado real para o cristão porque lhe concede a oportunidade de falar de Cristo, agir como Cristo e inspirar outras pessoas a seguir Aquele que nasceu em Belém e que nos legou o exemplo derradeiro de amor ao próximo. 

O Papai Noel tem algum significado para o cristão?
Papai Noel é um personagem lendário e fictício que tem uma origem folclórica. Existiu, de fato, a figura histórica de Nicolau de Mira, um cristão grego que, no século IV A.D., fazia doações generosas aos pobres, mas sua história sofreu acréscimos que a distanciaram de sua origem cristã. Os restos mortais deste santo homem se encontram supostamente preservados na cidade de Bári, na Itália. No dia de seu aniversário, em 6 de dezembro, desenvolveu-se em quase toda a Europa a tradição de presentear as crianças. Ao longo dos séculos, Nicolau recebeu características do deus nórdico Odin e todo um folclore se desenvolveu ao seu redor, principalmente nos Países Baixos. Incomodado por esse fato, Lutero, durante a Reforma, procurou transferir o costume dos presentes para o dia 25 de dezembro, a fim de que as crianças aprendessem a reverenciar o Senhor Jesus e não apenas um velho santo. O Reformador, sem querer, trouxe a figura de Papai Noel para o natal. Portanto, embora incorpore virtudes cristãs como bondade e alegria, Papai Noel não tem muito significado para os cristãos. De qualquer forma, tornou-se uma figura querida da cristandade e não há razão para demonizá-lo.

Qual é a melhor forma de se comemorar o Natal?
Eu sugeriria três coisas muito importantes que todos nós deveríamos praticar durante nossas comemorações do nascimento de Cristo. Em primeiro lugar, acho que é essencial que passemos tempo de qualidade como nossos familiares e amigos. Em segundo lugar, sugiro que aproveitemos a data para renovar nossos compromissos de fidelidade a Deus e à consciência. Ou seja, o natal nos dá uma excelente oportunidade para que pensemos em Deus e nos animemos a seguir Suas orientações para nossa vida. Finalmente, acho que o natal é uma ocasião em que todos nós devemos nos engajar em alguma causa humanitária. O natal é um tempo de se fazer o bem às pessoas, seja através de um mutirão de natal, de uma doação generosa ou de pequenos gestos de atenção.

Em dezembro se vê uma grande mobilização de atos de solidariedade, tanto das igrejas quanto da sociedade. Por que isso só acontece no natal?
O natal é, de fato, um período em que todos nós nos tornamos mais susceptíveis às necessidades alheias. Acho que é isso que as pessoas chamam de espírito do natal. Não penso que devamos estranhar o fato de que haja tanta bondade no natal. O que devemos estranhar é o fato de haver tão pouca bondade fora dessa época. Ou seja, em vez de considerar como hipócrita o bem feito durante esse período do ano, deveríamos encorajar as pessoas a estendê-lo ao restante do ano. Deveríamos sentir o espírito do natal todos os dias de nossa vida e agir de modo compatível com o que isto representa. Cristo nasceu em um dia apenas, mas Ele viveu três décadas entre nós, sinalizando que Ele pode estar presente em nosso coração todos os dias do ano. E se, de fato, abrirmos o coração para Cristo, será impossível que nos limitemos a praticar o bem apenas numa data no fim do ano.

Qual o maior ensinamento deixado por Jesus?

A principal mensagem de Cristo é o amor. No entanto, essa mensagem tem uma aplicação dupla. Ele disse: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Para que isto se torne uma realidade em nossa vida, é necessária abnegação. Isto é, desapego e desprendimento. Acho que é por isso que os cristãos praticantes são pessoas tão felizes. É verdade que, de vez enquanto, aparecem entre nós pessoas que são mesquinhas e mal-humoradas, mas tais pessoas são justamente atraídas ao Cristianismo pelo fato de sentirem que precisam desenvolver a virtude da renúncia. A compreensão de que somos chamados por Deus para abrir mão dos nossos confortos a fim de poder ser úteis à igreja e à sociedade, de fato, nos dá um sentido para a existência. Por isto, neste natal, desejo que sejamos realmente contagiados pelo Espírito de Cristo, que é o espírito do natal.

Tuesday, December 17, 2013

Formatura de Tradutores Classe de 2013

por Milton L. Torres, PhD

Hoje é a sua formatura e meu primeiro conselho para vocês vem de minha paráfrase de Filipenses 3:13-14

Não estou dizendo que já sei tudo, que eu já cheguei lá. Mas estou a caminho. Decidi segurar a mão de Cristo. Não me entendam mal. Não me considero o sabichão, mas estou de olho no alvo que Deus me mostrou. Já entrei na corrida e não vou parar até chegar lá.

                Dizem que Einstein fez o discurso de formatura mais rápido da história. Ele se levantou e disse simplesmente: - Não tenho nada a dizer a não ser “boa sorte”. E, então, se sentou. Não quero bater esse record. Mas, como o tempo é breve, vou lhes dar dez rápidos conselhos:

10. Encarem a realidade. LARISSA, quando o alarme tocar às 6 da manhã, não é um pesadelo. É o seu trabalho!
9. Tomem decisões. LÊNIE, quando você chegar a uma encruzilhada na vida, um momento de decisão, não fique de braços cruzados. Escolha um caminho e siga-o até o fim.
8. Sejam diplomáticos. PAULO, quando seus pais perguntarem quando é que você vai se casar e ter a própria casa. Não se precipite. Seja evasivo. Mas saiba que, no dia de seu casamento, haverá uma FESTA.
7. Ouçam a voz da experiência. JOSY, você sabe que sempre vai poder contar com o UBA.
6. Não adiem as coisas. TATIANE, se você ainda não comprou os ingressos para a copa do mundo, agora não dá mais!
5. Sejam pacientes. GAZETA, espere pelo menos 24 horas até pedir mais dinheiro para seus pais.
4. Sejam bons cidadãos. Paguem seus impostos, votem e, MARA, sempre ganhe dos teologandos quando o assunto for grego ou latim.
3. Sejam francos. ÉVELIN, quando seus amigos perguntarem o que você vai fazer agora que se formou, diga a verdade: - Não tenho a menor ideia!
2. Sejam sucintos. JULIANA, quando alguém ficar elogiando sua inteligência ou talentos, simplesmente diga: EU ESTUDEI NO UNASP.
Ruflar de tambores...
1. Sejam os melhores. MARIÁH, você não será mais julgada por suas notas, mas por seu caráter, suas promessas, sua coragem e seu exemplo.

Esta formatura é importante para mim por três razões principais. Primeiro, considero esta formatura como a minha formatura também. Como vocês estou há quatro anos no UNASP. Em segundo lugar, faz exatamente trinta anos que me formei em minha primeira faculdade. Mas a principal razão por que esta formatura é importante para mim é que ela é a sua formatura, a formatura de alunos que aprendi a amar e respeitar. Ainda assim, a geração de vocês é diferente da minha. Dizem que vocês são a geração X. Os sociólogos fazem essa declaração com a intenção de dizer que a geração de vocês não se preocupa com o futuro. Mas eles estão errados, vocês são a geração X porque eXcelência se escreve com X!
                Meus últimos conselhos a vocês:
1. Cuidem do ambiente.
2. Nunca usem drogas, cigarros ou bebidas.
3. Sejam fiéis a Deus e à sua consciência.

4. Venham sempre nos visitar porque vamos morrer de saudades...

Saturday, June 15, 2013

A intenção de errar e fazer errar

por Milton L. Torres, PhD

                A pesquisa, quer seja científica, quer tenha caráter exclusivamente intuitivo, sendo, portanto, destituída de uma metodologia rigorosa que tenha sido desenvolvida a partir de longa reflexão e experimentação coerente, constitui uma forma cada vez mais comum de buscarmos uma interpretação plausível para a realidade como a contemplamos. De certa forma, quando recorremos ao Google para descobrir alguma coisa, estamos fazendo pesquisa. Nesse processo, raramente temos a intenção de errar. O que nos motiva à pesquisa, em vez disso, é o desejo de explorar possibilidades, isto é, o anseio de acertar. Para estabelecer a confiabilidade de nossas conclusões é vital que tenhamos sido fiéis a esse anseio e, principalmente, que tenhamos sido honestos ao interpretar nossas fontes.
                O uso de fontes serve para fundamentar e melhorar a qualidade de nosso trabalho de pesquisa. As citações concedem autoridade às conclusões às quais nossa pesquisa nos tenha levado, pois mostram que outras pessoas trilharam caminhos semelhantes aos nossos e, por essa razão, passaram a interpretar a realidade de maneira semelhante à nossa. Além disso, oferecem ao leitor da pesquisa condições de comprovar que o que dizemos tem fundamentação, dando-lhe, inclusive, a oportunidade de se aprofundar no tema em discussão. Nenhum estudioso deveria, portanto, fazer mau uso de suas fontes, pois isso comprometeria a confiabilidade de suas conclusões e levantaria suspeitas quanto a sua competência como pesquisador. O mau uso de fontes sugere, no mínimo, que o pesquisador foi precipitado em relação às conclusões a que chegou.
                A razão por que menciono essas coisas é que recentemente chegou à minha atenção a notícia de que uma afirmação minha foi empregada para dar sustentação a uma ideia que aqueles que me conhecem sabem que não apoio. Um site intitulado “Nova Aliança – Desde 1888” afirmou o seguinte:

É tanta a contradição de nossa mentalidade com a expressa por Paulo que não poucos entre nós consideram Paulo quase um inimigo da Igreja e desabafos como o Dr. Milton Torres que foi professor de teologia e hoje foi afastado para lecionar letras no UNASP aparecem entre nós: “me sinto aliviado de não ter mais que lecionar o livro de Romanos ao seminário teológico”.

O autor do texto passa a impressão de que considero o apóstolo Paulo um inimigo da Igreja e de que estou feliz por não mais ter que ministrar aulas sobre seus escritos. Nenhuma informação, porém, é dada acerca do lugar, data ou contexto em que eu tenha feito essa afirmação. Além disso, aqueles que acompanham o que escrevo sabem que a verdade é o oposto disso: considero o apóstolo como um dos pensadores mais intrigantes da Igreja primitiva e o admiro tanto que já escrevi dois livros sobre ele: Sã doutrina: medicina nas epístolas pastorais (2007) e Amor exagerado: a exorbitante pregação do apóstolo Paulo (2013).
                Não vou entrar em outros méritos da declaração como, por exemplo, a ideia de que fui afastado do seminário para dar aulas de letras. Fui afastado do seminário na mesma proporção em que qualquer pastor é afastado do distrito que pastoreia a fim de assumir novas responsabilidades em outra área. Nós, pastores, nos sentimos chamados por Deus e atendemos a seus mandados, mesmo que isso implique em deixar o conforto de nossas preferências a fim de segui-Lo aonde Ele nos enviar. Sem, então, entrar no mérito desse aspecto da citação, posso garantir que sinto falta das aulas de Romanos, como sinto falta de ministrar aulas de grego bíblico, a língua em que o Novo Testamento foi escrito e pela qual tenho paixão de intensidade comparável à que sinto quando estou ministrando aulas de literatura clássica, no Curso de Letras, ou aulas de Interpretação Intermitente, no Curso de Tradutor e Intérprete do UNASP. Essa saudade só foi mitigada quando, neste primeiro semestre de 2013, o SALT-UNASP me solicitou que, devido a uma situação imprevista, eu assumisse as aulas de Grego III, às quais seis heroicos estudantes compareceram e durante as quais se empenharam para deixar orgulhoso o velho professor: Almir, Áthila, Eduardo, Herald, Manoel Felipe e Maurício.
                 Não me lembro das palavras exatas de minha declaração de despedida aos alunos do quarto ano de teologia do SALT-IAENE, turma que concluiu seus estudos em 2008. Eles me concederam a oportunidade de lhes dirigir a palavra várias vezes naquele ano, principalmente a honra maior de fazer o sermão de consagração em sua cerimônia de formatura. Mantenho, ainda, contato com muitos deles e gosto de imaginar que hei de sempre poder contar com o carinho que eles me demonstraram durante as aulas, em nossos contatos informais no campus do IAENE e em nossas trocas de email e telefonemas até o dia de hoje. Apesar de não me recordar das palavras exatas, sei muito bem qual foi o seu teor: “estou aliviado de não ter mais que dar aulas no seminário”. Nessa declaração, nunca fiz referência a Paulo ou a Pedro, mas a afirmação continua: “estou aliviado de não ter mais que dar aulas no seminário porque julgo ser esta uma tarefa que exige grande entrega e pela qual sou muito cobrado – estou cansado de que pessoas mal intencionadas me torçam as palavras e exijam respostas prontas para suas dificuldades de interpretação da Bíblia quando, de fato, suas indagações não são oriundas do interesse sincero de aprender, mas da intenção de errar e fazer errar”.
                Diante do uso gratuito e inconsequente de minhas palavras, alteradas e postas fora de contexto, no site “Nova Aliança – Desde 1888”, em que se percebe mais a intenção de ferir e rebaixar do que de edificar e promover a investigação sincera das Escrituras, só me resta concluir que, embora não seja mais professor do seminário, não existe, de fato, nenhuma razão para que eu me sinta aliviado. Esse sentimento de alívio só existirá quando eu puder perceber que aqueles que se dizem irmãos, que se dizem meus irmãos, prescindirem dessa comichão de errar e fazer errar. Contra minha expectativa existe, porém, a percepção de Aristófanes (Aves 169-179) de que "o homem é uma ave (ho anthrôpos ornis): instável, fugaz, inconsequente e incapaz de permanecer em um só lugar".

Qual é a importância da língua portuguesa?

por Milton L. Torres, PhD

         O português é a língua oficial de oito países do mundo, espalhados em quatro continentes. Estima-se que quase 250 milhões de pessoas falem o idioma. Depois do Brasil, os países onde o português é mais falado são Moçambique (19 milhões), Portugal e Angola (11 milhões cada um) e Guiné Bissau (mais de um milhão). Ao contrário do que muita gente pensa, o espanhol não é o parente mais imediato do português, mas o galego, a última língua do tronco romântico a se separar de nosso idioma. Trata-se de uma língua falada na Galícia, uma região da Espanha, e nas áreas de imigrantes galegos na Argentina, Cuba e Uruguai. Aliás, o nosso tronco linguístico se chama “romântico” porque tanto o galego quanto o português são descendentes de uma língua agora extinta antigamente chamada de romanço. De fato, o romanço era uma mistura de línguas derivadas do latim vulgar e, por essa razão, o termo tinha conotação pejorativa. De qualquer forma, o português do Brasil, sendo uma das línguas mais nasais do mundo (juntamente com o francês e o polonês), merece mesmo a denominação de língua romântica, uma vez que os antigos gregos, sempre muito inteligentes, consideravam os sons nasais como os mais belos e sensuais de todos.
         A língua portuguesa reflete, em muitos sentidos, o espírito aglutinador de seus falantes. Por causa das invasões mouras à Península Ibérica, região da Europa onde se localiza Portugal, e devido à colonização portuguesa de vastas regiões na América do Sul, África e Ásia, nossa língua entrou em contato com os falares de diferentes regiões do mundo. Como resultado disso, nosso idioma acabou enriquecido com inúmeras palavras oriundas do árabe, das línguas indígenas brasileiras e das línguas africanas. De certa forma, o sincretismo observado em nossas relações sociais transparece também em nossa forma de falar. Quem sabe não foi justamente essa propensão de nossa língua que tornou o brasileiro essa pessoa tão amistosa e tão disponível para a conversa fiada... Será que o pensamento determina a língua ou, ao invés disso, a língua influencia o pensamento? Independentemente de se tomar uma decisão a esse respeito, concordaremos que a língua portuguesa constituiu o nosso jeito de ser, o nosso modo de encarar a vida, a nossa própria alma coletiva e, por isso, como disse Jesus Cristo, não nos resta alternativa senão deixar que a boca fale do que está cheio o coração (Mt 12:34). Tente passar o soneto 11 de Camões para qualquer outra língua e você vai entender o que eu quero dizer com isso. As contradições implícitas numa “dor que desatina sem doer” ou num “solitário andar por entre a gente”, parecem não fazer pleno sentido, a não ser quando vistas a partir do jeito luso-brasileiro de encarar a vida. Assim, disse Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa”. Não se importava que invadissem Portugal, desde que não mexessem com ele. Mas isso não era egoísmo. No fundo, o escritor sabia que, enquanto houvesse o nosso jeito de falar, não perderíamos a identidade, não nos abateríamos diante dos infortúnios, não perderíamos a voz, nem nosso reflexo no espelho.
         Talvez o que o tenha motivado a ler este texto despretensioso é que você imaginasse que ele confirmaria suas suposições de que, sem um conhecimento sólido da gramática portuguesa, seria impossível você se dar bem na vida, conseguir um trabalho melhor, aumento de salário, uma linha de crédito mais compatível com suas necessidades do momento ou, até mesmo, uma chance com a moça bonita a quem você anda cobiçando. Faz mesmo parte da natureza humana que encaremos tudo a partir de um ponto de vista pragmático que nos permita tirar vantagem de tudo. Bem, não foi isso que me motivou a escrever. Decepcionado? Ora, não fique. É bom saber que seu português é melhor do que o dos outros sete bilhões de falantes que andam sobrecarregando as linhas de comunicação deste planeta. Pouca gente fala português na China ou no Curdistão. Talvez, melhorar o seu conhecimento gramatical possa agregar um centésimo de valor ao patrimônio cultural que você tem. Em vez disso, eu sugiro que você desfrute dessa língua. Use-a de modo ferino ou terno, use-a sério ou leviano, use-a para ser ou não ser, use-a! Sorva cada palavra como se o ar fosse feito disso. Imagine-a como cubo, esfera, pétala, andaime, viga. Mas... nunca tenha medo dela. A língua está do nosso lado. Falando português, ao amigo, ao desafeto ou à moça bonita que mencionei, é impossível não conciliar as desavenças, é impossível não encantar com o charme romântico das palavras. Afinal de contas, como escreveu Alberto de Lacerda, “esta língua portuguesa, capaz de tudo, como uma mulher realmente apaixonada, esta língua é minha Índia constante, minha núpcia ininterrupta, meu amor para sempre, minha libertinagem, minha eterna virgindade”. Quer saber, então, a autêntica importância da língua portuguesa? Tente ficar um dia, uma hora sem usá-la. Hoje, à noite, antes de dormir, eleve a Deus um pensamento, esboço de gratidão, primeiramente por falar e, principalmente, por falar em português...

Publicado originalmente no Nogueirense (9 de junho de 2013), jornal da cidade de Artur Nogueira, no interior de São Paulo (http://nogueirense.com.br/opiniao-qual-e-a-importancia-da-lingua-portuguesa/).


Sunday, May 05, 2013

Tecnologia e Mudanças em Educação


Milton L. Torres, PhD

Fala-se muito em mudança educacional, no nosso país, numa época em que o Brasil começa a desfrutar da sensação de que pode ter mais importância para a economia mundial do que julgava ser possível. A estabilização de nossa economia exala o odor de suor e trabalho árduo. Cheira também a criatividade e ginástica, esta última entendida como a capacidade de vergar sob o peso das adversidades sem quebrar nunca, ou quase nunca. O que as pessoas esperam é que o brasileiro descubra, além disso, o caminho para o desenvolvimento social e cultural de nossa gente. Parece mesmo unânime a ideia de que isso exige um processo educacional mais coerente, metodologias educacionais mais eficientes, tecnologia mais motivadora e, principalmente, mudança. Mudança, ponto final. Não há como argumentar contra a conclusão de que alguma coisa precisa ser feita se quisermos sair do atraso educacional em que, de modo quase geral, o Brasil se encontra. Nesse contexto, a tecnologia acaba sendo apresentada como a panaceia capaz de curar uma grande parte de nossos males, senão todos. Contudo, só saberemos, com certeza, se a tecnologia será capaz de produzir a metamorfose que aguardamos, se pudermos identificar as alterações que necessitam ocorrer nas dimensões essenciais do processo educacional.
Mudanças nos alunos. Depois de trinta anos no exercício do magistério, em todos os níveis, desde o ensino fundamental até a pós-graduação, eu tenho percebido muitas mudanças nos alunos que ingressam em minha sala de aula. Os alunos de hoje se mostram, por exemplo, relutantes em empreender atividade de reflexão crítica e aprofundada. Fazem tudo com pressa, aparentemente desejosos de se livrar de atividades que consideram além de seu interesse. São, além disso, muito dependentes de estímulo visual, apresentando um correspondente decréscimo de imaginação. Como professor de literatura e línguas antigas e modernas, se eu pudesse apontar para mudanças que eu gostaria de ver nas atitudes de meus alunos e alunas, eu diria que eu gostaria que eles fossem mais imaginativos, mais capazes de abstrair e refletir. Em muitos sentidos, como afirmou Adélia Prado, meus alunos não precisam “nem de faca, nem de queijo”. Eles precisam de “fome”! O meu discurso não é, porém, derrotista. Embora esteja cada vez mais difícil motivar os alunos a que se devotem a empreendimentos acadêmicos que incluam reflexão e aprofundamento, tive muito mais vitórias do que derrotas. Em uma aula apenas, vou do riso ao pranto, das anedotas banais aos gestos patéticos, do canto desafinado à dança da chuva, tudo para engajar o aluno. Geralmente eu consigo engajá-los quando nos tornamos cúmplices. Quem é, então, o novo aluno de que necessitamos? O “comparsa” reflexivo, o sidekick que anseia por sua vez de ser super-herói, a mente desejosa, susceptível e inquiridora. Não precisamos de tecnologia para isso. Sinceramente, é o fato de os alunos estarem empanturrados de tecnologia que os tem deixado letárgicos, sem esboço de reação. Meus alunos apresentam às vezes síndrome de abstinência. É somente com disciplina espartana que, a despeito de seu choro e ranger de dentes, tenho banido o computador da sala de aula. Não precisamos de tecnologia para fazer poesia. Não precisamos de tecnologia para alimentar a imaginação. Não precisamos de tecnologia para criar mundos e lavar a alma. Em educação, não precisamos de tecnologia para nada que realmente valha a pena. Não precisamos de tecnologia, especialmente quando ela nos é imposta a atacado e com as motivações mais perversas.
Mudanças nos professores. Ao olhar os mil espelhos a que tenho acesso em cada jornada de trabalho, posso dizer que há também espaço para mudanças nos professores. Refiro-me a espelhos porque vejo reflexos em cada colega e em cada atividade que testemunho no fazer educativo. Os professores precisam ser mais corajosos. Têm que escapar da função de coadjuvantes e assumir o papel de educadores de verdade. Como bois de piranha, os professores brasileiros se tornaram reféns de administradores escolares cuja motivação original é a aspiração de criar uma máquina escolar de fabricar dinheiro falso. Não admira a crise que agora enfrentamos nas licenciaturas. Além disso, muitos professores se veem intimidados por alunos que se recusam a cumprir as exigências mínimas de um curso decente de estudos. Como um maria-vai-com-as-outras, o professor brasileiro se vê jogado de um lado para outro por todo vento de doutrina. Esta é a era na qual imperam os modismos, as soluções fáceis, marqueteadas, maquiadas e moqueadas. Sou fruto da educação pública. Exceto pela graduação, sempre estudei em escolas públicas. Os professores que tive comportavam-se, sim, como catedráticos, porque o eram. Suas atitudes eram paradigmáticas; seus conhecimentos, exemplares. Por isso, optei pelo magistério. Hoje, os professores bem sucedidos são aqueles que conseguem entreter a audiência. Faltam-lhes substância e conteúdo; sobram-lhes adestramento político e competência mimética. Como deve, então, ser o novo professor? Autêntico e autônomo. Sujeito. Movido pela paixão. Não me candidatei ao magistério para lidar com máquinas. Clemente de Alexandria afirmou que, no pedagogo, a educação dos jovens “produz impulsos mais fortes para amá-los do que sua procriação”. Dizer que a tecnologia deve ser a motivação da educação e que ao professor cabe o papel de mediador é a mais lamentável forma de reducionismo e reificação.
Mudanças na escola. A escola também tem que mudar. Em vez de ser a cobaia dos mais sinistros interesses capitalistas, precisa se tornar um fórum para a partilha de conhecimento. Não com o papo-furado de chats artificiais e extemporâneos, mas com diálogos instigantes oriundos de pesquisa conjunta e atenção concentrada. A escola deve encarnar a concepção que a etimologia lhe atribui. Scholê era um lugar de conotação atemporal e metafísica onde os gregos ficavam, um lugar ao qual compareciam, um lugar no qual depositavam suas fichas e, mais do que isso, onde faziam política e forjavam a essência de sua cidadania. Do mesmo modo, a escola deve atrair os alunos, não repeli-los. Deve constituir o cenário de agregação de vontades, almas, personalidades, o andaime sobre o qual construir. Não se trata de instituir um gregarismo fútil (do tipo shopping center), mas de fazer da escola um polo de criação científica e transformação social. Esse projeto pode certamente envolver tecnologia; não pode nunca, porém, se limitar a ela. Além disso, a tecnologia deveria fisicamente atrair as pessoas para a escola e não distanciá-las dela.
Mudanças na gestão. A gestão educacional não pode continuar sua subserviência aos interesses mercadológicos. Não se deve pretender colocar um ou mais computadores nas salas de aula ou demais ambientes da escola simplesmente porque os fabricantes precisam vender a tralha tecnológica e o marketing da escola exige algum cosmético para promovê-la. Os gestores devem garantir que cada máquina adquirida e cada software desenvolvido sejam efetivamente empregados para a edificação dos seres humanos que se colocam sob sua tutela. No negócio da educação, o gestor não pode sucumbir à tentação de ser o atravessador de bens simbólicos, nem se arrogar o papel de um suspeito protagonista no tráfico escancarado de influência. Não vendemos diplomas; não comercializamos privilégios e mamatas. Nossa época insiste em colocar antenas nos alunos e, por isso, os chamamos de “antenados” – como se lidássemos com insetos ou dispositivos receptores de mensagens nada óbvias. Seria preferível, no entanto, que lhes déssemos coração e cérebro, em vez disso. Nossos administradores escolares precisam se inteirar, afinal de contas, de que nosso alunado não forma enxames nem completa números. Merece, nada obstante, a dignidade de indivíduo.
A escritora Ellen G. White (Mensagens escolhidas, v. 3, p. 226), referindo-se especificamente à educação cristã, lamentou a tendência de se tentar imitar os modismos de escolas ditas de vanguarda: "vossa escola deve ser uma escola que sirva de amostra. Não deve ser uma amostra segundo as escolas da atualidade. Não deve ser semelhante coisa. Vossa escola deve estar de acordo com um plano que se encontre muito à frente dessas outras escolas". Não me passa pela cabeça que, em sua concepção, "estar muito à frente" das outras escolas signifique ênfase na educação tecnológica. Quem a lê e conhece bem, sabe que essa importante escritora cristã se preocupava mais com os aspectos espirituais, intelectuais e sociais da educação.
Como se percebe, a tecnologia não figura como ingrediente de importância vital para as mudanças educacionais que considero mais urgentes. Obviamente, a tecnologia será bem-vinda caso ajude nessa direção. Contudo, a tecnologia é uma coisa e, como coisa, deverá ser sempre secundária em educação. Na medicina, a falta de um respirador pode fazer com que um paciente morra. Na escola, especialmente na área de ciências humanas, a falta de um computador pode simplesmente nos propiciar a oportunidade de reunir os alunos sob algumas árvores frondosas a fim de termos uma agradável e construtiva troca de experiências. Essa aula tem tudo para ser inesquecível.

Tuesday, April 30, 2013

Sócrates, Tecnologia e Educação

por Milton L. Torres, PhD


Ó habilidoso Thoth, a um é dado criar artefatos, a outros a julgar em que medida males e benefícios advêm deles para aqueles que os empregam. E assim acontece contigo: em virtude de teu apreço pela escrita, que é tua filha, não vês o seu verdadeiro efeito, que é o oposto daquele que dizes. Se os homens aprendem a escrita, ela gerará o esquecimento em suas almas, pois eles deixarão de exercitar suas memórias, ficando na dependência do que está escrito. Assim, eles se lembrarão das coisas não por esforço próprio, vindo de dentro de si próprios, mas, sim, em função de apoios externos. O que você inventou não é uma receita para a memória, mas apenas um lembrete. Não é o verdadeiro caminho para a sabedoria que você oferece aos seus discípulos, mas apenas um simulacro, pois dizendo-lhes muitas coisas, sem ensiná-los, você fará com que pareçam saber muito, quando, em sua maior parte, nada sabem. E eles serão um fardo para seus companheiros, pois estarão cheios, não de sabedoria, mas da pretensão da sabedoria (Platão, Fedro).

Nas considerações sobre o advento do computador como tecnologia educacional, traçando-se um paralelo com o aparecimento da escrita e o suposto preconceito de Sócrates com aquela novidade tecnológica, é necessário partir do texto que parece estabelecer essa analogia. No final do Fedro, Platão, de fato, mostra os comentários de Sócrates acerca do tema da invenção da escrita. No entanto, a fala, no texto, não reproduz as próprias palavras do filósofo. Não se trata apenas de se ouvir a voz de Sócrates através da fala de Platão. Platão apresenta a descrição que Sócrates faz das palavras ditas por Tamuz a Thoth. Ou seja, Sócrates não está expressando seu preconceito contra a escrita. Está, de fato, refletindo sobre a compreensão que a mitologia egípcia tinha do valor da escrita. Além disso, o Sócrates de Platão não está tratando do valor da escrita de modo geral. A escrita nem é o seu tema. Ele simplesmente se refere à escrita porque, com a alusão à mitologia egípcia, ele busca subsídios para provar a tese de que discursos enlatados não devem ser admitidos na arte da oratória. Isto é, ele não se levanta contra todas as formas de escrita, mas aquela usada para dar a um orador medíocre condições de parecer mais do que, de fato, é. Outra preocupação de Sócrates é que as pessoas que escrevem poemas e discursos belos transcendam a letra escrita e, em realidade, vivam o que escreveram. Seria incoerente que Platão retratasse Sócrates como inimigo da escrita, se o próprio diálogo platônico, no qual se notabilizou, é, acima de tudo, um exercício da escrita. As preocupações de Sócrates se mostram atuais e essenciais para a reflexão filosófica: credibilidade, autenticidade e competência discursivas.

Por outro lado, mesmo que Sócrates tivesse demonstrado um preconceito sem fundamentação e reflexão contra a escrita, e se provasse, como querem alguns, que mesmo homens sábios demonstram resistência às inovações sendo, portanto, avessos às mudanças, isso não provaria a tese de que toda mudança é boa. As mudanças podem ser boas ou más, dependendo de como são implementadas e a que preço. A tecnologia computacional tem dado contribuições importantíssimas para a melhoria da vida do homem atual. Isso não garante, contudo, que ela deva ser implementada em todas as dimensões de nossa vida. Se a tecnologia computacional penetrar em domínios que têm pouca afinidade com ela, isso poderá constituir um grave empecilho à realização humana. Para citar os exemplos mais óbvios, embora o computador possa fazer breves incursões na adoração e na educação, não deve se tornar a razão de ser da adoração e da educação. Que bom que haja resistência ao seu uso indiscriminado. Essa resistência serve para alertar os ágeis e mecânicos acólitos da tecnologia que, para convencer a todos, precisam ir além da prestidigitação de fórmulas engarrafadas e adornadas com animações do tipo luz de árvore de natal.

Monday, December 17, 2012

A Visão Apocalíptica e a Neutralização do Adventismo

KNIGHT, George R. A visão apocalíptica e a neutralização do adventismo: estamos apagando nossa relevância? Tradução de Davidson Deane; Karina Carnassale Deana. Tatuí, SP: CPB, 2010.




por Milton L. Torres, PhD



O fato de George Knight escrever livros provocantes e historicamente precisos já não nos surpreende. Esse pensador adventista tem um pendor natural para a leitura das épocas e a interpretação dos tempos, especialmente no que diz respeito ao percurso dos adventistas do sétimo dia. No caso deste livro, o próprio título já traz consigo uma ambiguidade instigante: a neutralização do adventismo pode ser sua “castração”, um impedimento à sua reprodução ou crescimento.

O capítulo 1 (“O cordeiro e o leão”, p. 7-28) procura responder a pergunta: “por que ser adventista?” Ao refletir sobre o significado do adventismo, Knight chega à conclusão de que “há certo nível de conforto em ´brincar de igreja´” (p. 9). Para ele, “se o adventismo perder sua visão apocalíptica, perderá a razão de sua existência como igreja e como sistema educacional” (p. 11). Os adventistas podem ser adventistas adventistas (exclusivamente preocupados com as questiúnculas doutrinárias de sua denominação), cristãos cristãos (esforçando-se para serem vistos como mais uma denominação evangélica) e adventistas cristãos (fiéis à sua herança adventista e, ainda assim, felizes por sua herança evangélica). É a pertinência ao terceiro grupo que Knight recomenda. Como “Jesus de Nazaré não foi politicamente correto em Suas declarações” (p. 14), o autor tem dificuldades em compreender o esforço de muitos adventistas para serem culturalmente compatíveis com a época em que vivem. Ele lamenta que tenhamos perdido “a arrogância santificada que, no passado, nos levou a crer que possuíamos uma mensagem que o mundo inteiro tinha que ouvir” (p. 16). Por isso, Knight compara os adventistas ao colportor Walter Harper que, para se livrar das tentações sexuais, praticou a autocastração. O autor nos lembra que “as pessoas estão em busca de uma igreja que esteja acima da cultura, que seja arrogante o suficiente para crer que há erro e verdade, e que ela possui a verdade” (p. 20). Segundo ele, “o atalho para a irrelevância é a mera relevância” (p. 20). Afirma, ainda, que há três maneiras de a igreja adventista praticar a autocastração: dando ênfase às bestas do Apocalipse, deixando de pregar a mensagem do Cordeiro e menosprezando a questão da ira de Deus. Os adventistas não podem menosprezar nem o medo e nem o pecado, pois “o Apocalipse é o julgamento da mentalidade pós-moderna” (p. 27).

O capítulo 2 (“A visão apocalíptica, p. 29-52) abre com a declaração de que “se temos apenas o Cordeiro, possuímos apenas metade do evangelho. Obviamente, se temos apenas as bestas, não há evangelho nenhum” (p. 29). Este capítulo apresenta o cenário profético dos livros de Daniel e Apocalipse, bem como o papel de Guilherme Miller no surgimento do movimento adventista. Para o autor, “22 de outubro foi, na verdade, o dia da grande expectativa” (p. 38) e não o dia do grande desapontamento. Graças àquela experiência, os adventistas desenvolveram a doutrina do santuário celestial (por meio de O. R. L. Crosier, G. W. Peavey e E. C. Clemens), compreenderam a verdade sobre a guarda do sábado (com J. Bates), entenderam a dinâmica do grande conflito (com J. Bates e E. G. White) e aceitaram a comissão de pregar as três mensagens angélicas (com J. Bates). Knight aproveita a oportunidade para esclarecer que “Bates desenvolveu a teologia do grande conflito com base na Palavra de Deus, sem o benefício do dom profético de Ellen White” (p. 45). A seguir, o autor trata do importante debate de 1888, considerando-o o resultado do espírito belicoso que se desenvolveu por causa do método excessivamente apologético adotado nos primeiros 40 anos da história da igreja. De um lado, havia a posição legalista de T. White e J. N. Andrews; do outro, a interpretação com ênfase na justificação, proposta por A. T. Jones e E. J. Waggoner. A divergência só foi resolvida após o pronunciamento de E. White, causando uma espécie de rebatismo da igreja adventista (p. 48). Focados em Ap 14:12, os adventistas montaram o quebra-cabeças: a espera de Jesus pressupõe a guarda dos mandamentos e o desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Jesus.

Na abertura do capítulo 3 (“A relevância do adventismo”, p. 53-81), Knight declara que “a maioria das batalhas teológicas é travada entre os ramos e as folhas” da árvore teológica. O autor está assim se preparando para desferir seus golpes contra os pregadores adventistas que querem, de alguma forma, alterar o teor da mensagem adventista a fim de torná-la mais relevante e, portanto, mais palatável aos ouvintes. Para ele, “a maior ameaça ao adventismo atual é perder sua compreensão da visão apocalíptica responsável por nos tornar um povo singular e vital” (p. 55). Segundo ele, não podemos nos esquecer das bestas por duas razões: (i) a Bíblia está cheia delas e (ii) o mundo está cheio delas. O pior é que “a jornada espiritual é como engatinhar num funil do fim para o início” (p. 60). Além disso, infelizmente, corremos o risco de ser lamentavelmente arrogantes (a ponto de nos considerar os donos da verdade) ou de ser elegantes demais (para afirmar qualquer coisa além de nossas dúvidas), pois “a Igreja Adventista hoje possui os ministros e membros leigos mais cultos e instruídos de sua história” (p. 60). Para Knight, porém, “o adventismo tem apenas um problema teológico real: Jesus ainda não voltou” (p. 60). Dito isso, o autor salta para uma breve apresentação dos diferentes sistemas de interpretação profética: o preterismo (defendido pela maioria dos teólogos), o historicismo adventista (dependente do princípio de que um dia profético equivale a um ano cronológico e, às vezes, acusado de eurocêntrico) e o futurismo (com a incoerente interpretação de que a purificação do templo, em Daniel, é um evento passado). A seguir, Knight aborda a questão das quatro doutrinas adventistas consideradas polêmicas pelos não adventistas e por um número crescente de teólogos adventistas: (i) o juízo investigativo; (ii) o santuário celestial; (iii) o grande conflito e (iv) o remanescente. Falando do juízo investigativo, uma de nossas doutrinas mais contestadas pelos próprios teólogos adventistas, chega à conclusão de que o problema não está com a fundamentação bíblica dessa doutrina, mas na forma intimidadora como ela tem sido apresentada por nossos pregadores. Falando do santuário celestial, reconhece quatro defeitos da pregação adventista sobre essa doutrina: (i) nossa atenção excessiva aos detalhes; (ii) nossa reversão de polaridades, fazendo com que o santuário celestial se torne o reflexo do terrestre; (iii) nossa negligência da dimensão alegórica (grego parabolê) do santuário; e (iv) a “adventização” do livro de Hebreus. Sua opinião é de que “estamos, sem dúvida, sobre terreno sólido no que diz respeito à nossa doutrina do santuário, mas não com relação à maneira como alguns a ensinam” (p. 77). Ao tratar do tema do grande conflito, apresenta as duas certezas adventistas sobre o assunto: (i) o dia não é a questão central (mas a lealdade e a adoração) e (ii) essa doutrina encontra-se fundamentada na Bíblia e não (apenas) em E. White. Finalmente, em relação ao remanescente, Knight reconhece que a igreja adventista não é perfeita, mas é a mais próxima da verdade bíblica que conhece.

O capítulo 4 (“Cenário de crise”, p. 82-91) abre com as evidências de que nossa época está experimentando uma descontinuidade radical: (i) a queda do muro de Berlim; (ii) a decadência do comunismo; (iii) o ataque terrorista a Nova Iorque; e (iv) a ascensão da China. Para o autor, há três indícios de que estamos perto da consumação escatológica: (i) a implantação de “uma ética de naufrágio”, segundo a qual, “se comermos juntos hoje, todos passaremos fome amanhã” (p. 84); (ii) as três correções do clube de Roma (de que os direitos humanos não são apenas relativos às liberdades individuais, de que os direitos humanos são uma questão política, e de que os padrões dos direitos humanos não se aplicam apenas aos outros; e (iii) as manchetes de jornais (que apontam para novos estilos de guerra e um estado de inquietação geral). Depois de sugerir três de seus livros favoritos sobre escatologia, Knight propõe a tese de Michael Barkum de que o pensamento direto chegou ao fim, pois as crises causam mudanças rápidas. De acordo com a metáfora de Sherlock Holmes, roubaram a barraca adventista e nós continuamos deitados, contemplando as estrelas! O autor conclui este curto capítulo relembrando a visão de um caminho reto, estreito e iluminado, que E. White registrou em Primeiros escritos: quando rejeitamos uma luz, ela é tirada de nós. Ao tratar dos temas da fome mundial e da violação dos direitos individuais em nome da coletividade, Knight prepara o terreno para abordar a questão que realmente o incomoda: o fato de que alguns pregadores adventistas estão mudando o teor da mensagem adventista para que esta se enquadre nas expectativas pós-modernas de um evangelho social e tolerante às diferenças. Isso ele fará no capítulo 5.

O capítulo 5 (“Expectativa equilibrada”, p. 92-104) é o menos original do livro. O capítulo repete vários dos argumentos apresentados por Steve Daily, em seu livro Adventism for a new generation (“Adventismo para uma nova geração”). Aliás, parece que o objetivo (nunca declarado) de Knight é justamente prover uma resposta àquele livro (publicado em 1992). Knight já afirmara, no capítulo 3, que o sábado não é a questão central dos últimos dias (mas a lealdade e a adoração), uma frase literalmente tirada do livro de Daily (p. 172). Agora, faz uma análise muito semelhante à de Daily com respeito às parábolas escatológicas situadas perto de Mt 24. No entanto, suas conclusões não são as mesmas. Enquanto Daily defende que a igreja adventista precisa se envolver mais com o evangelho social (p. 317-323), para Knight, existem, no Novo Testamento, dois textos apocalípticos de interesse especial para os adventistas: Mt 24 (e capítulos correspondentes nos demais evangelhos sinóticos) e o livro de Apocalipse. No primeiro caso, há uma ênfase social (cuidar do próximo); no segundo, uma ênfase proclamatória (anunciar as três mensagens angélicas). Para Knight, a busca de relevância tem levado certos pregadores adventistas (presumivelmente Daily) a enfatizar o apocalipse social (sinótico) em detrimento do apocalipse escatológico. A partir daí, Knight retoma seu fio original de pensamento, apresentando três razões por que a igreja adventista não pode se envolver excessivamente com um evangelho social: (i) Jesus recusou o assistencialismo como base de sua pregação; (ii) foi o próprio Jesus que comissionou a pregação das três mensagens angélicas; e (iii) E. White explicitamente orientou a igreja que não sucumbisse à prática de um evangelismo essencialmente social. Infelizmente, Knight só apresenta a citação do manuscrito 3 (1889), o que não nos permite avaliar, conclusivamente, o peso do pensamento de E. White sobre o assunto. As conclusões de Knight são (i) que os dois apocalipses são complementares e não excludentes (p. 102); (ii) que a única solução para a fome e outros problemas do mundo é a volta de Jesus; e (iii) que nossa pregação precisa prescindir da ênfase no temor do tempo do fim.

O capítulo 6 (“A esperança do mundo”, p. 105-108) é lamentavelmente curto, quase que apenas “um prefácio tardio”, como o próprio autor reconhece. Esperava-se que, depois de nos mostrar em que estamos errando em nossa pregação escatológica, o autor nos pudesse dar sugestões específicas de como melhorá-la. Ele se limita, porém, a propor que a visão neoapocalíptica (i) seja uma mensagem de esperança; (ii) não seja alarmista; (iii) tenha por foco o futuro; e (iv) enalteça a perspectiva (ou herança) adventista. Resta-nos descobrir, por nós mesmos, como conseguir implementar essas recomendações, na prática, em nossos púlpitos. O livro é, sem dúvida, uma contribuição importante para o aspecto proclamatório da escatologia adventista. O ideal, como o próprio autor reconhece, é lançar mão das duas perspectivas: precisamos pregar que o fim se aproxima e, enquanto fazemos isso, precisamos cuidar daqueles que padecem neste mundo provisório.



BARKUM, Michael. Disasters and the millennium. New Haven: Yale University Press, 1974.



DAILY, Steve. Adventism for a new generation. Portland: Better Living, 1992.



WHITE, Ellen G. Primeiros escritos. Tatuí, SP; CPB, 2007.

The Welcome Table: Livro sobre a Ordenação das Mulheres

HABADA, Patrícia; BRILLHART, Rebecca F. (Eds.). The welcome table: setting a place for ordained women. Langley Park, Maryland: Teampress, 1995. 408 p.




O livro The welcome table é uma publicação independente de uma organização adventista conhecida como T.E.A.M. (Tempo para a Igualdade no Ministério Adventista) que defende a ordenação de mulheres para o ministério adventista. As editoras solicitaram que Carole L. Kilcher, uma professora de comunicação da Universidade Andrews, escrevesse a introdução à obra. A ironia é que a professora Kilcher não acredita na necessidade de ordenação para homens ou mulheres. Segundo ela, Jesus não ordenou seus doze discípulos nem tampouco foram ordenados os setenta. Ela aceitou, no entanto, o convite como resultado de sua participação em duas pesquisas promovidas pela Associação Geral da IASD. A pesquisa de 1988, dirigida a todos os pastores e anciãos de igrejas da Divisão Norte-americana (DNA), recebeu a participação de 3.036 informantes, 960 dos quais eram mulheres que serviam na capacidade de anciãs ordenadas. As igrejas que tinham anciãs ordenadas disseram apoiar a ordenação de mulheres ao ministério, enquanto que as igrejas que não as tinham se disseram desfavoráveis. A segunda pesquisa, realizada em 1989, foi respondida por 1.872 mulheres que serviam como obreiras na igreja mundial, 60% das quais não se encontravam lotadas na DNA. Suas principais queixas, nessas entrevistas, foram: pagamento desigual, condições desiguais de trabalho e falta de informação. 49% dessas mulheres se disseram favoráveis à ordenação das mulheres ao ministério.



O capítulo 1, “A place at the table: women and the early years” (“Um lugar à mesa: as mulheres nos primeiros anos”, p. 27-44), escrito por Bert Haloviak, então diretor assistente do Departamento de Arquivos e Estatística da Associação Geral da IASD, analisa as assim-chamadas declarações favoráveis de Ellen White à ordenação das mulheres ao ministério. Haloviak estabelece o contexto em que tais afirmações foram feitas, ligando-as ao ministério de Ellen White na Austrália, período em que várias mulheres serviram na função de pastoras. Haloviak mostra que, apesar de os pioneiros se preocuparem com a autoridade bíblica para a IASD adotar um nome, registrar propriedades junto aos órgãos do governo e exigir que seus pastores estudassem em seminários, não houve objeção considerável ao trabalho de mulheres no ministério. Na época, as mulheres adventistas possuíam credenciais ministeriais, participavam de sociedades ministeriais, dirigiam séries evangelísticas e recebiam do dízimo. O autor não apresenta as declarações em ordem cronológica, mas em função de seu crescente impacto favorável à ordenação. Começando com a declaração de 1985 na Review & Herald, segundo a qual as mãos das mulheres adventistas não deveriam ser amarradas, Haloviak faz referência à declaração da carta de 1897, em que Ellen White , com uma definição versátil e dinâmica do ministério, declara que as mulheres envolvidas no ministério adventista deveriam receber do dízimo, e finaliza com uma menção à declaração de 1891, feita em uma sessão da Associação Geral, em que Ellen White afirma que o ministério de homens e mulheres precedeu, na mente de Deus, a criação do mundo.



O capítulo 2, “Moving away from the table: a survey of historical factors affecting women leaders” (“Saindo da mesa: uma pesquisa sobre os fatores históricos que afetaram as mulheres em posição de liderança”, p. 45-57), escrito por Kit Watts, editora assistente da Revista Adventista, em inglês, foi originalmente publicado na revista Ministério Adventista, em inglês, e mostra as razões por que a IASD deixou de conceder credenciais ministeriais às mulheres. A autora mostra como a influência de Ellen White clareou a visão da igreja em relação ao papel da mulher na sociedade numa época em que as mulheres, de modo geral, não podiam ter propriedades, não podiam freqüentar universidades, não podiam votar e não podiam falar em público. A autora lembra que religiosos como John Wesley e George Fox foram os primeiros a falar em defesa de uma maior participação feminina no ministério. Após citar as declarações de Ellen White de que Maria foi a primeira a anunciar a ressurreição de Jesus (de 1886) e de que as mulheres podem fazer um trabalho superior ao do ministro que negligencia visitar o rebanho (de 1898), Watts mostra, por meio de gráficos, as estatísticas que mostram o decréscimo no número de mulheres servindo como tesoureiras e secretárias de Associações, bem como daquelas servindo como departamentais de educação e escola sabatina, na Associação Geral. As razões apresentadas para tal decréscimo são: a crise econômica resultante da Grande Depressão, a nova ênfase nos papéis maternos por causa das Grandes Guerras Mundiais e a morte de Ellen White. Finalmente, a autora lembra que a recente discussão acerca da ordenação de mulheres pela IASD se deveu ao pedido da União Finlandesa à Associação Geral, em 1968, de que essa injustiça seja corrigida.



O capítulo 3, “A guide to reliable interpretation: determining the meaning of Scripture” (“Um guia para uma interpretação confiável: determinando significados nas Escrituras”, p. 63-90), escrito por Raymond Cottrell, um dos editores do Comentário bíblico adventista, tenta mostrar que, embora alguns estudiosos liguem a defesa da ordenação da mulher ao emprego do método histórico-crítico (um método liberal com pressuposições anti-supernaturalistas), são aqueles que se opõem a ela que o fazem movidos por sua fidelidade a um método de tendências fundamentalistas, conhecido como método gramático-histórico (p. 80). O termo “gramático” significaria, etimologicamente, “literal”, uma vez que a palavra grega gramma significa “letra”. Para o autor, esse método, ao qual chama de variante da hermenêutica fundamentalista (p. 83), ganhou acesso à ortodoxia adventista na década de 70, sendo desconhecido, entre os adventistas, anteriormente a esse período. Segundo Cottrell o método é principalmente empregado pelos administradores da IASD sem treinamento teológico porque essa metodologia dá um aspecto de respeitabilidade teológica às posições fundamentalistas a que conduz. Para Cottrell, tanto o método histórico crítico quanto o gramático-histórico são inadequados para o estudo teológico da Bíblia. Segundo ele, o primeiro supervaloriza a dimensão humana da Bíblia (considerada meramente como obra literária), enquanto o segundo atribui valor excessivo à dimensão divina do processo revelatório. Por isso, propõe a utilização de um método histórico que mitigue as tendências aos dois extremos.



O capítulo 4, “Genesis revisited” (“Gênesis revisitado”, p. 93-111), escrito por Donna J. Haerich, historiadora e membro leigo de uma igreja adventista da Flórida, analisa o relato da criação e da queda. A autora procura, primeiramente, definir o significado de imagem de Deus. Para isso, ela recorre a teorias correntes a esse respeito. O que seria, então, a imagem de Deus? capacidades morais e intelectuais? livre arbítrio? capacidades sobrenaturais? capacidade de domínio sobre a terra? Depois de dar certa atenção a esta última possibilidade (uma vez que Gerhard von Rad propõe que, na Antigüidade, as estátuas de soberanos erigidas em seus domínios indicavam precisamente isso), Haerich evoca a análise poética de Phyllis Trible e a teoria de Karl Barth de que, em Gênesis, a imagem de Deus significa a pluralidade formada por homem e mulher. A seguir, a autora enfatiza que a bênção de Gn 1:28 foi pronunciada sobre homem e mulher (e não sobre o homem apenas), constituindo-se em uma bênção de fertilidade e de domínio não violento sobre a terra (e não um sobre o outro). Haerich também analisa Gn 2 e percebe que a palavra homem (ish) não ocorre até Gn 2:22-23. Antes disso, o relato emprega o termo ’adam, que significa “ser humano”. Para ela, isso indica que o sexo no relato de Gênesis é um dado apenas incidental. Ao descrever a criação da mulher, a autora esclarece que a palavra selah não significa costela e que o termo ēzer (“ajudadora”) não tem nenhuma conotação de subordinação. Ela alega que o fato de a mulher ter sido tirada do homem não sugere que ela lhe seja subordinada da mesma forma que o fato de o homem ter sido tirado da terra não o subordina a ela. Pelo contrário, ao ser humano foi dado o domínio sobre a terra. Além disso, Gn 2:22 não afirma que a mulher foi criada para o “varão” (ish), mas para que o “ser humano” (’adam) se tornasse completo. O fato de a designação de “mulher” (ishshah) ter sido tirada da designação do “homem” (ish) tampouco prova coisa alguma, já que a expressão “ser humano” (’adam) também foi tirada de uma outra palavra: “terra” (adama). Finalmente, a autora contende que o homem só deu à mulher o nome de Eva (“vida”) após a queda (Gn 3:20).



O capítulo 5, “Man and woman as equal partners: the biblical mandate for inclusive ordination” (“Homem e mulher como parceiros em igualdades de condições: a ordem bíblica da ordenação inclusiva”, p. 113-135), escrito por David Larson, professor de ética da Universidade Adventista de Loma Linda, propõe uma interpretação coerente para a expressão “auxiliadora idônea” de Gn 2:18 e a questão da subordinação da mulher ao homem. Segundo ele, a expressão não pode significar que a mulher era inferior e subordinada ao homem, uma posição comum nos relatos extra-bíblicos da criação. Dizer que a mulher é a imagem do homem assim como este é a imagem de Deus ignora alguns aspectos fundamentais do relato de Gênesis: (1) o caráter relacional, mútuo e recíproco entre homem e mulher, (2) o fato de ēzer (“ajudadora”) ser também empregado em relação a Deus (Êx 18:4; Sl 33:20; 70:5; 146:5; Os 13:9, etc), e (3) as declarações de Ellen White, segundo as quais Deus criou Eva em igualdade com Adão (Patriarcas e profetas, p. 58). A expressão tampouco pode significar que a mulher foi criada subordinada, mas não inferior ao homem porque essa idéia tem algumas deficiências básicas: (1) é muito difícil separar valor e função, (2) não tem fundamentação bíblica (1 Co 11:12; Gl 3:28), (3) não encontra apoio nos escritos de Ellen White que afirmam que mulher e homem foram criados em completa igualdade (Testimonies for the church, v. 3, p. 484), (4) não leva em consideração que Eva não foi tentada a se tornar como Adão, mas como Deus, e (5) não leva em consideração o fluxo do relato bíblico que mostra que a mulher nem sempre foi submissa ao homem (Gn 1-3), que a mulher não será submissa ao homem (Joel 2) e que a mulher não precisa ser submissa ao homem (Gl 3). A posição do autor é que, em conformidade com o que afirma Ellen White (Testimonies for the church, v. 3, p. 484) a subordinação da mulher é uma conseqüência da queda. Sendo assim, do mesmo modo que o homem procura, por meio de avanços tecnológicos e progresso nas técnicas de agricultura, se libertar das limitações a ele impostas pela queda, a mulher deve buscar se libertar de suas limitações. Para isso, o autor sugere mudanças: a igreja deve enfatizar (1) organicidade e não hierarquia (1 Co 12), (2) submissão mútua (Ef 5:20-22) e não submissão unilateral, (3) princípios e não conjunturas sociais e (4) destemor diante da perspectiva de mudanças. De acordo com Ellen White (Life sketches, p. 196) “nada temos a temer em relação ao futuro...”



O capítulo 6, “The disappearance of paradise” (“O desaparecimento do paraíso”, p. 137-153), escrito por Fritz Guy, professor de teologia na Universidade Adventista de La Sierra , na Califórnia, propõe uma releitura imparcial dos capítulos iniciais de Gênesis a fim de compreender sua significância teológica. Ele percebe dois pontos culminantes nos dois relatos da criação, em Gênesis, a criação do sábado para a comunhão entre o ser humano e Deus e a criação do primeiro casal para a comunhão dos seres humanos entre si. Ele analisa que a queda trouxe inúmeras conseqüências para a raça humana: (1) vergonha e culpa, (2) alienação, (3) evasão e tendências para racionalizar, isto é, jogar a culpa uns no outros, (4) aumento das exigências de trabalho, (5) corrupção da natureza humana, (6) desequilíbrio nas relações entre Deus, homem, mulher, animais e vegetais, (7) interdição da árvore da vida e (8) morte. Segundo ele, no entanto, a idéia equivocada de que as dores de parto deveriam intensificar-se após a queda se deve a uma tradução equivocada do termo hebraico issabon, aplicado à mulher em Gn 3:16 e ao homem em 3:17. Sua interpretação é de que a queda trouxe mais trabalho para homens e mulheres, e um aumento na freqüência da gravidez. Além disso, a natureza humana é corrompida de tal forma que a mulher se vê degradada a uma condição de subordinação e o homem se vê degradado a uma condição de senhor da mulher. O autor afirma que ambos os fardos são pesados e recorda que a exigência de o homem estar sempre em controle da situação é tão desumana quanto a de se exigir que a mulher aceite passivamente a sua sorte. A queda trouxe uma outra conseqüência desagradável: quando uma mulher não aceita a dominação masculina, pensa-se que ela está tentando dominar o homem. No entanto, em todo o relato de Gênesis, Deus nunca a repreende por ter tomado a iniciativa, mesmo em relação ao diálogo com a serpente, e o homem nunca é repreendido por não ter exercido autoridade sobre a mulher a fim de evitar a queda. Os papéis sexuais são, portanto, pouco significativos nesse relato. A “maldição” proferida por Deus é um catálogo de problemas a serem resolvidos e não de soluções a serem perpetuadas.



O capítulo 7, “Inclusive redemption” (“Redenção inclusiva”, p. 155-177), escrito por Edwin Zackrison, professor de teologia na Universidade Adventista de La Sierra , na Califórnia, estuda os diferentes sentidos teológicos da palavra “redenção”: (1) libertação; (2) resgate; (3) livramento da morte (por meio da ressurreição). O autor declara que o conceito pressupõe a seqüência perfeição/queda/restauração (história da salvação) e cristocentricidade. Trata-se, segundo ele, de um brilhante simbolismo (comprar escravos a fim de libertá-los) com duas dimensões: vertical (relacionamento com Deus) e horizontal (relacionamento com os semelhantes). Zackrison nos adverte, então, que nossa compreensão teológica já esteve errada a nível popular: a idéia de que a raça negra participara da maldição de Cão predominou entre muitos adventistas até recentemente. Hoje, nenhum de nós defende a inferioridade dos negros e esse pensamento chega a parecer absurdo. Por essa razão, não devemos confundir autoridade bíblica com interpretação bíblica. Segundo ele, a religião, às vezes, pode ser mesmo um ópio para o povo, especialmente quando tratamos de estruturas de poder (p. 170-171). Assim, precisamos aprender a diferençar entre “balela religiosa” (godtalk) e a expressa vontade de Deus, pois esta inclui a redenção do ser humano a partir de agora, em sua vida na terra.



O capítulo 8, “The forgotten disciples: the empowering of love vs. the love of power” (“Os discípulos esquecidos: o poder do amor versus o amor ao poder”, p. 179-195), escrito por Halcyon Westphal Wilson, pastora de uma igreja adventista nas imediações da Universidade de La Sierra , enaltece as mulheres que foram discípulas de Jesus, seguindo-o e apoiando financeiramente o seu ministério (Lc 8:1-3). Ela chama a atenção para o fato de que as mulheres foram as primeiras companhias na vida de Jesus e as últimas em sua morte. Embora Jesus procurasse trabalhar dentro dos parâmetros culturais de sua época, Ele ignorou as limitações que tinham sido impostas sobre as mulheres (que não eram contadas na lista de membros das sinagogas, eram ignoradas pelos rabis na vida pública, eram impedidas de freqüentar os cultos quando menstruadas e não eram admitidas às cortes judiciais como testemunhas) e liberou-as para participarem ativamente de seu ministério. Wilson afirma que as barreiras entre homens e mulheres ruíram no Pentecoste (Gl 3:28), Rm 16 tornando-se uma verdadeira sala da fama de mulheres cristãs: Febe, Prisca, Maria, Narcisa, Trifena, Trifosa, Perse e Júnia (que é chamada de “apóstola” em 16:7). Assim, a sugestão da autora é que homens e mulheres parem de competir por prioridade (ser o primeiro) e busquem unidade (ser um).



O capítulo 9, “Who’s in charge of the family?” (“Quem manda na família?”, p. 197-221), escrito por Sheryll Prinz-McMillan, professora de religião na Universidade Adventista de Loma Linda e pastora de uma igreja adventista nas imediações daquela universidade, analisa as principais passagens bíblicas geralmente apresentadas contra a ordenação de mulheres. Antes disso, ele mostra como a doutrina do homem como cabeça tem sido correlacionada pelas estatísticas com a violência familiar, estabelecendo uma hierarquia homem/mulher/criança. A autora analisa, primeiramente, o texto de 1 Co 11. Segundo ela, a temática dessa passagem não é uma teologia da feminilidade, mas uma discussão acerca de estilos de penteado. Nessa passagem o sentido do termo grego kephalē (“cabeça”) teria sido mal compreendido pelos estudiosos que imaginaram que a palavra teria a mesma conotação metafórica dos nossos dias, isto é, a de liderança. Um estudo do termo em suas ocorrências na Antigüidade deu início a uma batalha dos léxicos e sugere que seu sentido básico é o de fonte e não o de líder. Assim, o homem seria a fonte da mulher (por ter sido criado primeiro) e não o líder da mulher. É, por isso, que Jesus é chamado de cabeça da Igreja, a primícia dos mortos (Co 1:18). De fato, o termo nunca é usado na Septuaginta para traduzir uma palavra hebraica que signifique autoridade. Além disso, os pais da Igreja, principalmente Basílio e Atanásio, deram essa interpretação de fonte a kephalē. 1 Co 11:5 esclarece que as mulheres cristãs estavam participando ativamente na adoração. Como judeus e gregos não estavam acostumados a isso, Paulo age de maneira comedida para dar-lhes tempo de se acostumar a essa nova realidade. A segunda passagem analisada pela autora é 1 Co 14, cujo tema básico não é o relacionamento entre homem e mulher, mas a ordem no culto. A passagem pode estar simplesmente proibindo as mulheres de adotarem comportamento desordenado durante o culto, uma vez que elas tampouco estavam acostumadas a participar da adoração. É provável que a lei à qual se refere Paulo seja a lei romana que proibia o comportamento desordenado das mulheres em reuniões públicas. Os romanos desconfiavam especialmente das mênades (ou bacanais), as adoradoras do deus (e não deusa, como afirma a autora, p. 208) Dionísio ou Baco. A terceira passagem analisada é Ef 5 que faz uso de uma forma literária conhecida como “código doméstico”. Esses códigos eram geralmente propostos por filósofos antigos para nortear o comportamento das famílias greco-romanos (mas, ao contrário do que afirma a autora na p. 210, não tinham valor legislativo). Paulo faz, porém, subverte sutilmente o formato do código que propõe: ele substitui submissão unilateral por submissão mútua e, surpreendentemente, encoraja o amor e não o governo. Essa sutileza é necessária porque, do contrário, o apóstolo poderia acabar violando as convenções sociais de sua época. Finalmente, a autora analisa o texto de 1 Tm 2, propondo que seu tema básico é uma discussão sobre o celibato, e reconhece que a passagem parece em desarmonia com outros textos paulinos. No entanto, ela aponta para o fato de que a palavra hēsuchia pode não significar “silêncio” (mas comportamento ordenado) e que o verbo authenteō (“dominar”) pode se referir ao comportamento permissivo das hetairai (ou “cortesãs”) gregas que eram convidadas aos banquetes com a finalidade de entreter os homens com música, discussões filosóficas e sexo. Assim, 1 Tm 2 pode ter o propósito duplo de reprovar um comportamento por parte das mulheres cristãs que, de alguma forma, faça lembrar o comportamento das cortesãs e desabonar o ensinamento gnóstico de que a mulher é a mediadora do conhecimento.



O capítulo 10, “Spiritual gifts and the good news” (“Os dons espirituais e as boas novas”, p. 223-236), escrito por Joyce H. Lorntz, PhD em serviço social e pastora auxiliar de uma igreja adventista na Carolina do Norte, apresenta evidências de que Deus concedeu os dons de ministério também às mulheres. Segundo ela, isso se percebe pela metáfora do corpo articulado (em Rm 12:4-5) e pelo precedente do ministério das mulheres na Bíblia (as filhas de Filipe, Miriam, Débora, Hulda, a esposa de Isaías, Ana, Febe, Priscila, etc). Além disso, Deus não é limitado por preconceitos culturais. Por essa razão, ninguém proporia, hoje, deixar fora do ministério os castrados, os bastardos e os moabitas (embora esses fossem banidos da assembléia em Dt 23:1-3). Segundo a autora, os principais textos bíblicos sobre os dons espirituais (Rm 12:3-8; 1 Co 12; Ef 4:11-13) não fazem restrições às mulheres. As mulheres também são chamadas a pregar o evangelho sob a premissa do sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2:4-10). Para resolver o dilema entre hierarquia e mutualidade, é necessário procurar uma solução que se fundamente na vontade de Deus, que ajude a Igreja a cumprir a missão que lhe foi confiada e que permita que os membros façam pleno uso de seus dons (1 Pe 4:10). Uma teologia que reflita uma cadeia de comando nada mais seria do que a repetição do desejo de Satanás de se tornar como Deus ou o pedido dos discípulos de terem posições privilegiadas no reino de Deus. Ordenar mulheres enviaria ao mundo a mensagem de que valorizamos a reconciliação, a igualdade, o serviço e a humildade. Dizer que uma mulher não pode usar os dons que lhe foram concedidos pelo Espírito Santo desonra o Distribuidor Divino de dons (p. 232).



O capítulo 11, “Ministry: a place for men and women” (“O ministério: um lugar para homens e mulheres”, p. 237-250), escrito por V. Norskov Olsen, ex-diretor geral da Universidade Adventista de Loma Linda, analisa os tipos de ministérios existentes na igreja cristã primitiva. Olsen parte da observação de Hans Küng de que, ao falar de ministérios, os autores do Novo Testamento evitaram usar expressões gregas que sugerissem autoridade em favor de expressões que enfatizavam serviço. O autor apresenta, então, os tipos de ministério, começando pelo ministério apostolar, cuja existência ele restringe unicamente à igreja primitiva, uma vez que o apóstolo é aquele que é chamado e treinado pelo próprio Cristo. Depois, Olsen faz referência ao ministério carismático, que ele define como sendo o ministério oriundo da distribuição de dons pelo Espírito Santo cujas modalidades estão incluídas nas listas paulinas (1 Co 2:28 e Ef 4:11), de conotação missionária, administrativa e litúrgica. Finalmente, o autor faz referência ao ministério formal, iniciado pela escolha por parte da congregação e a subseqüente imposição de mãos (At 14:23; Fl 1:1; 1 Tm 3:8-13; Tt 1:5). O autor trata, então, das palavras gregas usadas em relação ao ministério das mulheres no Novo Testamento: diákonos (Rm 16:1-2), inconsistentemente traduzida como “ministro” no contexto da atuação dos homens, mas traduzida como “diaconisa” quando usada em referência a uma mulher (1 Tm 3:17; 5:9-10); prostátis (Rm 16:2), “patronesse”; e kopiōsa “obreira” (Rm 16:6, 12). Sua conclusão é de que o Novo Testamento apresenta as mulheres como ativamente envolvidas no ministério cristão.



O capítulo 12, “Ordination among the people of God” (“A ordenação dentre o povo de Deus”, p. 251-268), escrito por Ralph E. Neall, ex-professor de religião do Union College, instituição adventista localizada em Nebraska, trata da história da prática da ordenação ao ministério. Segundo ele, o Novo Testamento não possui uma palavra para ordenação e essa prática pouco acrescenta à capacitação já provida pelo Espírito Santo (p. 251). O autor procura demonstrar que há uma diferença qualitativa entre o ministério do Antigo e do Novo Testamento: atrair as nações x ir até as nações; sacerdócio levítico x sacerdócio de todos os crentes; ingresso pelo nascimento x ingresso pelo novo nascimento; admissão pela circuncisão x admissão pelo batismo; e segregação das mulheres x inclusão das mulheres. Para ele, a ordenação não era importante na igreja primitiva, tendo assumido certa obrigatoriedade unicamente a partir de Cipriano de Cartago (146- 258 A .D.), quando os bispos passaram a ser vistos como sacerdotes (p. 258). Lutero lutou para reverter essa situação e Calvino chegou a rejeitar completamente a cerimônia da ordenação. Os primeiros pastores adventistas a serem ordenados (J. N. Andrews; A. S. Hutchins e C. W. Sperry) só o foram, em 1853, a fim de serem diferenciados daqueles que estavam pregando falsas doutrinas. Para terminar o capítulo, o autor propõe um reestudo de 1 Tm 2:11-15 à luz das descobertas de Richard e Catherine Kroeger de que a igreja de Éfeso (onde se encontrava Timóteo) tinha um problema crônico com a doutrina gnóstica de que a mulher era uma mediadora de conhecimento para o homem. Dessa forma, a recomendação de que a mulher ficasse em silêncio na igreja pode ser simplesmente uma tentativa de lidar com um problema local.



O capítulo 13, “Women and mission” (“As mulheres e a missão”, p. 269-288), escrito por Ginger H. Harwood, professora de ética e religião na Universidade Adventista de La Sierra e na Universidade Adventista de Loma Linda, ambas na Califórnia, salienta que o debate sobre a ordenação de mulheres na IASD não é um resultado do movimento feminista (p. 269). Segundo ela, quatro grupos participam desse debate: um grupo decepcionado com a morosidade com que a igreja responde às questões de injustiça e discriminação e que pensa que a igreja deve estar na vanguarda da luta contra a violência e a tirania, um segundo grupo que enxerga o debate como uma evidência da chegada da secularização à igreja e da contaminação de nossos princípios com valores mundanos, um terceiro grupo que se ressente do fato de que as mulheres estejam preocupadas com sua situação social em vez de simplesmente se envolverem na pregação do evangelho e um último grupo que defende que a mulher foi criada inferior ao homem e, por isso, não deve ter acesso à mesma posição hierárquica que este. Após observar o debate, a autora chegou a quatro conclusões: (1) a Bíblia não é explícita a esse respeito; (2) o assunto exige exame cuidadoso; (3) o tema requer o estudo da ordenação de modo amplo; e (4) o tema envolve mais o lado emocional do que o intelectual (p. 273). Para a autora, a ordenação de mulheres será decisiva para o cumprimento da Grande Comissão, pois (1) 60% dos membros da igreja mundial são do sexo feminino; (2) o trabalho harmonioso de homens e mulheres tem mais poder; e (3) as mulheres podem alcançar, com mais facilidade, outras mulheres, tornando-se seus modelos, especialmente no caso de mulheres que sofreram abusos ou vivem em partes do mundo onde há intensa segregação. Segundo Ellen White, “se houvesse vinte mulheres onde há apenas uma, que fizessem dessa sagrada missão a sua obra almejada, veríamos muitos mais convertidos à verdade” (Review & Herald, 2/1/1879). Por que, então, ordenar mulheres: (1) para que façamos uma declaração pública de que as mulheres podem exercer o ministério; (2) para que reconheçamos publicamente que seu ministério é útil para a igreja; e (3) para que elas sejam submetidas às mesmas exigências de capacitação que são requeridas dos homens. A autora termina o capítulo com o poema de Chuck Lathrop (minha versão):



Em busca de uma mesa redonda



Quando indagamos por que, como e quem há de ministrar,

Só uma imagem fica aparecendo:

uma mesa redonda!



Ela vai precisar ser serrada,

e arredondada.

O serrote vai trazer dores

para as pessoas e para as mesas



Mas assim também foi com a cruz,

uma mesa esquisita,

para dar e, é claro, para morrer.



Dessa morte veio vida,

dessa vida veio o levantar-se da mesa

para seu arredondamento



O que é essa mesa redonda na igreja?

É não guardar lugar,

não separar a primeira da última fileira,

não deixar o estrado dos pés para os menores



Mesa redonda significa

fazer parte do todo

em unidade



Significa reservar lugar...

para o Espírito

e seus dons...

Significa perturbar a paz profunda de todos



Nós preparamos, no presente, a argamassa do futuro

pois não podemos mais nos preparar para o passado!



O capítulo 14, “A table prepared” (“Uma mesa preparada”, p. 291-298), escrito por Iris M. Yob, PhD em educação pela Universidade de Harvard, é uma reflexão recapitulativa do conteúdo de todo o livro. Segundo a autora, dada a natureza inclusiva do chamado para todos nos sentarmos à mesa do banquete do Cordeiro, não deveríamos imaginar que o chamado de Jesus para que sirvamos, à mesa, seja menos inclusivo (p. 292). Nossos pioneiros, especialmente Uriah Smith, J. N. Andrews, James White, G. C. Tenney e Ellen White, foram fervorosos defensores da idéia de que as mulheres adventistas deveriam receber credenciais pastorais para o ministério, sendo que 53 mulheres receberam tais credenciais até 1975 (p. 297), a autora solicita, portanto, que essa tradição seja respeitada e mantida.

O livro contém, ainda, um apêndice sobre as declarações de Ellen White sobre o ministério (p. 301-308), uma explicação sobre a teologia da ordenação como esta constava da edição de 1992 do manual para ministros adventistas (p. 309-312), uma declaração com as bases bíblicas para a ordenação de mulheres (p. 313-315), um conjunto de testemunhos favoráveis à ordenação de mulheres da parte de influentes líderes da IASD (p. 316-333) e um esboço cronológico da história do debate sobre a ordenação de mulheres na IASD (p. 334-358). Finalmente, o livro oferece uma lista cronológica seleta de 150 mulheres adventistas que se envolveram no ministério pastoral, acompanhada de pequenas biografias (p. 359-381), as 200 perguntas mais freqüentes sobre a ordenação de mulheres na IASD e respostas sugestivas para essas perguntas (p. 382-398) e uma bibliografia recomendada sobre o tema (399-408).