Wednesday, June 07, 2017

Mensagem que mandei a uma aluna que me perguntou se eu me lembraria dela depois de formada

A vida é mesmo cheia de surpresas. Nunca pensei que, nas voltas que ela dá, eu viesse a me tornar amigo de uma descendente de italianos com cara e atitude de japonesa, mas que gosta de mandarim e fala inglês. O mais interessante é que você consegue fazer tudo isso sem perder o fôlego ou a pose. Aliás, pose não lhe falta nunca, até quando está atrasada ou visivelmente na contramão dos fatos. Não sei se somos do mesmo planeta. Já peguei você em rasantes voos em Marte, Júpiter ou algum satélite perdido no espaço. Ainda bem que você tem suas estratégias para retornar a Houston, nem que seja na cauda do cometa ou no tapete de Aladim. Mas você não precisa sofrer de nenhum complexo de inferioridade. Sonhar de olhos abertos é uma arte que poucos conseguem cultivar. E, no cultivo desse legume chamado sonho, você parece especialista. Aliás, eu sempre soube que os japoneses eram bons de horta! O surpreendente é que, às vezes, me pego catando as sementes que você plantou. O que eu quero dizer é que eu também gosto de me perder nos anéis de Saturno ou em alguma terra distante: na Grécia, de preferência. É, por isso, que – depois que você se formar e for embora – tenho a esperança de nos encontrarmos com frequência. É só a gente programar nossos devaneios para a mesma hora ou batcanal.
Será impossível não me recordar de você. Afinal de contas, foram muitas as encruzilhadas nas quais nos encontramos, de repente, sem nos dar conta disso. Às vezes, você abandonou o navio antes de ele afundar. Outras vezes, entretanto, você aguentou o tranco e ficou até o fim. De qualquer forma, você foi sempre leal, amiga, paciente, animada e presente (ainda que, às vezes, só de corpo). Sempre quis o melhor para si mesma e para os outros. Nunca foi desleal, autoritária ou impertinente. Podia continuar aqui no UNASP e fazer dez graduações que continuaríamos amigos, pois os nossos santos se batem, pássaros da mesma pena que somos, embora cada um voe à sua maneira e para destinos nem sempre coincidentes.
Infelizmente, daqui a pouco você terá que partir para seus voos de ave solitária e, a partir de então, dona do próprio nariz (ou será que eu devia dizer do próprio bico?). Vai ficar um pequeno vazio no coração de cada um que conviveu com você ou participou de uma boa briga com a italiana desse cruzado forte de esquerda. Quando você tiver comprado aquela casa com a qual você está sonhando e que já descreveu para mim, saiba que haverá, em algum canto da sala ou da cozinha, um pequeno espaço cheio de ar que pode muito bem representar esse vazio do qual acabei de falar. Nunca mais seremos os mesmos. Nunca mais conviveremos todos juntos e felizes como quando estivemos aqui no UNASP. Seus amigos partem para suas próximas aventuras, eu fico aqui imaginando o que vocês estão fazendo da vida e você parte em busca desses sonhos com os quais você se envolve tão fácil e completamente. Pode ir, sonhadora! Você tem a minha torcida. Desejo mais o seu sucesso do que a vitória do Brasil na copa.

Tripulação, preparar para o pouso


por Milton L. Torres

                Em nossa era global de viagens rápidas e frequentes, cada vez mais confortáveis e seguras, eu especialmente gosto de ouvir o anúncio do piloto, geralmente sem nenhum aviso prévio: - Tripulação, preparar para o pouso.
                A frase evoca a alegria de voltar para casa, de chegar ao destino, a realização e satisfação de ter cumprido um trajeto, de estar perto da destinação... Provoca também a movimentação dos passageiros, apertando o cinto de segurança, travando suas respectivas mesas, desligando os dispositivos eletrônicos, devolvendo o recosto do assento para a posição vertical, desfazendo-se dos descartáveis. É um chamado à ação que precede a inação. É um convite a um estado de alerta em que, apesar disso, nos colocamos, meio entorpecidos, sob os cuidados daqueles que nos farão pousar em segurança.
               Fico imaginando se é possível ouvir essa mesma frase estereotipada num ambiente diferente daquele ao qual estamos acostumados nos voos da aviação comercial. Imagino também se ela provocaria em nós reações equivalentes. Eu acho que isso é possível. Foi assim que me senti quando completei cinquenta anos de idade. Ouvi, claramente, uma voz falando pelo autofalante: - Tripulação, preparar para o pouso.
                Diferentemente, porém, do que acontece na aviação comercial, pareço ter sido o único a ouvir a voz, apertar o cinto de segurança e seguir os demais itens de protocolo para um pouso seguro e feliz. As demais pessoas continuaram a se comportar como se estivessem no meio da viagem, em velocidade de cruzeiro, acima das mais altas nuvens do céu...
                É interessante que, na vida, ao contrário da aviação, não chegamos juntos ao destino. Cada um chega lá na sua vez, às vezes até inesperadamente. Os outros não ouviram a voz. Mas eu ouvi, e fico grato por ter ouvido. Seria trágico se o avião pousasse inesperadamente, em meio à turbulência, e eu não estivesse preparado para esse acontecimento sinistro.
                Desde que ouvi a voz, não faço outra coisa senão me desfazer de tudo o que é descartável. Não vejo sentido em me apegar a toda essa tralha que venho carregando comigo, até agora, até este momento da viagem. Assim, venho descartando as coisas. Naquela hora, quero comigo apenas o que for estritamente essencial.
                Ao mesmo tempo, apertei, com firmeza, o cinto de segurança. Isso significa que estou preparado para um pouso suave, impacto ou colisão. O que vier pela frente não me pegará de surpresa. Outra coisa que venho apertando é a mão dos outros passageiros. Não se trata de medo de voar, só quero o conforto de saber que alguém me segura a mão porque é importante a companhia dos outros. Não podemos terminar a viagem solitária e tristemente.
                Já travei a mesinha e coloquei meu assento na posição vertical, pois o fim da viagem não é hora de trabalhar, nem de relaxar. Pelo contrário, é hora de alcançar o equilíbrio pelo qual seremos lembrados. É, acima de tudo, o momento de sermos corteses, amorosos, espontâneos e fiéis às coisas que nos definiram e continuarão a definir enquanto houver lembrança da partida e da chegada.
                Fora isso, ainda não consegui desligar os dispositivos eletrônicos, mas já tenho uma boa ideia de que precisarei fazê-lo em breve, hoje ou amanhã de manhã. Afinal de contas, não adianta tomar todas as outras medidas de segurança se não vamos investir nossa atenção inteira no fim da viagem e suas repercussões. Nessa hora, é preciso ter as mãos livres para abraçar e beijar, e despedir-nos, e desejar boa sorte, e olhar bem para os olhos das pessoas e recordar o quanto elas nos fizeram felizes, o quanto fomos felizes juntos...
                O melhor, entretanto, é que, nesse fim de viagem, não temos que reclamar nossos pertences na esteira de número três, nem providenciar os meios para a continuação do deslocamento. Outros cuidarão dessas coisas... Podemos, em vez disso, apenas descansar em paz!





Thursday, May 11, 2017

Convite para dançar


Milton L. Torres

                Eu fui precoce na minha adolescência. Desde aquela época, meu desejo era encontrar a moça certa e, com ela, constituir família. O problema é que eu era tímido. Morando no subúrbio de Belo Horizonte, a melhor forma de conhecer uma moça era frequentar os bailes do bairro, e era isso que eu fazia. Eu me arrumava da melhor forma que podia, ia periodicamente para os bailes e observava as pessoas, mas sempre me faltava coragem para me aproximar de uma moça e convidá-la para dançar. Sem essa coragem, minhas chances eram mínimas e eu ficava ali, no canto, torcendo para que alguma delas, alta ou baixa, bonita ou feia, se aproximasse de mim e me convidasse para dançar. Mas isso nunca aconteceu. Nenhuma vez. Never ever! Talvez, por isso, hoje tenho uma imensa satisfação quando alguém me convida para dançar.
                Não, eu não virei dançarino. Estou falando metaforicamente. Considero como convite para dançar toda vez que uma pessoa discorda de mim. É minha oportunidade de interagir, expressar minhas ideias, falar de minhas emoções, de certezas e incertezas, de movimentos cadenciados e estéticos, de arte e técnica. Quando alguém discorda de mim, não me aborreço, nem me ofendo. Não me descabelo. Os olhos brilham, o sorriso se estampa no rosto, e começo os meus movimentos, ensaiados e precisos ou espontâneos e instintivos. Às vezes, me esqueço do tempo e do espaço. O foco de minha atenção recai inapelavelmente na escolha das palavras e no prazer de ser diferente, pensar com meus próprios neurônios e assinar, com letras garrafais, o meu próprio nome.
                Assusto-me, ocasionalmente, quando percebo que os outros se sentem atropelados. Detesto ver suas fisionomias carregadas, os lábios apertados e a fronte sisuda e pouco amigável. É como se marcassem o passo com um pé esquerdo cafifento e intrometido que insiste em me pisar um dos pés, na falta do cruzado de direita que poria fim a minha alegria e tagarelice. Dizem que também o boxe é uma dança. Mas não sou pugilista. A minha agilidade se resume ao compasso da fala. Não são estocadas, nem golpes as palavras que uso, mas rodopio e coreografia. Sua intenção é o sensível e o razoável. Seu desígnio e finalidade é o plausível, o imaginável, o presumível!
                Se você me convida para dançar, presumo que goste, que queira, que lhe apeteça. Vou logo lhe tomando a mão, os braços, a cintura, no balé das palavras, no ritmo de nossa sintonia. Por um momento, nos tornamos namorados nos argumentos, amantes nas ideias, afeiçoados no pensamento. E me enlevo tanto, que sou capaz de só lhe soltar a mão, os braços e a cintura, quando estivermos extenuados de mil rodopios e contradanças. A menos... a menos que, como me fez a primeira moça que convidei para dançar uma quadrilha, a razão de meu trauma adolescente, você fique vermelho de pudor e, com um muxoxo, se despeça com um tapa, bem dado, no meu rosto encabulado.






Saturday, April 29, 2017

Muffins de graça


Milton L. Torres

                Quando eu era estudante em Austin, no Texas, meu colega Hélvio Peixoto teve uma ideia genial. Ele foi a uma das padarias da cidade e solicitou que os pães não vendidos durante a semana fossem doados para os alunos estrangeiros da universidade. O apelo conseguiu convencer os administradores da padaria, que produzia uma espécie artesanal de pão e outras coisas que as padarias vendem. Toda sexta-feira, portanto, um aluno passava na padaria e recolhia um saco de guloseimas. Quem tinha essa responsabilidade, escolhia primeiro. Depois, levávamos tudo para a casa de alguém e, ali, repartíamos o butim. É difícil dizer o que era mais prazeroso, se comer os pães gratuitos ou a expectativa de que petisco excepcional iria cair na minha vez de escolher.
                O que mais me atraía era o pão italiano e os muffins de cobertura criativa e sabores sortidos. Mas eu me contentava com qualquer coisa que me coubesse. Eram tempos ingênuos em que as maiores preocupações eram tirar uma boa nota na prova de grego ou levar as crianças para receber as vacinas. Eram tempos parcimoniosos nos quais tínhamos que nos esforçar para viver dentro do orçamento de um casal com filhos pequenos em que os dois cônjuges estudavam. Mesmo assim, tínhamos a bem-aventurança dessa aventura infantil, quase sobrenatural, em que nos reuníamos felizes e nos sentíamos o objeto da mais elevada consideração do Pai.
                Quem dera se, agora, eu só tivesse que me preocupar com provas e vacinas! Quem dera se eu ainda pudesse esperar um muffin grátis toda sexta-feira! Quem dera se eu pudesse contar com amizades tão sinceras e sentimentos tão casuais e despretensiosos! Quem dera se eu tivesse ainda o coração tão inocente e inexperiente em perfídias. Quem dera eu tivesse o mesmo contentamento! Quem dera!
                Talvez você se lamente, hoje, das circunstâncias difíceis, do orçamentos modesto, da vida frugal. Não o censuro. Por outro lado, eu lhe peço que não deixe que os dissabores e decepções da vida o impeçam de apreciar o sabor do muffin gratuito quando ganhar um...





Alma boa


Milton L. Torres

                Você já se deparou com uma “alma boa”? Eu descobri que essas pessoas extraordinárias existem quando ouvi uma declaração, espécie de desabafo, do Bob Marley, que eu entendi da seguinte forma: só uma vez na vida, você encontra uma pessoa capaz de, inocentemente, virar o seu mundo de ponta a cabeça. Você conta para essa pessoa coisas que não contaria para outras pessoas e ela absorve tudo e ainda quer ouvir mais. Você lhe fala do futuro, de sonhos que nunca vão se realizar, de alvos que nunca vai alcançar, das decepções que já sofreu na vida e essa pessoa nunca fica com vergonha de chorar com você ou dar gargalhadas com você, mesmo quando você está agindo como um perfeito idiota. Uma alma boa nunca fere seus sentimentos, nem lhe dá a impressão de que você não vale nada. Em vez disso, ela mostra para você o que você tem de único e especial. Você quase acredita que é mesmo lindo... Uma alma boa nunca coloca pressão, nem demonstra inveja, nem qualquer tipo de competição, mas apenas uma espécie de calma que distribui aos lugares que vai. Você pode ser você mesmo, sem se preocupar com o que essa pessoa vai pensar, pois uma alma boa ama você do jeito que você é. E coisas aparentemente insignificantes para outras pessoas, como um abraço, uma caminhada, uma comidinha que vocês repartem, se tornam lembranças que nada consegue apagar. As memórias da infância voltam tão claras e vívidas, que é como se você fosse jovem de novo. Coisas que não o interessavam antes se tornam importantes porque você sabe que essa alma boa se importa com elas. E você não consegue evitar de se lembrar dessa pessoa quando vê um céu límpido e azul ou sopra uma brisa fresca. Você lhe abre o coração, pois sabe que não há a menor chance de o seu velho coração, cheio das marcas do tempo, ser quebrado por essa pessoa. Você fica vulnerável, mas isso só lhe traz carinho e gozo. Você se fortalece, pois percebe que pode contar com essa alma boa, que vai estar com você até o fim, quando ele vier. Por essa razão, a vida parece diferente, mais alegre e segura. Para isso, basta saber que essa alma boa vai sempre fazer parte de sua vida!
                Eu concordo com o Bob Marley que as almas boas são raras. Entretanto, não acho que esse encontro só ocorra uma vez na existência. Tenho encontrado algumas delas ao longo da minha vida. E eu sei quando encontro uma, pois toda vez que isso acontece, isso me dá uma sensação de bem-estar. Há certa paz e serenidade que me revelam a sua presença... No meu caso, esse encontro veio muito cedo na minha vida, antes dos dias rebeldes da juventude, antes dos dias de trabalho duro e excessivo da maturidade, antes dos dias vagarosos e sonolentos da velhice. Minha irmã Mônica foi a primeira alma boa que eu encontrei. Eu tive sorte: a presença de uma alma boa na minha vida, próxima e constante, desde os dias tenros da minha infância. Tudo o que posso desejar para as outras pessoas, hoje, é que todas elas também sejam abençoadas com a presença de almas boas em sua vida, tão próximas e constantes, como o sorriso simples e meigo, sem fingimentos, de uma irmã, pois todos merecemos, senão, carecemos, de uma alma boa em nossa vida!





As vantagens do carro popular


Milton L. Torres


                Até o carro que dirigimos e a roupa que usamos podem aproximar ou afastar as pessoas. Essas duas coisas são o que costumamos chamar de indicadores de status. Em geral, quanto maior o status, mais afastados e remotos os indivíduos se tornam, isto é, difíceis de alcançar. Eu dirigi carros populares toda a minha vida adulta e cheguei à conclusão de que sempre fiz a melhor escolha. Há muitas vantagens sociais nos carro populares. Em geral, são mais econômicos e de fácil manutenção. Além dessas vantagens práticas, os carros populares sempre me ajudaram em outros importantes aspectos da vida. Como não têm muita potência, eles me ajudam a não exceder os limites de velocidade e não me dão tanta impressão de segurança, que eu esteja disposto a entrar em disputa com os outros veículos na pista. De fato, eu me considero um motorista bastante comedido e jamais competi com quem quer que seja ao volante. Saio do caminho de quem está com pressa e não fico melindrado quando alguém faz uma manobra inesperada ou arriscada. Em vez disso, simplesmente dirijo defensivamente e deixo cada um cuidar de sua vida, sem buzina, impropérios ou gestos intempestivos.
                Outra vantagem dos carros populares é que ninguém os trata como divas ou ídolos a quem tenhamos que prestar reverência. Qualquer um pode entrar no meu carro, independente de ter os pés limpos ou não. Qualquer um pode lhe bater a porta. Qualquer um pode comer em seu interior. Meu cachorro anda nele e, se eu tivesse gato, ele também seria bem-vindo. Minha mulher o dirige e também os meus filhos. Quando aparece um arranhão na lataria, só percebemos isso a custo e nem sabemos dizer de quem é a culpa. E, a menos que o dano seja considerável, isso simplesmente não importa... Portanto, posso dizer que meu carro contribui para que eu tenha uma vida menos estressada e, sendo assim, posso me relacionar melhor com as pessoas. Não me entenda mal. Não estou insinuando que, só porque alguém tenha outro tipo de carro, essa pessoa não possa ser desprendida em relação aos bens materiais. No entanto, parece-me que é mais difícil sê-lo quando se investe muito em determinado bem.
                O que eu mais gosto no meu carro popular é que ele diz para as pessoas que eu sou exatamente como elas e que não me considero melhor do que ninguém. Repito: não estou criticando aqueles que têm carro de luxo. Só estou dizendo que eles podem dar a falsa impressão de que um ser humano é melhor do que o outro. Acreditar nisso seria uma grande tolice... Numa época em que as pessoas ficaram tão carentes de atenção, é melhor ser abraçado por quem se considera igual a nós do que ser gratificado pela impressão solitária de que somos superiores aos outros em alguma coisa. Portanto, o meu carro popular me ajuda até com minha autoestima. Sou importante não porque sou melhor, mas porque sou igual aos outros, humano, e todo ser humano é importante!
                Da minha parte, andaria de bicicleta ou de ônibus, se fosse necessário, com a mesma felicidade, desde que eu tivesse um mínimo de convicção de que ninguém está me explorando. Na minha república platônica, ciceroniana, ideal, todos os que pudéssemos, andaríamos a pé, sem pedágios e políticos. Está vendo? Até nisso o meu carro popular me ajuda: a ter utopias...



Friday, April 14, 2017

Os Verdadeiros Ovos de Páscoa: A Páscoa Não Acaba Nunca


por Milton L. Torres

            A história humana está cheia de heróis anônimos e epônimos que optaram por entregar a própria vida a renegar uma causa, trair os próprios princípios ou tolerar a opressão dos inocentes. Entre os mais famosos, estão pessoas como Sócrates, executado, em Atenas, por aqueles que desejavam se beneficiar do obscurantismo e da ignorância; Mário Graco, executado pelo senado romano por causa de seus ideais democráticos e igualitários; Tiradentes, executado pela metrópole portuguesa por causa de sua defesa da liberdade; Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazistas, na Alemanha, depois de falhar seu plano de eliminar Hitler; Antônio Gramschi, executado pelo regime fascista na Itália; Martin Luther King, assassinado pelos opositores da igualdade racial nos Estados Unidos; e Nelson Mandela, longamente aprisionado por causa de sua militância contra o Apartheid na África do Sul. Esses heróis vêm de todas as partes e lutaram pelas razões mais diversas. Em comum, têm, senão a morte inglória e cheia de sofrimento, pelo menos o ideal de resistência e corajosa defesa de princípios dos quais não podiam abrir mão...
            Nenhum deles é, porém, o que poderíamos chamar de herói pascoal. Eles lutaram na esperança de triunfar e subverter o status quo. Lutaram porque tinham a esperança de vencer e sair incólumes do preço que a derrota os faria pagar. Por favor, não entendam mal. Eles sabiam que podiam perder. Sabiam que, em caso de derrota, enfrentariam algum tipo ignominioso de morte. Mas havia a fresta de esperança que os fazia vislumbrar o triunfo de seus ideais e o reconhecimento de seus esforços. Pode ser que, ao se deparar com a cicuta, Sócrates tenha se dado conta de que voluntariamente abraçava um caminho de morte e extinção, mas não antes. Até aí, acreditava na absolvição. Por isso, não guardou silêncio no tribunal e se defendeu como pôde. Até Mahatma Ghandi tinha estreitas gretas pelas quais entrevia o sucesso de sua filosofia de resistência pacífica. Ele sonhava com isso. Era isso que o alimentava e impelia...
            Jesus foi o único herói pascoal da história de nosso mundo. Convencido, como estava, de que não tinha a menor chance de escapar dos abusos, da tortura e da morte, ainda assim não hesitou em enfrentar a violência de seus algozes e superar o abandono covarde dos amigos. Ninguém o defendia e Ele tampouco se defendeu. Era uma ovelha muda, pronta para o abate. Seu nível de sujeição às forças cruéis que o intimidavam e torturavam não teve, nem tem precedentes. Continua como exemplo único e inigualável do poder do amor, pois só o amor o movia. Jesus não morreu porque tinha que morrer. Ele morreu porque queria morrer. Não queria, porém, morrer como morrem os suicidas. Não morreu para abandonar a vida ou estancar o sofrimento. Não abraçou a morte porque desistiu de lutar, mas abdicou da luta por algo infinitamente maior: a franquia do perdão.
            Nós fizemos de tudo com Jesus, desde a cusparada nojenta e cheia de desprezo e escárnio, até a exposição vergonhosa de sua nudez, e mais, muito mais, as pancadas, os espinhos, os pregos, a lancetada que lhe atravessou o pulmão, o vinagre que o emudeceu... Só não lhe quebramos os ossos. Isto é, não literalmente. Fomos nós que fizemos essas coisas, e continuamos a fazê-las, toda vez que praguejamos contra Deus ou esfolamos o nosso semelhante (amigo ou inimigo, próximo ou distante, da nossa intimidade ou gente que nem conhecemos), nas guerras combatidas com armas no campo de batalha ou nas guerras travadas com os penetrantes punhais de palavras desproporcionais e indiferentes, no conforto do lar, nos saguões das igrejas, nas vias públicas ou na ambiciosa empreitada de galgar a escada social. E o que ele, Jesus, nos fez e faz? Com o herói pascoal, não se trata de desforra ou desagravo, mas de chances: oportunidades de recomeçar, a cada páscoa, a cada dia. Estamos na páscoa. Este é o território do herói pascoal. É sua dimensão e reino. Sua causa e sua vida. Por que não abraçamos, juntos, a oportunidade que ele nos oferece? Vamos tornar esta páscoa em algo mais do que a troca sem graça de ovos coloridos e de sabor docemente narcótico. Não são ovos de páscoa que Jesus nos convida a distribuir. Vamos aceitar o exemplo de perdão e entrega de nosso herói pascoal, e submeter-nos mais a sua vontade, entregando-lhe o coração. E entregar o coração a Jesus é entregá-lo a todos aqueles por quem ele morreu... Os verdadeiros ovos de páscoa são as ações de gentileza e abnegação que Jesus deseja que pratiquemos durante a páscoa, e a páscoa nunca vai acabar, enquanto Jesus sofrer por nós... e nós, por ele!




Sunday, April 02, 2017

Rosto desfigurado

por Milton L. Torres

          Talvez você ache estranha a grande quantidade de relatos da violência praticada no contexto do flerte não correspondido, que nos chega dos antigos gregos. A própria obra máxima daquela literatura, a Ilíada, tem como premissa o rapto da belíssima Helena, uma ação tão brutal que gerou a guerra de Troia, combate de dez longos anos entre gregos e troianos, que Eratóstenes situa entre 1194 e 1184 a.C. Aliás, os antigos gregos contam que Helena foi raptada duas vezes: uma por Páris e outra por Teseu. E os relatos gregos não param nela, sendo igualmente famosos, entre tantos outros, os raptos de Ariadne, Antíope e Hipólita (por Teseu) e Medeia (por Jasão). Sem contar os casos em que a moça era levada como espólio de guerra ou para consumar um amor consensual proibido pela família, esses casos nos assustam pelo estatuto heroico dos raptores, alguns dos quais, como Teseu, por exemplo, parecem não viver para outra coisa, senão raptar mulheres indefesas.
          Um caso que merece menção especial nos é relatado por Partênio de Niceia, o tutor do grande poeta Virgílio, que, na época de Cristo, escreveu uma obra poética intitulada Erotiká pathêmata (“sofrimentos de amor”), na qual narra diversos episódios de amor não correspondido. Trata-se da história de Apríate, supostamente a primeira mulher a reagir a uma tentativa de rapto. Apríate vivia na ilha de Lesbos, onde acabou atraindo a atenção de um rapaz fogoso chamado Trambelo. Diante das constantes recusas da moça, o rapaz decidiu raptá-la e estuprá-la. Apríate reagiu com valentia e acabou assassinada pelo rapaz, que lhe jogou o corpo ao mar. Obviamente, o poeta errou ao incluir essa história em seu catálogo. Afinal, quem ama não destrói o objeto de seu amor. De qualquer forma, o crime lhe custou a vida nas mãos de Aquiles, o herói da guerra de Troia. Se a narrativa tem algum cerne de verdade, a história nos remete à tentativa de estupro ocorrida 1200 anos antes de Cristo. Em geral, rapto e estupro eram vistos como ações de hybris, invariavelmente punidas, senão pelos cidadãos, pelo menos por divindades vingativas e pelo destino.
          No livro apócrifo conhecido como Atos de Pedro, em um trecho preservado apenas em cóptico, a multidão recrimina o apóstolo por ter curado inúmeras pessoas, mas ter negligenciado a própria filha, cujo lado direito do corpo sofria de uma paralisia aparentemente incurável, que lhe desfigurava o rosto. O apóstolo ora, então, a Deus, e este restaura a menina à condição anterior de beleza. Logo em seguida, o apóstolo faz outra prece e a moça torna a ficar com a face paralisada. Ele, então, explica aos boquiabertos espectadores, que pedira a Deus que desfigurasse a filha, depois de esta ter sido raptada por um cidadão rico chamado Ptolomeu. Sua intenção era de preservá-la de novos avanços. No final da narrativa, o ricaço se arrepende e, antes de morrer, deixa, em testamento, seus bens para a moça, que os repassa à igreja. Em outro livro apócrifo, a epístola de Tito, que pode ter preservado mais um trecho dos Atos de Pedro, conta-se que um jardineiro pediu a Pedro que lhe abençoasse a filha. O apóstolo orou pela menina, mas ela logo morreu. Inconformado, o jardineiro pediu que o apóstolo orasse de novo. Depois da segunda oração, a menina voltou a viver. No dia seguinte, porém, foi estuprada por um escravo.
          As antigas histórias de rapto e estupro se multiplicam, e parece que os velhos métodos de coibição nunca surtiram efeito, pois continuam a acontecer atualmente, talvez até em maior proporção. Em 2015, foram cinco estupros por hora no Brasil, um deles no estado de São Paulo. É impressionante que os antigos gregos fossem tão adiantados em filosofia, educação, música, medicina, ciência e política, mas não tenham conseguido impedir que homens tão inteligentes se comportassem como animais. Mais perto de nossos dias, o filósofo Nietzsche lamentou, em Assim falou Zaratustra, que um ente tão sublime quanto o ser humano continue a ser feio e se pareça com um animal selvagem... Certamente falava só dos homens. Eu também. É inadmissível que o descontrole de alguns homens continue a obrigar as moças a viverem vidas desfiguradas na esperança de deter o próximo ataque. Falo também às autoridades. É inadmissível que continuemos a ser tão coniventes com aqueles que praticam esse tipo de violência ou qualquer outro. A esse respeito, precisamos adotar uma política de tolerância zero.






Wednesday, March 22, 2017

A poesia da vida

por Milton L. Torres

Pare e pense! Não vale a pena se preocupar demais em entender a vida. Não vale a pena quebrar a cabeça para compreender todos os seus intrincados mistérios. Carlos Drummond de Andrade diz que, em vez disso, se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida. Isso significa que temos que nos contentar com uma dessas possibilidades: ou desvendamos mistérios ou sentimos a poesia. Satisfazemos a curiosidade ou a sensibilidade. Vivemos em função do cérebro ou do coração.
Isso não significa que os mistérios não nos possam intrigar, só que não precisam nos deter, nem nos imobilizar. Diante deles, o queixo cai, mas os olhos precisam imediatamente contemplar o efeito estético de sua presença. Aí, a gente precisa voltar a viver, voltar a sentir. Um exemplo prático disso acontece quando nos deparamos com a morte, especialmente se ocorre de modo repentino, prematuro ou com uma pessoa por quem temos muita afeição. O mais importante, nessa hora, não é receber explicações, entender a cadeia de causalidades que precipitou a tragédia, mas refletir sobre a beleza da vida de quem se foi. Não se trata tanto de entender o significado dessa vida, mas sua significância. As pessoas tendem a se indagar por que Deus permite essas coisas, mas a pergunta que faz mais sentido é como essa vida que se foi enriqueceu a vida de quem fica. O que precisamos fazer, em meio às lágrimas da despedida, é celebrar a ventura de ter convivido com aquela pessoa.
Mas não é apenas a morte que representa, para nós, um enigma difícil de decifrar. O que dizer do amor não correspondido? Por que o coração, os olhos, o corpo todo nos dispõem para uma alma da qual nos sentimos gêmeos, só para que esta nos inflija rejeição e constrangimento? O que dizer da paternidade? Por que alguns filhos se parecem tanto com os pais, enquanto outros lhes são diametralmente opostos? Quem inventou essa química? Que gênio maldoso se encarregou de rodar essa roleta maluca?
É melhor desistir dessa álgebra improvável. A teoria do caos está criptografada no próprio pulsar da vida. Em vez de quebrar a cabeça e o coração, é preferível quebrar os preconceitos, assumir atitude de apreciador da arte de viver,  aceitar que não há só um jeito de ser feliz, abrir o coração e os olhos para as possibilidades e, finalmente, não se deixar possuir por nenhuma única grande e insubstituível ideia. Em vez de se obcecar pela solução da vida, busque enxergar a poesia da vida…





Saturday, February 18, 2017

O que é viver?

por Milton L. Torres

Pare e pense: o que é viver? Quais são as coisas que faço que me deixam ter a certeza de que estou vivo? Comer? Namorar? Andar de bicicleta? Dançar? Beber? Fumar? Comprar uma dúzia de ovos no supermecado? Será que uma dessas coisas prova mesmo que estou vivo? Será que todas elas juntas provariam isso?
O que é um dia perdido? Um dia em que não comi, não namorei, não bebi, nem fumei? Quais são os ingredientes necessários em 24 horas para que, no final do dia, eu possa dar um soco no ar e dizer: - Hoje eu vivi!?
Ou será que a vida é definida pelos negativos? Eu estou vivo porque não tenho doenças, não estou sofrendo, não estou na cadeia, não quebrei a perna, não estou de luto, não arranquei um dente e, por todas essas razões, eu posso me esbaldar na vida...
Ou, aliás, será que a vida é definida pelos picos de êxtase? Será que eu preciso de uma tonelada de adrenalina para que tenha a impressão de ter vivido bem o meu dia? Montanha russa, arranha-céu, a rasante no helicóptero, a escalada do Evereste, a disputa de pênaltis, shoplifting, a curva a 120 km por hora...
Quantos dias você já perdeu na vida? Se é que já perdeu algum! Uma vez mesário nas eleições? Duas ou três tentativas na prova do ENEM? Um dia inteiro tentando marcar uma consulta? Uma semana inteira de cama? Três meses com a perna engessada? Uma vez por ano fazendo a declaração do imposto de renda? Uma hora por dia preso no engarrafamento? Oito horas por dia dormindo... Você está mesmo vivo nessas horas?
Será que a gente precisa viver cada dia diferente? Será que conta como vida viver o mesmo dia várias vezes? Do mesmo jeito, nas mesmas condições, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, respirando o mesmo ar, vendo o mesmo céu, fazendo as mesmas coisas? E aí? A minha vida é o que eu faço ou deixo de fazer? A minha vida são as pessoas com quem eu COM-VIVO? A minha vida é o que me dá prazer? A minha vida é o que me dá sentido? Talvez sua resposta seja diferente da minha. Afinal de contas, não somos a mesma pessoa, nem temos a mesma vida. Não sei como você computa seu grau de satisfação com sua vida, com os dias que você está vivendo. Qual é a sua unidade de contagem? O número de banhos que você toma por dia? A quantidade de dinheiro que gasta ou ganha? O número de refeições? Quantas vezes você faz sexo? Quanta gente nova você conhece? Quantas ordens você dá? Quantos olhares de inveja você recebe? Tudo isso? Nada disso? Eu só fico aqui imaginando...
Eu não sou de Marte. Eu sei o que é respirar com prazer o ar que me mantém vivo. É isso! As coisas simples é que conto no meu cômputo de satisfação com os meus dias, com a minha vida. O arroz dormido que tiro da geladeira e esquento. O suor da caminhada banal até o trabalho. O copo d’água frio e refrescante. Uma ou duas pessoas que me olham todo dia como se eu fosse a pessoa mais importante deste planeta. O esconderijo no qual me refugio para ficar a sós e apreciar, devidamente, qualquer pequena surpresa que me faça o coração saltar. E como salta o meu coração!