Wednesday, April 11, 2018

Dez Coisas Favoritas (Para Minha Amiga Samilly)



por Milton L. Torres

De vez em quando converso pelo whatsapp com uma incrível moça de Minas Gerais chamada Samilly. Ela é inteligente, sensível e tem um papo muito cabeça, exceto quando começa a reclamar da vida. Nesses momentos, eu geralmente a interrompo e procuro reacender uma centelha brilhante que, às vezes, fica escondida no coraçãozinho dela. Aí eu começo a falar de coisas boas. Ela fica mal-humorada por alguns minutos, mas, no fundo, no fundo, eu sei que ela concorda comigo e que fica me contrariando só para fazer a conversa render. Ao falar de coisas favoritas, ela nunca consegue mencionar mais do que duas, lamentando-se de que as coisas simplesmente não a empolgam mais. E eu quase que escuto o coração dela batendo, pois sei que dentro dele palpita vida como ela nunca seria capaz de imaginar, essa centelha que certamente renderia um fogo consumidor, até uma grande paixão, expectativas e sonhos além da imaginação.
Eu decidi pensar em dez coisas favoritas capazes de fazer o coração da Samilly ganhar novo ânimo e encher-se de desejo pela vida. Não apresento a lista numa ordem coerente ou gradativa. São só as coisas que me entusiasmam e me fazem querer viver e ser feliz, coisas com as quais gostaria de infectá-la.
Em primeiro lugar, tiramisu, a sobremesa favorita de Jesus: melhor do que sorvete, torta holandesa, ou qualquer coisa que a imaginação colorida dos cozinheiros gourmet consiga conceber. Ou, em vez disso, macarronada cheia de cogumelos e manjericão...
Em segundo lugar, disputa de pênaltis, quando a bola na marca da cal decide se a gente fica ou vai embora, se comemora o campeonato ou se recolhe à melancolia profunda dos perdedores.
Em terceiro lugar, uma criança no colo, ensinando os recomeços da vida, os braços estendidos com sinceridade, os incansáveis beijos repletos da admiração evocativa daqueles que são puro sonho e fantasia. Ou, nesse mesmo colo, um cachorrinho, em vez disso, com afagos e carinho, o ser humano mais completo que já conheci...
Em quarto lugar, um filme de ficção científica em que a raça humana se salva por um triz na guerra dos mundos, a tela bruxuleante e hipnótica da qual não se pode desviar o olhar por um segundo sequer.
Em quinto lugar, um livro: de Lucrécio, Guimarães Rosa, Nietzsche ou Homero. Algo épico, grandioso, cujas páginas se enchem de emoções e conflitos, tudo resolvido sob o beneplácito dos imortais, sejam eles divinos ou humanos.
Em sexto lugar, um passeio de carro num dia ensolarado em que, nenhuma preocupação nos acompanha, a não ser a estrada, quando o vento nos despenteia o cabelo pela janela aberta e nem nos incomodamos com isso.
Em sétimo lugar, o beijo no pescoço, com os calafrios que o acompanham, prenúncios de prazeres maiores e irrevogáveis, o cheio adocicado do perfume, os frêmitos, o gozo já antecipado.
Em oitavo lugar, o apelo do sermão, quando, vulnerável e atento, o coração aspira a novos horizontes, uma sobrevida eterna, a companhia dos anjos, enquanto o coral canta de ondas e mar, a travessia para o outro lado.
Em nono lugar, o vislumbre da janela do avião, quando o destino é um paraíso tropical, Punta Cana ou Cancun, e você imagina como é possível que voe numa máquina mais pesada do que o ar, porém se lembra, então, de que a vida tem suas dores, mas é também cheia de prazeres...
Em décimo lugar, uma canção dos Beatles, com a ingenuidade lírica dos que só querem e buscam o bem, a paz que se imagina, um céu de diamantes, o submarino amarelo, segurar a mão, enquanto a guitarra quase que adormece gentilmente sob o sentimento do coro, mesmo que você tenha ou se sinta com 64 anos de idade.
Não sei se a Samilly já experimentou tudo isso ou a metade disso ou duas dessas coisas ou pelo menos uma delas, umazinha só. Quando eu a leio, ou vejo, ou ouço, eu só posso desejar que ela o faça. Se ela o fizer, essa cabecinha, às vezes tonta e cheia de devaneios, e esse coraçãozinho, às vezes apertado e triste, vão lhe abrir os olhos para que leia, veja e ouça como eu a leio, vejo e ouço: uma moça cheia de vida que tem tudo para ser feliz e com quem eu, alegremente, trocaria de lugar quando, onde e por tanto tempo quanto ela quisesse, para ser Samilly, jovem, linda, cabeça de vento, coração de palha, para me contrariar e contradizer, para experimentar, de novo, como se pela primeira vez, cada uma das dez coisas favoritas.




Tuesday, February 13, 2018

Confissão


por Milton L. Torres

Nunca pensei que um dia eu me apaixonaria por um homem. Para falar a verdade, acho que era mais fácil eu me apaixonar por um cachorro, um time de futebol inteiro, uma aliá, a baiana do acarajé ou um bicho preguiça. Mas, exceto pelo cachorro, isso não ocorreu. Estou mesmo é apaixonado por um homem. Às vezes, sem qualquer motivo aparente, começo a pensar nesse rapaz alto, esbelto, de cabelos encaracolados e músculos perfeitos. Imagino se está feliz, se sua saúde vai bem, se seus sonhos estão se realizando, se está sorrindo ou chorando. Quando faz frio ou chove, temo por seu conforto. Se está escuro, sofro por sua segurança. Se é um dia de sol brilhante e temperatura agradável, fico pensando se está usando o famigerado protetor solar. Quando estou comendo, imagino se está com fome. Quando estou rodeado de pessoas que me abraçam e me fazem feliz, vislumbro se está sozinho, se recebeu pelo menos um abraço o dia todo, se alguém lhe disse o quanto é especial e como o meu coração bate forte quando penso nele. Até o gosto da comida que como ou a graça do filme a que assisto dependem de estar absolutamente garantido que esse objeto da minha afeição também se farta, também se diverte, também se emociona, também se condói e quer ser feliz como eu sou feliz quando penso nele, ou o vejo, ou o imagino, ou o sinto ao meu lado. Nunca pensei que outra figura, um tanto parecida com o que eu já fui ou sou, pudesse ter esse poder de mobilizar os meus sentimentos e me fazer esquecer de mim mesmo, todo concentrado que fico e dedicado ao propósito de vê-lo triunfante, feliz, realizado. Ainda mais hoje, ainda mais nestas 24 horas do dia 7 de fevereiro, em que eu sei que ele comemora mais um ano de vida e eu comemoro a luz, a respiração, o sentido. Não faz muito tempo que estamos juntos. Não na minha perspectiva. O que são vinte e poucos anos? Uma ninharia. O tempo de dois cãezinhos e uma úlcera no estômago. O que são vinte e poucos anos diante da enormidade do sentimento, do peso dessa afeição inquebrantável e irresistível? Já me falaram que alguns homens se dispõem a morrer por outros. A cada ano, a cada aniversário, o meu ceticismo diminui. Não sei se eu facilmente tomaria a decisão de morrer por ele, mas esse pensamento já me passou pela cabeça, o que é muito mais do que qualquer outro homem já mereceu de mim, tão forte é essa convicção de que estamos atados num laço inextricável de bem-querer. Confesso que minha vida seria agora um tanto vazia, oca de sentido, se não fosse pela presença dele ao meu lado. Confesso que nunca amei a nenhum outro homem como eu o amo. Confesso. Confesso que o meu filho representa mais para mim do que qualquer pai poderia querer que o filho lhe representasse, quer faça chuva ou sol, quer tenhamos saúde ou doença, quer a gente viva ou morra, quer a gente ame ou seja o objeto de ódios injustificáveis e mesquinhos. A nada disso eu temo. De nada disso eu fujo. Se a felicidade da vida reside em um único e ardente desejo. O que eu desejo hoje é um feliz aniversário para o meu filho querido!




Saturday, January 06, 2018

Natal de anjos


por Milton L. Torres

                E se um anjo lhe aparecesse e dissesse: - Eu não gosto do natal! O que você faria? O que você perguntaria se tivesse a chance de se aproximar desse ser celestial e lhe indagar as razões de seu desencanto e decepção com o natal? O que você acha que o anjo que não gosta do natal lhe diria? Eu posso imaginar o anjo fazendo cara séria, olhando-o firmemente nos olhos e, com certo ar de reprovação, devolvendo-lhe a pergunta: - Por que eu deveria gostar do natal?
                Essa não seria a hora perfeita para você desembrulhar suas respostas enlatadas e mencionar que o natal é o aniversário do nascimento de Cristo, que o espírito de natal enche os corações de esperança e alegria, que a época natalina é a mais feliz do ano. Anjos são criaturas muito inteligentes e, provavelmente, o nosso anjo já conhece esses jargões, já ouviu muitas vezes essas frases serem ditas da boca para fora, sem nenhum conteúdo emocional ou espiritual. Além disso, em seu íntimo, você sabe que não é por isso que nosso anjo não gosta do natal.
                É melhor revolver o coração e tentar tirar de lá uma resposta mais sincera e articulada! Vamos, você consegue! Por que os anjos deveriam gostar do natal quando nós, seres humanos, o comemoramos da forma mais egoísta e disparatada que podemos conceber. Por que os anjos deveriam gostar do natal quando, nessa época, nossas preocupações mundanas se voltam para a glutonaria, a bebedeira, o consumo, a ostentação e, acima de tudo, a indiferença?
                Como podem os anjos gostar do natal quando, em meio a tanta carência e necessidade de nossos semelhantes, gastamos tanto com nossos próprios desejos fúteis e fantasias pervertidas? Quando, em meio a tanta fome, nós comemos e bebemos não como se fosse natal, mas como se estivéssemos às vésperas do dilúvio ou da destruição de Sodoma e Gomorra? Quando, diante de tanto sofrimento, nós nos esquivamos do dever para prosseguir no nosso caminho de levitas e nem damos ouvidos a esses apelos insistentes de nosso coração de samaritanos?
                Apesar disso tudo, você pode dizer ao anjo que releve! Você pode dizer a ele que siga o exemplo do Pai amado que, no caso de Abraão, estava disposto a poupar uma cidade inteira por amor a uma meia dúzia de almas fiéis e puras. Você pode apontar para as crianças e dizer ao anjo que elas, sim, vivem o verdadeiro espírito do natal porque se desprendem das amarras dos egoísmos diários para desejar só o bem àqueles que com elas compartilham a vida. Você pode dizer como nos compadecemos delas e, por sua causa, nos dispomos aos mais inacreditáveis sacrifícios só para vê-las sorrir alegres. Você pode apontar para estas pessoas que nos ouvem agora, estas pessoas que estão aqui, neste lugar, nesta hora, dizendo ao anjo, que, doravante, nós nos empenharemos, de todas as formas possíveis e imagináveis, para que os anjos gostem do natal. Pode dizer ao anjo que nós buscaremos, neste natal, a felicidade do próximo mais do que a nossa própria alegria e que, ao fazer isso, daremos início a uma corrente do bem, que há de contagiar a todos os outros seres humanos deste planeta para que, juntos, transformemos o natal naquilo que, de fato, deveria ser: um natal de anjos!



Sunday, December 17, 2017

Discurso de Formatura para a Turma de Tradutores & Intérpretes de 2017

por Milton L. Torres

         Ser professor é a tarefa mais difícil do mundo, pois nenhum outro emprego exige que nos afeiçoemos às pessoas para, três, quatro ou cinco anos depois, termos essas mesmas pessoas separadas de nós de forma abrupta e, quase sempre, definitiva. Há casos, como o dos enfermeiros, em que genuína afeição acontece, mas por pouco tempo. Não se criam laços, imagino, e as raízes dessa afeição podem ser ternamente arrancadas do terreno fofo em que estiveram plantadas por um intervalo minúsculo de tempo. Com os professores é diferente. Os laços se estreitam, se apertam, se misturam, se entretecem de maneira tão definitiva que é só com sangue que se desfazem, com lágrimas!
         Turma de tradutores e intérpretes de 2017, não quero incomodá-los com os sentimentos de saudade que vocês tão despretensiosamente nos impõem hoje. Afinal de contas, a ocasião exige um espírito mais alegre, um vislumbre mais venturoso do futuro e da vida!  Não estamos aqui para lamentar essa cúmplice proximidade que, sob Deus, nos uniu para sempre, mesmo à distância de milhares de anos-luz, mesmo sob os escombros debaixo dos quais enterramos hoje esses sentimentos de falta e perda! Pelo contrário, estamos aqui para celebrá-los. Estamos aqui para celebrar que não serão mais forçados a fazer nenhuma interpretação sob o crivo de um professor dedicado, mas exigente. Estamos aqui para celebrar sua vitória na impecável, ou quase impecável, apresentação do TCC. Estamos aqui para celebrar o fim de projetos integradores e provas interdisciplinares que portam o exótico nome de uma velha tia rabugenta! Estamos aqui para celebrar que não precisarão entregar nem mais uma linha para a Ana Schäffer, nem mais um memorial para a Tania Torres. Estamos aqui para celebrar que não terão que cantar nem mais uma música para o Édley, não terão que representar nem mais uma peça de literatura brasileira, portuguesa, inglesa, norte-americana ou grega! Não terão!
         O que vocês terão que fazer, doravante, será muito mais complexo e desafiador. Vocês se emaranham hoje nesta impenetrável, inquebrantável, inesquecível teia de sentimentos e sonhos. Resta-lhes, a partir de hoje, um único professor: a vida! Resta-lhes, a partir de agora, uma única prova: o caráter! Resta-lhes, a partir de agora, um único olhar em direções comensuráveis: para frente, para o alto, para dentro, para o amanhã. Não há como prever quantos viverão, quantos sobreviverão, quantos serão, de novo, amados e quantos amarão. Só posso, ao invés de lhes dar essas garantias, convidá-los a olhar para trás toda vez que forem tentados a ceder à dúvida. Lembrem-se do orgulho com que cada professor os observa hoje. Lembrem-se do meu tom de voz. Lembrem-se! Porque, ainda que se passe uma eternidade até o nosso próximo encontro, seus nomes agora têm significado: Marina, Débora, Giovana, Naty, Vítor, Hanna, Karina, Luma, Laíza, Alexandre, Benjamin, Viviane, Thaís, Évelyn e César. Essas palavras deixaram de ser meros hipocorísticos, como diria a Naty, e se transformaram em nomes mágicos, abre-te-sésamos da minha vida.
         Obrigado por vocês existirem. Obrigado por vocês terem trazido riquezas incalculáveis para a vida no aquário. Obrigado por vocês tangerem, hoje, tão profundamente as cordas que embalam o nosso sonho, que é, principalmente, ter-lhes ofertado de volta um pouco do muito que vocês nos concederam com seus sorrisos, olhares, gestos, perdões e, acima de tudo, sua atenção benevolente. Sentimos que, de modo estoico, vocês se esforçaram para ouvir nossas historietas, essas bravatas e lugares-comuns com as quais entupimos seus ouvidos e mentes. Vocês nos fizeram sentir importantes. Isso só demonstra sua nobreza e aptidão para o bem, herança certa e líquida da educação que receberam em casa.
         Vocês vão agora e levam consigo um pedaço grande do nosso coração, provavelmente os 250 gramas que o Mercador de Veneza recomenda. E nós, professores e amigos, ficamos aqui para viver a vida com os 50, 60 gramas de coração que nos restam. Não precisam inventar novas tecnologias, não precisam fazer propaganda enganosa, não precisam descobrir a cura do câncer, não precisam ficar milionários antes dos quarenta anos de idade nem serem os primeiros astronautas a colocar os pés em Marte. Não precisam. Podem até fazer essas coisas. Mas não precisam. Considerem esse volume do nosso coração como um empréstimo, a peso de ouro, cujo pagamento exige apenas uma coisa: que vocês sejam felizes!





Wednesday, November 15, 2017

A reação do professor


por Milton L. Torres

                Se todos os alunos que eu tiver de agora em diante, até a minha aposentadoria, resolverem me odiar e decidirem me fazer todo tipo de pirraça e desfeita em sala de aula, no cômputo geral, eu direi que fui feliz como professor. O afeto que recebi até hoje dos alunos é avassalador e garante que nenhum complexo de inferioridade me persiga. Posso dizer, de boca cheia, que fui tão amado quanto amei!
                Se você já leu alguma linha que eu tenha escrito no passado, sabe duas coisas: que eu sou meio dramático para falar das minhas experiências como professor e que sou absolutamente sensível ao que se passa na sala de aula, especialmente quando isso afeta os meus alunos. Aliás, considero os momentos da aula como os mais sagrados do dia. Nada me dá mais prazer do que ser testemunha do despertar das mentes jovens para as línguas, a literatura, a filosofia e a vida! Afinal de contas, o que são essas coisas senão a mais autêntica manifestação da existência?
                Se você não entende por que eu estou falando dessas coisas agora, eu explico. Ontem alguns alunos se organizaram para me fazer uma demonstração de carinho, que poderia ter sido uma homenagem por eu ter sido seu professor conselheiro deste semestre, ou pelo fato de meu aniversário ter sido há alguns dias, ou uma despedida do coordenador que deixará a função no final do ano. Não foi nada disso. Foi uma espontânea e, para mim, comovente revelação de carinho. E sabe de uma coisa? Fiquei surpreso, mas não espantado! Não se pode esperar senão carinho de quem é carinhoso. Não se pode esperar senão o máximo de quem é o melhor!
                Se você ainda continua perdido e sem qualquer noção quanto às razões por que estou aqui ruminando e saboreando um momento inesquecível, é porque você não estava lá. Não sabe por que se leem os clássicos, não entende por que é importante encontrar alguém para amar, não veste camisa branca de manga comprida, não entende, não sabe “além da matéria”, nunca lhe disseram “da face da terra”, nunca os alunos o chamaram, em latim, de “arquiteto do próprio destino”, nem de “capitão”, nem de “o cara”! E, possivelmente, nunca nenhum aluno tenha tido a coragem de encará-lo de frente e dizer: - Você é o professor chato mais legal que já passou na nossa vida! Nem deve ter ouvido a palavra FAVORITO no contexto da relação professor-aluno. Pois eu, sim! Eu estive lá! Eu vi com os próprios olhos! Eu ouvi com os meus ouvidos! Eu senti com este coração que bate, mas, às vezes, bate desordenado, skipping a beat!

                Se você ainda não consegue me entender... Eu lamento. Se após se, não é possível iniciar outro parágrafo com a conjunção condicional. Paremos de nos referir às hipóteses e sejamos claros: você não entende muito de educação e não sabe o que é ser professor de alunos excepcionais que entendem das palavras, das línguas, dos livros, dos pensamentos e, principalmente, dos corações! Obrigado, Franklim, Taila, André, Julie, Yuri, Adriane, Ana, Jeyce, Jeynifer, Dri, Emiily, Amanda, Camilla, Agatha e Giovana, os melhores alunos que um professor poderia desejar. É por causa de vocês que posso dizer que tenho o melhor emprego do mundo, melhor do que o estrelato na TV, melhor do que a cátedra das ciências, melhor do que o hub do vale do silicone, melhor do que o bisturi do médico e do que a aquarela do pintor, melhor do que o frenesi da bolsa de valores! Sem dor no estômago, sem noites em claro, sem reservas quanto ao futuro, só com boas emoções, muitas emoções...



Monday, November 13, 2017

Crianças que viajam sozinhas

por Milton L. Torres

Em 2002, tomei um voo em Atenas para Frankfurt, onde faria uma conexão para os Estados Unidos. Ao embarcar, notei um casal choroso que se despedia da filha de uns oito anos de idade que ia tomar o mesmo voo para fazer uma conexão rumo ao Brasil. Sem notar a presença deste outro brasileiro à paisana, conversavam, em português, sobre os riscos de uma criança viajar sozinha. A menina tentava tranquilizar os pais, sacudindo afirmativamente a cabeça para cada conselho recebido.
Depois do embarque, notei que a menina se acomodou em um assento pouco à minha frente. Antes, porém, da decolagem, corri até ela e lhe disse, em português, que, se ela tivesse qualquer dificuldade para se comunicar, podia recorrer a mim, porque eu falava português. Para minha surpresa e satisfação, ela me explicou que, além do português, falava outras línguas, inclusive o inglês. Voltei, portanto, ao meu assento, convencido de que, apesar de tão jovem, a menina de cabelos cacheados tinha desenvoltura suficiente para lidar com a situação sem a minha interferência. No entanto, no meio do voo, o avião foi desviado para a Bulgária porque uma pessoa tivera uma complicação cardíaca. Depois que nosso avião foi invadido pela equipe de resgate e o passageiro foi retirado às pressas e em grave condição, a menina pediu à aeromoça para se sentar ao meu lado. Permanecemos juntos até nos separarmos para nossos respectivos voos.
Até hoje eu me perguntava que impulso me havia levado a procurar a garotinha de Atenas para lhe oferecer minha proteção. Até hoje eu pensava que havia sido meu instinto paternal. Afinal de contas, eu tinha uma filha da mesma idade e isso me havia levado a agir como pai. No entanto, estou agora, neste exato momento, noutro voo, entre Caracas e a Cidade do Panamá, e um garotinho de uns nove anos de idade viaja sozinho, sentado entre mim e uma jornalista venezuelana, que não podia lhe ser mais indiferente. Eu, por outro lado, estou aqui cuidando de todos os detalhes possíveis para que ele tenha um voo confortável e seguro. Aí me dei conta de que não podia ser apenas o instinto paternal agindo. Com os filhos crescidos e nenhum neto à vista, chego à conclusão de que é outra a razão para minha preocupação com crianças que viajam sozinhas. É que sou professor!
Dizem que sou um professor do tipo tradicional e, se isso significa que sou igual ou parecido com os professores que tive ao longo de minha carreira acadêmica, então devo concordar: sou tradicionalíssimo. Os professores que encontrei nas escolas públicas de Minas Gerais, as únicas nas quais estudei até chegar à faculdade, eram responsáveis, exigentes, envolvidos, tinham tutano e substância, foram a melhor influência que tive na minha infância e a principal razão por que escolhi a carreira de professor. No entanto, esses professores são impiedosamente criticados pelos pedagogos de hoje como arrogantes, presunçosos e, acima de tudo, controladores. Não conheço outra profissão que tenha sido tão constantemente difamada quanto a do professor. Sendo assim, não é de admirar que quase ninguém ainda nos respeite, nem mesmo os alunos que convivem conosco e testemunham nossos esforços. A sociedade também decidiu crer naqueles que se levantam para denunciar nossas incapacidades.
Para o avanço da medicina, não foi necessário pichar os médicos. Para o avanço da tecnologia, não foi necessário falar mal dos programadores. No entanto, para o “bem” da educação, não se faz outra coisa senão atacar os professores, seus métodos, sua conduta, seus ideais. Até o adjetivo “tradicional”, de significado tão positivo em outras esferas, foi conspurcado por sua associação com a profissão docente. Não é à toa que estamos nos tornando uma classe sem coração e, o que é pior, sem alma.

Podem me criticar e me diminuir, mas é com uma preocupação como a que tenho com as crianças que viajam sozinhas que entro cada dia na sala de aula. Sou responsável por todas elas. Sinto a sua apreensão e inseguranças. Busco a sua felicidade. Na ausência imediata dos pais, eu me ponho in loco parentis. Por isso, se o avião estiver em perigo, não lhes vou perguntar o que devo fazer. Eu é que vou lhes dizer o que devem fazer. Não espero que me salvem nem que me confortem. Eu é que quero salvá-las e, para salvá-las, peço que confiem em mim, pois, no caso da sala de aula, não sou apenas um passageiro qualquer nem tampouco um tripulante distraído. Eu sou o capitão, com a experiência de trinta e tantos anos de voo. Mas como podem confiar se escutam tantas coisas negativas que se dizem hoje do professor? Por isso, peço que parem com o enxovalhamento dos professores. Parem com as pedradas! Nós só queremos proteger as crianças que viajam sozinhas... Só queremos levá-las, em segurança, ao seu destino.



Monday, November 06, 2017

Como sobre-viver ilesos


por Milton L. Torres

                Carl von Clausewitz foi um militar da Prússia que ajudou a negociar o tratado de paz entre a Rússia, a Prússia e a Grã-Bretanha, o que ajudou essas nações a deter Napoleão Bonaparte. Como homem acostumado à linha de frente, von Clausewitz sabia o que era a guerra. Por isso mesmo, declarou de forma enfática: “se queremos que a mente emirja ilesa dessa luta renhida com o invisível, duas qualidades são indispensáveis: um intelecto que, mesmo na hora mais negra e tenebrosa, consiga reter o brilho da luz interior que o leva à verdade; e a coragem para seguir essa luz tênue aonde quer que ela o leve”. Eu acho que o militar superestimou o poder dessa luz interior. Em nenhuma circunstância, conseguiremos passar incólumes pela vida. E nem deveríamos querer isso. As marcas que carregamos dessa luta nos ajudam a medir o grau de nosso enlouquecimento e a magnitude de nossas realizações. A luz não impede a dor; ela, ao contrário, não faz, em certas ocasiões e só em certas ocasiões, nada mais do que ofuscar os olhos alheios de modo que não consigam discernir que trazemos na alma os hematomas de sangrentos golpes.
                O meu amigo Joubert Castro Perez sabe muito bem o que inventar para sobre-viver! Sobre-viver, com hífen. Entenderam? O que eu mais gosto nele é que ele não faz nenhuma pretensão de possuir essa luz tênue e individual de verdade, embora a tenha! Ele não se faz de medida para medir os outros. Ao contrário disso, ele se apresenta a todos os que o conhecem com as marcas de suas loucuras e realizações. Dá para ver em cada ferida, sem tentativas de ocultação, o quanto tudo isso lhe custou. Dá para ver na carne viva! E quando se vive à flor da pele, a gente consegue sentir, depressa e prontamente, a dor do outro. Daí vem essa sensibilidade sutil e aérea que o Joubert leva a tiracolo, sua tentativa não de esconder ou abafar, mas de elevar o corpo magro à altura protegida das ideias e dos ideais.
                Se quisermos passar ilesos pela vida, a única alternativa que nos resta é a solidão. Mas não foi isso que o Joubert quis. Em vez disso, de vez enquanto, ele se recolhe à companhia do caniço e das iscas. Ali recupera o brilho tênue da verdade e assim continua a nos ofuscar com sua sabedoria despojada e simples, com o sorriso luminoso de quem, em sua complacência, já viveu a vida e sabe o segredo, o segredo arcano que ninguém mais conhece, o enigma que ainda nos intriga. Pois não se enganem: o Joubert sabe das coisas! O Joubert sabe tudo!