Monday, December 22, 2014

Formatura do Curso de Tradutor Classe de 2014

A vida é um jogo de basquete...

O basquetebol é o esporte favorito dos meus filhos. Não entendo muito do jogo, mas eles cresceram me falando a respeito dele. E, sabem de uma coisa, acho que esta turma de formandos em tradutor e intérprete se parece com um time de basquete. Por isso, vou parafrasear 2 Tm 4:7 à moda desse esporte: “Arremessei a bola, fiz a cesta, acabei com o jogo. Agora a medalha é minha...” Você acabou de ganhar a final do campeonato, mas só me deram cinco minutos para comentar o jogo. Por isso, eu gostaria de celebrar, com você, não o que nós professores realizamos (que eu acho que foi muito pouco), mas o que você realizou.

BIZETTI: você não tentou ser melhor do que seus colegas, você tentou ser melhor do que você mesma, e conseguiu ser a cestinha de vários de nossos jogos (não de todos, mas de vários)

CRERIANE: as mulheres que querem ser iguais aos homens não têm ambição, pois as mulheres podem ser muito melhores do que os homens, até no basquete – eu a considero a campeã de enterradas

EDUARDO: não deixou que a catimba dos outros se transformasse na ira do time – em vez disso, você cadenciou o jogo

EMILIANA: você deu os melhores dribles, você trouxe alegria para o jogo – tenho orgulho de ter você no meu time

FABRÍCIO: você provou que grandes coisas podem ser feitas quando você faz um monte de coisas pequenas – você foi o campeão do jogo simples, ponto a ponto

FERNANDO: quanto mais a gente trabalha, mais sorte a gente tem: você só perdeu treino p/fazer estágio no Canadá  - além disso, nosso time também tinha que ter um símbolo sexual

GRAZIELI: você é o que eu chamaria de campeã dos tocos; não conseguiu mudar tudo o que encarou, mas teve a coragem de encarar um monte de coisas, exceto, é claro, quando era a Rabêlo que falava

HUDSON: quando a gente voa uma vez, a gente nunca mais tira os olhos do céu – é como se você tivesse entrado durante o jogo e não quisesse mais sair da quadra

JOSIANNE: você sempre levou o coração consigo – campeã em assistências, sem você seus companheiros de time não teriam tido o mesmo desempenho

KERILIN: você agiu como se o mundo conspirasse para fazê-la feliz, dando-nos um gostinho de que o campeonato já estava ganho

KETLIN: fazer o que precisa ser feito, quando precisa ser feito, quer a gente goste ou não – por isso, foi sua (e do Fernando) a braçadeira de capitão

LUIZ FELIPE: você mais do que suou a camisa – campeão da vitalidade, ninguém conseguiu acompanhá-lo na quadra

LUMINITA: uma pessoa pode fazer a diferença (mesmo que não fale muito), desde que, como você, tenha a mão santa

MATHEUS: houve momentos em que eu não sabia para onde você estava indo, mas o time precisava dessa leveza

RABÊLO: o importante, no jogo, não é passar para os companheiros de time a garrafa d’água, mas acender o fogo (se eu não soubesse que a Ketlin era o capitão, eu pensaria que era você)

RAQUEL: você ficava esperando os rebotes – não venceu nenhuma partida sozinha, mas conseguiu entrar para o time

RENATA: as coisas nunca são tão simples quanto parecem – você conseguiu questionar a estratégia do jogo e propor novas jogadas

SANDERSON: sonhar acordado é tão importante quanto sonhar dormindo – e você sonhou com o título

TAMARA: em quadra, a concentração resolve muitas dificuldades (a concentração é uma das minhas maiores virtudes)

VANESSA: quando você começou, seus arremessos não davam nem aro; eu a coloquei no banco, mas você conseguiu voltar para o jogo

A vida é como um jogo de basquete. Você precisa suar muito. Quem não treina, não joga. Não se pode trapacear. O doping tira você do jogo. É mais difícil fazer pontos de longe. É imperdoável perder arremessos livres. Na vida e na quadra, cada tranco que você dá nas pessoas é punido como falta, mas cada tranco que você recebe lhe dá a oportunidade de marcar pontos. Na vida e na quadra, os bêbados só fazem papel de bobos; os inconsequentes não passam de carga para os outros. É preciso trabalhar em equipe. Você precisa de uma tática, um plano de jogo, uma cadência, e, acima de tudo, você precisa de um bom técnico. Mesmo com as qualidades notáveis que cada um tem, você não vence sozinho. Tenha respeito: respeite os que se importam com o placar do jogo. Na vida e na quadra, nós nos colocamos sob as regras de um Árbitro. Não o provoque desnecessariamente. Todo jogo acaba, todo vigor diminui no decorrer da partida. Aprenda, portanto, a cultivar a simpatia do público. Quanto mais gente torcendo por você, melhor. Deixe-me ser um deles. Deixe-nos ser os seus torcedores. Não decepcione o time, não envergonhe o UNASP. Por mais fútil e banal que seja o assunto, não ouse desdenhar daqueles que torcem por você. Você sai daqui hoje para entrar na quadra da vida. Dou-lhe um pequeno tapa nas costas, não na convicção de que você entendeu tudo, não na convicção de que o treino acabou, mas certo de que você vai fazer o seu melhor, certo de que você vai honrar a camisa que veste. E, se, algum dia, você precisar de um palpite, apareça. Duvido que você precise de um conselho; mas pode ser que você precise de um palpite. E você sabe que nós do UNASP sempre temos um palpite para dar, pois nós nos importamos com você...

Sunday, October 26, 2014

Entrevista sobre religião e cultura

Fui recentemente entrevistado por uma aluna do curso de jornalismo do UNASP acerca do tema da religião e da cultura. Abaixo seguem suas perguntas e minhas respostas:

1. Os escritores bíblicos usaram diversos gêneros literários para transmitir a inspiração dada por Deus por meio do Espírito Santo. Qual o lugar dessas histórias no contexto cultural em que foram produzidas? Elas eram consideradas histórias tradicionais ou, fazendo uma comparação contemporânea, estariam mais para uma narrativa como Star wars, quadrinhos da Marvel ou as tramas de Avenida Brasil (novela da Globo), por exemplo?

A produção literária dos autores bíblicos teve caráter eventual e não seriado. O que eu quero dizer com isso é que, ao contrário das novelas atuais e de outras manifestações da televisão, cinema e mercado editorial de nossa época, os livros da Bíblia não buscavam qualquer tipo de retorno econômico para seus autores. Ou seja, o objetivo não era agradar o público, mas transmitir uma mensagem. Além disso, os autores bíblicos não sobreviviam de sua produção. Não eram profissionais do entretenimento que ficavam imaginando meios de cativar a atenção de seus leitores. Pelo contrário, sua mensagem era, até certo ponto, dura e impopular. De modo geral, eram pessoas comprometidas com a ideia de que alguma coisa estava errada e precisava ser reparada. Além disso, ao contrário do que acontece com a televisão e o cinema, que difundem uma ideologia sutil que vai minando a resistência aos poucos e que procura estabelecer os pontos de vista de uma classe dominante, a mensagem escriturística, especialmente a da Bíblia Hebraica, era patentemente subversora do status quo. Portanto, eu diria que não são apenas milhares de anos que separam a televisão e o cinema da Bíblia, mas um abismo conceitual impossível de ser transposto.

2. Ainda em relação à forma como as histórias foram contadas, é correto afirmar que os autores bíblicos usaram os recursos mais avançados e criativos da época?

Só foi possível que a mensagem do Novo Testamento se espalhasse tão rapidamente justamente pela razão de os primeiros cristãos terem lançado mão da tecnologia mais avançada daquela época: o livro. Até o período do Novo Testamento, os escritos sagrados eram depositados em rolos de difícil manuseio. O historiador Heródoto, que viveu mais de quatro séculos antes de Cristo, nos informa que o livro já havia sido inventado em sua época, mas era, apesar disso, pouco utilizado. Considerações de ordens econômicas impediam seu uso em larga escala. O livro era feito a partir da pele de animais e, por essa razão, era necessário o sacrifício de vários carneiros para a produção de um único exemplar. Como resultado disso, a invenção permaneceu engavetada. O advento do Cristianismo alterou drasticamente essa situação. Os primeiros cristãos estavam tão ansiosos em proclamar sua mensagem que não se importaram com o preço da nova tecnologia e, mesmo enfrentando graves problemas de ordem econômica, passaram a usar o livro na divulgação do evangelho. Graças ao esforço desinteressado desses cristãos, o livro acabou popularizado e o Cristianismo recebeu a denominação de religião do livro. Portanto, eu diria que os primeiros cristãos foram muito felizes ao lançar mão da mais avançada tecnologia de sua época para cumprir a missão que lhes havia sido confiada.

3. Do ponto de vista bíblico, é correto utilizar a indústria cultural para transmitir conceitos bíblicos?

Não existe oposição entre cultura e religião. De fato, a religião é, em grande medida, uma manifestação da cultura. Eu diria mesmo que é impossível praticar uma religião sem lançar mão do aparato cultural que lhe dá sustentação. A Bíblia não se interessa, porém, pelos aspectos idiossincrásicos da cultura. Por exemplo, pouca coisa há na Bíblia contra a prática da escravidão, pois a Bíblia não tenta transformar a cultura. Seu objetivo é a transformação do homem interior. Por isso, quando Onésimo, um escravo fugitivo, se converteu por causa da pregação de Paulo, ao descobrir sua condição, o apóstolo o devolveu ao dono com recomendações de que o escravo se tornasse útil (Fm 11), uma clara solicitação para que Onésimo tivesse permissão de pregar o evangelho. Ora, se a pregação do evangelho tolerou uma instituição cultural tão obviamente desumana, não há de se opor à sociedade superficial e leviana. O próprio Jesus disse que “quem não é contra nós, é por nós” (Mr 9:40; Lc 9:50). Se Hollywood se dispuser a pregar o evangelho, que se junte a nós. Isso não nos impedirá, contudo, de continuar denunciando nossa sociedade como um antro de perdição e suas práticas como perversamente vergonhosas.

4. Ao adaptar histórias de livros para outros gêneros, talvez para apresentar um conteúdo novo, autores acabam utilizando a liberdade criativa para explorar trechos da história que não foram originalmente contados. Isso pode ser mal recebido, como no segundo filme da trilogia de O Hobbit, ou ser bem aceito, como a última adaptação de Super-homem (foi apresentado um super-homem em maturação, com conflitos de identidade). Do ponto de vista teológico, é possível explorar trechos de relatos bíblicos que não foram explorados originalmente? Como isso poderia ser feito? Que cuidados, do ponto de vista bíblico, devem ser tomados?

O sonho de todo pastor é conseguir explorar, em seu sermão, um aspecto original e interessante do relato bíblico, algo que consiga emocionar ou convencer seus ouvintes. Contudo, para alcançar essa finalidade, ele não pode manipular o texto a fim de fazê-lo dizer o que não diz. Acima de tudo, é preciso manter o espírito em que as passagens bíblicas foram escritas. Do contrário, não há pregação, mas entretenimento. O mesmo se aplica aos filmes e livros baseados nas histórias bíblicas.

5. Há jovens que acreditam que a Igreja tem uma visão retrógrada a respeito da cultura, indicando que a Bíblia não fala sobre não ir ao cinema, por exemplo. Por outro lado, há pessoas que acreditam que a Igreja, ao investir em produtos da indústria cultural como CDs ou produções cinematográficas, está sendo "mundanizada" e inclusive usam textos de Ellen White para isso. Qual seria a posição que você, baseado nas recomendações bíblicas e de Ellen White, considera ideal?


Em João 17:15, Jesus orou pelos discípulos com as palavras: “não rogo que os tires do mundo, mas que os livres do mal”. Com isso, Cristo reconheceu que é impossível viver em sociedade sem que nos relacionemos com ela. Ocasionalmente, assisto a um filme que me tenha sido recomendado por um amigo ou familiar. Gosto também de assistir, na televisão, aos jogos do meu time de futebol. Esses momentos em que me desligo das preocupações diárias funcionam como uma espécie de válvula de escape. Eles me proporcionam a oportunidade de me esquecer, momentaneamente, da grande luta espiritual que travamos a cada dia. O que não pode acontecer é me demorar nesse esquecimento. Estamos no mundo e participamos dele. Apesar disso, não podemos ter prazer no mal. Não sei por que as pessoas insistem tanto na noção de que a igreja está se tornando mundana. Isso se deve provavelmente à ideia incorreta de que a igreja deve ser uma reformadora radical da sociedade. A igreja é de Deus e eu deixo que Deus se preocupe com ela. A igreja não foi chamada para fazer oposição ao mundo, mas para transformar o coração das pessoas. Para usar uma imagem já desgastada pelo tempo, um hospital não faz objeção aos doentes, mas à doença. Se a igreja romper categoricamente com o mundo, terá prescindido do ambiente no qual deve realizar sua missão. Há claras declarações bíblicas que apontam para o triunfo da igreja. Há claras declarações bíblicas que afiançam o amor incondicional de Deus por Sua igreja. Nossas especulações quanto à condição mundana da igreja simplesmente traem nossa falta de fé no poder de Deus para cumprir Seus desígnios ou nossa incredulidade no amor que Ele professa ter por nós. Minha maior apreensão, portanto, diz respeito a nossa condição espiritual como indivíduos e não como igreja, pois não há declarações bíblicas que afirmem que determinada pessoa da igreja vá se salvar. Por exemplo, eu diria que possuir uma rede de televisão como a Novo Tempo é um fato tão pouco mundano quanto possuir uma publicadora da qualidade da CPB. As duas instituições se prestam a nos lembrar continuamente da necessidade de Deus em nossa vida e a desejar a oferta que Deus nos faz de uma vida verdadeiramente abundante, uma vida que alcançaremos ou não como indivíduos e não como igreja. O futuro da igreja já foi decidido por Deus. Resta agora que decidamos se, como indivíduos, vamos participar dele ou não.

Friday, December 27, 2013

Entrevista sobre o Natal

entrevista feita pelo jornalista Alex Bússulo ao Prof. Milton L. Torres
e publicada originalmente no jornal Nogueirense (21/12/2013):
http://nogueirense.com.br/entrevista-dr-milton-l-torres/

Jesus Cristo realmente nasceu no dia 25 de dezembro?
Não. Não há nenhuma indicação precisa na Bíblia quanto à data do nascimento de Jesus.

Por que esta data foi escolhida para a celebração do Natal?
Segundo o historiador romano Tito Lívio (22.1.20), contemporâneo de Jesus Cristo, os romanos tinham, desde 217 a.C., uma comemoração importante no mês de dezembro, conhecida como saturnais.  As festividades iam de 17 a 24 de dezembro, sendo o último dia um momento de alegria e troca de presentes. Como se tratava de um festival de inverno, era comum que as casas fossem enfeitadas com luzes e que árvores fossem adotadas como símbolo da preservação da vida durante o inverno. Além disso, 25 de dezembro era também considerada a data de nascimento do deus Mitra, uma divindade muito venerada nos tempos antigos. Finalmente, o dia 25 de dezembro foi declarado pelo Imperador Aureliano, em 274 A.D., como aniversário do nascimento do deus sol (natalis solis invictus). A data foi escolhida porque marcava o solstício de inverno no hemisfério norte, isto é, o momento em que os dias voltam a ser mais longos do que as noites. Posteriormente os cristãos de Roma adotaram essa data sob a alegação de que esperavam, assim, abençoar a data pagã, dando-lhe um caráter cristão. De Roma, a observância do feriado se espalhou para o Ocidente.

Existem evidências arqueológicas do nascimento de Jesus? É possível saber quando ele nasceu?
Há pouca coisa além dos relatos dos evangelhos, especialmente Mateus e Lucas. O nascimento de Cristo não foi comemorado nos dois primeiros séculos porque os cristãos esperavam o rápido regresso de Jesus e porque o Cristianismo era uma religião proibida. Uma celebração aberta podia acarretar perseguição e morte. Por essas razões, a data se perdeu. Apesar disso, a especulação sobre a data exata do nascimento de Cristo começou no início do terceiro século quando Clemente de Alexandria sugeriu que a data mais provável seria 20 de maio. Hipólito, que morreu em 236 A.D., argumentava que Jesus havia nascido numa quarta-feira, mesmo dia em que o sol foi criado, mas não dá a data exata. Um tratado de 243 A.D., intitulado De pascha computus, isto é, “o cálculo da páscoa”, coloca o nascimento de Jesus no dia 28 de março. De fato, não há nenhum dia do ano que, em algum ponto da história, não tenha sido sugerido por um ou outro como o dia do nascimento de Cristo.

Quando começou a se comemorar o Natal?
A mais antiga menção à data de 25 de dezembro como festa cristã vem do assim-chamado calendário filocaliano, do ano 336 A.D., escrito em latim. Nesse calendário, na data que se tornou tradicional, aparecem os dizeres natus Christus in Betleem Iudeae, isto é, “nasceu Cristo em Belém da Judeia”. Depois disto, outras evidências do início da celebração do natal como festividade cristã vêm de Constantinopla, no ano 380 A.D. Em seu sermão 39, Gregório de Nazianzo menciona que o natal tinha passado e lembra seus ouvintes de que, entre outras coisas, depois do natal, os anjos deram glórias a Deus. Com isto, o religioso esperava deter os excessos de comida e bebida que já eram cometidos por ocasião da festa. Em 386 A.D., temos outra evidência do início do natal, desta vez na cidade de Antioquia. João Crisóstomo, em seu sermão de natal, relembra que o feriado já era comemorado há dez anos em Antioquia e tenta superar as críticas daqueles que se opunham à festividade porque a consideravam uma comemoração pagã. Em vez disso, a igreja de Jerusalém comemorou o nascimento de Cristo na data de 6 de janeiro até o ano 549, quando também adotou a data de dezembro.

Como o Natal é comemorado em outras partes do mundo?
Para grande parte dos armênios, o natal é comemorado no dia 6 de janeiro, uma data que, ao longo da história, competiu com 25 de dezembro. Os anglicanos, até o século IX, celebravam o natal no dia 16 de dezembro, data que eles chamavam de “sapiência”. Em 1607, o rei James instituiu uma peça teatral que deveria ser representada na noite de natal. Durante a colonização dos Estados Unidos, os puritanos, por sua vez, se recusaram terminantemente a participar de qualquer atividade natalina, uma festa que eles consideravam pagã. Além disso, para eles, o natal deveria ser um momento de jejum e luto, não de celebração. Tradicionalmente, os católicos comemoram o natal com três missas no dia 25 de dezembro. O nome do natal, Christmas em inglês, vem justamente desse costume: Christes Maesse, “a missa de Cristo”. A forma como os brasileiros o comemoram foi muito influenciada pelo formato da celebração nos Estados Unidos: a família participa da ceia de natal e, depois, se reúne ao redor da árvore enfeitada com luzes para abrir presentes. Muitas pessoas nos países do Ocidente também gostam de ir à igreja nessa data. Na Guiana Inglesa, o natal é comemorado com o desfile de uma banda de músicos mascarados que arrecadam dinheiro. Na Nigéria, o natal é uma data favorita para os casamentos. Em Serra Leoa, as pessoas se presenteiam com frutas. Os cristãos da Coreia levantam cedo no natal e se organizam em pequenos corais que saem pelas ruas arrecadando dinheiro para os menos afortunados. Ou seja, há tantas tradições nacionais de natal que é impossível relatá-las todas aqui.

Para o mundo cristão qual o real significado do Natal?
Numa tentativa de serem politicamente corretas, muitas pessoas estão esvaziando o natal de sua dimensão religiosa e cristã. Até a aparentemente inofensiva opção de se dizer “boas festas” em vez de “feliz natal” pode dar indícios de que o natal está perdendo seu apelo religioso. Os próprios cristãos podem estar contribuindo para esse menosprezo à solenidade religiosa do natal. A data de 25 de dezembro foi escolhida fortuitamente porque coincidia com um importante festival pagão, mas o nascimento de Jesus é um evento histórico de dimensão salvífica. Como não temos nenhuma certeza da data real de seu nascimento, qualquer data serviria para comemorá-lo. No entanto, o natal está aí, estabelecido como resultado de uma tradição de vários séculos. Seria muito triste perder a oportunidade de comemorar o nascimento de Jesus, juntamente com milhões de outras pessoas, simplesmente porque temos excesso de pudor. O natal tem significado real para o cristão porque lhe concede a oportunidade de falar de Cristo, agir como Cristo e inspirar outras pessoas a seguir Aquele que nasceu em Belém e que nos legou o exemplo derradeiro de amor ao próximo. 

O Papai Noel tem algum significado para o cristão?
Papai Noel é um personagem lendário e fictício que tem uma origem folclórica. Existiu, de fato, a figura histórica de Nicolau de Mira, um cristão grego que, no século IV A.D., fazia doações generosas aos pobres, mas sua história sofreu acréscimos que a distanciaram de sua origem cristã. Os restos mortais deste santo homem se encontram supostamente preservados na cidade de Bári, na Itália. No dia de seu aniversário, em 6 de dezembro, desenvolveu-se em quase toda a Europa a tradição de presentear as crianças. Ao longo dos séculos, Nicolau recebeu características do deus nórdico Odin e todo um folclore se desenvolveu ao seu redor, principalmente nos Países Baixos. Incomodado por esse fato, Lutero, durante a Reforma, procurou transferir o costume dos presentes para o dia 25 de dezembro, a fim de que as crianças aprendessem a reverenciar o Senhor Jesus e não apenas um velho santo. O Reformador, sem querer, trouxe a figura de Papai Noel para o natal. Portanto, embora incorpore virtudes cristãs como bondade e alegria, Papai Noel não tem muito significado para os cristãos. De qualquer forma, tornou-se uma figura querida da cristandade e não há razão para demonizá-lo.

Qual é a melhor forma de se comemorar o Natal?
Eu sugeriria três coisas muito importantes que todos nós deveríamos praticar durante nossas comemorações do nascimento de Cristo. Em primeiro lugar, acho que é essencial que passemos tempo de qualidade como nossos familiares e amigos. Em segundo lugar, sugiro que aproveitemos a data para renovar nossos compromissos de fidelidade a Deus e à consciência. Ou seja, o natal nos dá uma excelente oportunidade para que pensemos em Deus e nos animemos a seguir Suas orientações para nossa vida. Finalmente, acho que o natal é uma ocasião em que todos nós devemos nos engajar em alguma causa humanitária. O natal é um tempo de se fazer o bem às pessoas, seja através de um mutirão de natal, de uma doação generosa ou de pequenos gestos de atenção.

Em dezembro se vê uma grande mobilização de atos de solidariedade, tanto das igrejas quanto da sociedade. Por que isso só acontece no natal?
O natal é, de fato, um período em que todos nós nos tornamos mais susceptíveis às necessidades alheias. Acho que é isso que as pessoas chamam de espírito do natal. Não penso que devamos estranhar o fato de que haja tanta bondade no natal. O que devemos estranhar é o fato de haver tão pouca bondade fora dessa época. Ou seja, em vez de considerar como hipócrita o bem feito durante esse período do ano, deveríamos encorajar as pessoas a estendê-lo ao restante do ano. Deveríamos sentir o espírito do natal todos os dias de nossa vida e agir de modo compatível com o que isto representa. Cristo nasceu em um dia apenas, mas Ele viveu três décadas entre nós, sinalizando que Ele pode estar presente em nosso coração todos os dias do ano. E se, de fato, abrirmos o coração para Cristo, será impossível que nos limitemos a praticar o bem apenas numa data no fim do ano.

Qual o maior ensinamento deixado por Jesus?

A principal mensagem de Cristo é o amor. No entanto, essa mensagem tem uma aplicação dupla. Ele disse: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Para que isto se torne uma realidade em nossa vida, é necessária abnegação. Isto é, desapego e desprendimento. Acho que é por isso que os cristãos praticantes são pessoas tão felizes. É verdade que, de vez enquanto, aparecem entre nós pessoas que são mesquinhas e mal-humoradas, mas tais pessoas são justamente atraídas ao Cristianismo pelo fato de sentirem que precisam desenvolver a virtude da renúncia. A compreensão de que somos chamados por Deus para abrir mão dos nossos confortos a fim de poder ser úteis à igreja e à sociedade, de fato, nos dá um sentido para a existência. Por isto, neste natal, desejo que sejamos realmente contagiados pelo Espírito de Cristo, que é o espírito do natal.

Tuesday, December 17, 2013

Formatura de Tradutores Classe de 2013

por Milton L. Torres, PhD

Hoje é a sua formatura e meu primeiro conselho para vocês vem de minha paráfrase de Filipenses 3:13-14

Não estou dizendo que já sei tudo, que eu já cheguei lá. Mas estou a caminho. Decidi segurar a mão de Cristo. Não me entendam mal. Não me considero o sabichão, mas estou de olho no alvo que Deus me mostrou. Já entrei na corrida e não vou parar até chegar lá.

                Dizem que Einstein fez o discurso de formatura mais rápido da história. Ele se levantou e disse simplesmente: - Não tenho nada a dizer a não ser “boa sorte”. E, então, se sentou. Não quero bater esse record. Mas, como o tempo é breve, vou lhes dar dez rápidos conselhos:

10. Encarem a realidade. LARISSA, quando o alarme tocar às 6 da manhã, não é um pesadelo. É o seu trabalho!
9. Tomem decisões. LÊNIE, quando você chegar a uma encruzilhada na vida, um momento de decisão, não fique de braços cruzados. Escolha um caminho e siga-o até o fim.
8. Sejam diplomáticos. PAULO, quando seus pais perguntarem quando é que você vai se casar e ter a própria casa. Não se precipite. Seja evasivo. Mas saiba que, no dia de seu casamento, haverá uma FESTA.
7. Ouçam a voz da experiência. JOSY, você sabe que sempre vai poder contar com o UBA.
6. Não adiem as coisas. TATIANE, se você ainda não comprou os ingressos para a copa do mundo, agora não dá mais!
5. Sejam pacientes. GAZETA, espere pelo menos 24 horas até pedir mais dinheiro para seus pais.
4. Sejam bons cidadãos. Paguem seus impostos, votem e, MARA, sempre ganhe dos teologandos quando o assunto for grego ou latim.
3. Sejam francos. ÉVELIN, quando seus amigos perguntarem o que você vai fazer agora que se formou, diga a verdade: - Não tenho a menor ideia!
2. Sejam sucintos. JULIANA, quando alguém ficar elogiando sua inteligência ou talentos, simplesmente diga: EU ESTUDEI NO UNASP.
Ruflar de tambores...
1. Sejam os melhores. MARIÁH, você não será mais julgada por suas notas, mas por seu caráter, suas promessas, sua coragem e seu exemplo.

Esta formatura é importante para mim por três razões principais. Primeiro, considero esta formatura como a minha formatura também. Como vocês estou há quatro anos no UNASP. Em segundo lugar, faz exatamente trinta anos que me formei em minha primeira faculdade. Mas a principal razão por que esta formatura é importante para mim é que ela é a sua formatura, a formatura de alunos que aprendi a amar e respeitar. Ainda assim, a geração de vocês é diferente da minha. Dizem que vocês são a geração X. Os sociólogos fazem essa declaração com a intenção de dizer que a geração de vocês não se preocupa com o futuro. Mas eles estão errados, vocês são a geração X porque eXcelência se escreve com X!
                Meus últimos conselhos a vocês:
1. Cuidem do ambiente.
2. Nunca usem drogas, cigarros ou bebidas.
3. Sejam fiéis a Deus e à sua consciência.

4. Venham sempre nos visitar porque vamos morrer de saudades...

Saturday, June 15, 2013

A intenção de errar e fazer errar

por Milton L. Torres, PhD

                A pesquisa, quer seja científica, quer tenha caráter exclusivamente intuitivo, sendo, portanto, destituída de uma metodologia rigorosa que tenha sido desenvolvida a partir de longa reflexão e experimentação coerente, constitui uma forma cada vez mais comum de buscarmos uma interpretação plausível para a realidade como a contemplamos. De certa forma, quando recorremos ao Google para descobrir alguma coisa, estamos fazendo pesquisa. Nesse processo, raramente temos a intenção de errar. O que nos motiva à pesquisa, em vez disso, é o desejo de explorar possibilidades, isto é, o anseio de acertar. Para estabelecer a confiabilidade de nossas conclusões é vital que tenhamos sido fiéis a esse anseio e, principalmente, que tenhamos sido honestos ao interpretar nossas fontes.
                O uso de fontes serve para fundamentar e melhorar a qualidade de nosso trabalho de pesquisa. As citações concedem autoridade às conclusões às quais nossa pesquisa nos tenha levado, pois mostram que outras pessoas trilharam caminhos semelhantes aos nossos e, por essa razão, passaram a interpretar a realidade de maneira semelhante à nossa. Além disso, oferecem ao leitor da pesquisa condições de comprovar que o que dizemos tem fundamentação, dando-lhe, inclusive, a oportunidade de se aprofundar no tema em discussão. Nenhum estudioso deveria, portanto, fazer mau uso de suas fontes, pois isso comprometeria a confiabilidade de suas conclusões e levantaria suspeitas quanto a sua competência como pesquisador. O mau uso de fontes sugere, no mínimo, que o pesquisador foi precipitado em relação às conclusões a que chegou.
                A razão por que menciono essas coisas é que recentemente chegou à minha atenção a notícia de que uma afirmação minha foi empregada para dar sustentação a uma ideia que aqueles que me conhecem sabem que não apoio. Um site intitulado “Nova Aliança – Desde 1888” afirmou o seguinte:

É tanta a contradição de nossa mentalidade com a expressa por Paulo que não poucos entre nós consideram Paulo quase um inimigo da Igreja e desabafos como o Dr. Milton Torres que foi professor de teologia e hoje foi afastado para lecionar letras no UNASP aparecem entre nós: “me sinto aliviado de não ter mais que lecionar o livro de Romanos ao seminário teológico”.

O autor do texto passa a impressão de que considero o apóstolo Paulo um inimigo da Igreja e de que estou feliz por não mais ter que ministrar aulas sobre seus escritos. Nenhuma informação, porém, é dada acerca do lugar, data ou contexto em que eu tenha feito essa afirmação. Além disso, aqueles que acompanham o que escrevo sabem que a verdade é o oposto disso: considero o apóstolo como um dos pensadores mais intrigantes da Igreja primitiva e o admiro tanto que já escrevi dois livros sobre ele: Sã doutrina: medicina nas epístolas pastorais (2007) e Amor exagerado: a exorbitante pregação do apóstolo Paulo (2013).
                Não vou entrar em outros méritos da declaração como, por exemplo, a ideia de que fui afastado do seminário para dar aulas de letras. Fui afastado do seminário na mesma proporção em que qualquer pastor é afastado do distrito que pastoreia a fim de assumir novas responsabilidades em outra área. Nós, pastores, nos sentimos chamados por Deus e atendemos a seus mandados, mesmo que isso implique em deixar o conforto de nossas preferências a fim de segui-Lo aonde Ele nos enviar. Sem, então, entrar no mérito desse aspecto da citação, posso garantir que sinto falta das aulas de Romanos, como sinto falta de ministrar aulas de grego bíblico, a língua em que o Novo Testamento foi escrito e pela qual tenho paixão de intensidade comparável à que sinto quando estou ministrando aulas de literatura clássica, no Curso de Letras, ou aulas de Interpretação Intermitente, no Curso de Tradutor e Intérprete do UNASP. Essa saudade só foi mitigada quando, neste primeiro semestre de 2013, o SALT-UNASP me solicitou que, devido a uma situação imprevista, eu assumisse as aulas de Grego III, às quais seis heroicos estudantes compareceram e durante as quais se empenharam para deixar orgulhoso o velho professor: Almir, Áthila, Eduardo, Herald, Manoel Felipe e Maurício.
                 Não me lembro das palavras exatas de minha declaração de despedida aos alunos do quarto ano de teologia do SALT-IAENE, turma que concluiu seus estudos em 2008. Eles me concederam a oportunidade de lhes dirigir a palavra várias vezes naquele ano, principalmente a honra maior de fazer o sermão de consagração em sua cerimônia de formatura. Mantenho, ainda, contato com muitos deles e gosto de imaginar que hei de sempre poder contar com o carinho que eles me demonstraram durante as aulas, em nossos contatos informais no campus do IAENE e em nossas trocas de email e telefonemas até o dia de hoje. Apesar de não me recordar das palavras exatas, sei muito bem qual foi o seu teor: “estou aliviado de não ter mais que dar aulas no seminário”. Nessa declaração, nunca fiz referência a Paulo ou a Pedro, mas a afirmação continua: “estou aliviado de não ter mais que dar aulas no seminário porque julgo ser esta uma tarefa que exige grande entrega e pela qual sou muito cobrado – estou cansado de que pessoas mal intencionadas me torçam as palavras e exijam respostas prontas para suas dificuldades de interpretação da Bíblia quando, de fato, suas indagações não são oriundas do interesse sincero de aprender, mas da intenção de errar e fazer errar”.
                Diante do uso gratuito e inconsequente de minhas palavras, alteradas e postas fora de contexto, no site “Nova Aliança – Desde 1888”, em que se percebe mais a intenção de ferir e rebaixar do que de edificar e promover a investigação sincera das Escrituras, só me resta concluir que, embora não seja mais professor do seminário, não existe, de fato, nenhuma razão para que eu me sinta aliviado. Esse sentimento de alívio só existirá quando eu puder perceber que aqueles que se dizem irmãos, que se dizem meus irmãos, prescindirem dessa comichão de errar e fazer errar. Contra minha expectativa existe, porém, a percepção de Aristófanes (Aves 169-179) de que "o homem é uma ave (ho anthrôpos ornis): instável, fugaz, inconsequente e incapaz de permanecer em um só lugar".

Qual é a importância da língua portuguesa?

por Milton L. Torres, PhD

         O português é a língua oficial de oito países do mundo, espalhados em quatro continentes. Estima-se que quase 250 milhões de pessoas falem o idioma. Depois do Brasil, os países onde o português é mais falado são Moçambique (19 milhões), Portugal e Angola (11 milhões cada um) e Guiné Bissau (mais de um milhão). Ao contrário do que muita gente pensa, o espanhol não é o parente mais imediato do português, mas o galego, a última língua do tronco romântico a se separar de nosso idioma. Trata-se de uma língua falada na Galícia, uma região da Espanha, e nas áreas de imigrantes galegos na Argentina, Cuba e Uruguai. Aliás, o nosso tronco linguístico se chama “romântico” porque tanto o galego quanto o português são descendentes de uma língua agora extinta antigamente chamada de romanço. De fato, o romanço era uma mistura de línguas derivadas do latim vulgar e, por essa razão, o termo tinha conotação pejorativa. De qualquer forma, o português do Brasil, sendo uma das línguas mais nasais do mundo (juntamente com o francês e o polonês), merece mesmo a denominação de língua romântica, uma vez que os antigos gregos, sempre muito inteligentes, consideravam os sons nasais como os mais belos e sensuais de todos.
         A língua portuguesa reflete, em muitos sentidos, o espírito aglutinador de seus falantes. Por causa das invasões mouras à Península Ibérica, região da Europa onde se localiza Portugal, e devido à colonização portuguesa de vastas regiões na América do Sul, África e Ásia, nossa língua entrou em contato com os falares de diferentes regiões do mundo. Como resultado disso, nosso idioma acabou enriquecido com inúmeras palavras oriundas do árabe, das línguas indígenas brasileiras e das línguas africanas. De certa forma, o sincretismo observado em nossas relações sociais transparece também em nossa forma de falar. Quem sabe não foi justamente essa propensão de nossa língua que tornou o brasileiro essa pessoa tão amistosa e tão disponível para a conversa fiada... Será que o pensamento determina a língua ou, ao invés disso, a língua influencia o pensamento? Independentemente de se tomar uma decisão a esse respeito, concordaremos que a língua portuguesa constituiu o nosso jeito de ser, o nosso modo de encarar a vida, a nossa própria alma coletiva e, por isso, como disse Jesus Cristo, não nos resta alternativa senão deixar que a boca fale do que está cheio o coração (Mt 12:34). Tente passar o soneto 11 de Camões para qualquer outra língua e você vai entender o que eu quero dizer com isso. As contradições implícitas numa “dor que desatina sem doer” ou num “solitário andar por entre a gente”, parecem não fazer pleno sentido, a não ser quando vistas a partir do jeito luso-brasileiro de encarar a vida. Assim, disse Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa”. Não se importava que invadissem Portugal, desde que não mexessem com ele. Mas isso não era egoísmo. No fundo, o escritor sabia que, enquanto houvesse o nosso jeito de falar, não perderíamos a identidade, não nos abateríamos diante dos infortúnios, não perderíamos a voz, nem nosso reflexo no espelho.
         Talvez o que o tenha motivado a ler este texto despretensioso é que você imaginasse que ele confirmaria suas suposições de que, sem um conhecimento sólido da gramática portuguesa, seria impossível você se dar bem na vida, conseguir um trabalho melhor, aumento de salário, uma linha de crédito mais compatível com suas necessidades do momento ou, até mesmo, uma chance com a moça bonita a quem você anda cobiçando. Faz mesmo parte da natureza humana que encaremos tudo a partir de um ponto de vista pragmático que nos permita tirar vantagem de tudo. Bem, não foi isso que me motivou a escrever. Decepcionado? Ora, não fique. É bom saber que seu português é melhor do que o dos outros sete bilhões de falantes que andam sobrecarregando as linhas de comunicação deste planeta. Pouca gente fala português na China ou no Curdistão. Talvez, melhorar o seu conhecimento gramatical possa agregar um centésimo de valor ao patrimônio cultural que você tem. Em vez disso, eu sugiro que você desfrute dessa língua. Use-a de modo ferino ou terno, use-a sério ou leviano, use-a para ser ou não ser, use-a! Sorva cada palavra como se o ar fosse feito disso. Imagine-a como cubo, esfera, pétala, andaime, viga. Mas... nunca tenha medo dela. A língua está do nosso lado. Falando português, ao amigo, ao desafeto ou à moça bonita que mencionei, é impossível não conciliar as desavenças, é impossível não encantar com o charme romântico das palavras. Afinal de contas, como escreveu Alberto de Lacerda, “esta língua portuguesa, capaz de tudo, como uma mulher realmente apaixonada, esta língua é minha Índia constante, minha núpcia ininterrupta, meu amor para sempre, minha libertinagem, minha eterna virgindade”. Quer saber, então, a autêntica importância da língua portuguesa? Tente ficar um dia, uma hora sem usá-la. Hoje, à noite, antes de dormir, eleve a Deus um pensamento, esboço de gratidão, primeiramente por falar e, principalmente, por falar em português...

Publicado originalmente no Nogueirense (9 de junho de 2013), jornal da cidade de Artur Nogueira, no interior de São Paulo (http://nogueirense.com.br/opiniao-qual-e-a-importancia-da-lingua-portuguesa/).


Sunday, May 05, 2013

Tecnologia e Mudanças em Educação


Milton L. Torres, PhD

Fala-se muito em mudança educacional, no nosso país, numa época em que o Brasil começa a desfrutar da sensação de que pode ter mais importância para a economia mundial do que julgava ser possível. A estabilização de nossa economia exala o odor de suor e trabalho árduo. Cheira também a criatividade e ginástica, esta última entendida como a capacidade de vergar sob o peso das adversidades sem quebrar nunca, ou quase nunca. O que as pessoas esperam é que o brasileiro descubra, além disso, o caminho para o desenvolvimento social e cultural de nossa gente. Parece mesmo unânime a ideia de que isso exige um processo educacional mais coerente, metodologias educacionais mais eficientes, tecnologia mais motivadora e, principalmente, mudança. Mudança, ponto final. Não há como argumentar contra a conclusão de que alguma coisa precisa ser feita se quisermos sair do atraso educacional em que, de modo quase geral, o Brasil se encontra. Nesse contexto, a tecnologia acaba sendo apresentada como a panaceia capaz de curar uma grande parte de nossos males, senão todos. Contudo, só saberemos, com certeza, se a tecnologia será capaz de produzir a metamorfose que aguardamos, se pudermos identificar as alterações que necessitam ocorrer nas dimensões essenciais do processo educacional.
Mudanças nos alunos. Depois de trinta anos no exercício do magistério, em todos os níveis, desde o ensino fundamental até a pós-graduação, eu tenho percebido muitas mudanças nos alunos que ingressam em minha sala de aula. Os alunos de hoje se mostram, por exemplo, relutantes em empreender atividade de reflexão crítica e aprofundada. Fazem tudo com pressa, aparentemente desejosos de se livrar de atividades que consideram além de seu interesse. São, além disso, muito dependentes de estímulo visual, apresentando um correspondente decréscimo de imaginação. Como professor de literatura e línguas antigas e modernas, se eu pudesse apontar para mudanças que eu gostaria de ver nas atitudes de meus alunos e alunas, eu diria que eu gostaria que eles fossem mais imaginativos, mais capazes de abstrair e refletir. Em muitos sentidos, como afirmou Adélia Prado, meus alunos não precisam “nem de faca, nem de queijo”. Eles precisam de “fome”! O meu discurso não é, porém, derrotista. Embora esteja cada vez mais difícil motivar os alunos a que se devotem a empreendimentos acadêmicos que incluam reflexão e aprofundamento, tive muito mais vitórias do que derrotas. Em uma aula apenas, vou do riso ao pranto, das anedotas banais aos gestos patéticos, do canto desafinado à dança da chuva, tudo para engajar o aluno. Geralmente eu consigo engajá-los quando nos tornamos cúmplices. Quem é, então, o novo aluno de que necessitamos? O “comparsa” reflexivo, o sidekick que anseia por sua vez de ser super-herói, a mente desejosa, susceptível e inquiridora. Não precisamos de tecnologia para isso. Sinceramente, é o fato de os alunos estarem empanturrados de tecnologia que os tem deixado letárgicos, sem esboço de reação. Meus alunos apresentam às vezes síndrome de abstinência. É somente com disciplina espartana que, a despeito de seu choro e ranger de dentes, tenho banido o computador da sala de aula. Não precisamos de tecnologia para fazer poesia. Não precisamos de tecnologia para alimentar a imaginação. Não precisamos de tecnologia para criar mundos e lavar a alma. Em educação, não precisamos de tecnologia para nada que realmente valha a pena. Não precisamos de tecnologia, especialmente quando ela nos é imposta a atacado e com as motivações mais perversas.
Mudanças nos professores. Ao olhar os mil espelhos a que tenho acesso em cada jornada de trabalho, posso dizer que há também espaço para mudanças nos professores. Refiro-me a espelhos porque vejo reflexos em cada colega e em cada atividade que testemunho no fazer educativo. Os professores precisam ser mais corajosos. Têm que escapar da função de coadjuvantes e assumir o papel de educadores de verdade. Como bois de piranha, os professores brasileiros se tornaram reféns de administradores escolares cuja motivação original é a aspiração de criar uma máquina escolar de fabricar dinheiro falso. Não admira a crise que agora enfrentamos nas licenciaturas. Além disso, muitos professores se veem intimidados por alunos que se recusam a cumprir as exigências mínimas de um curso decente de estudos. Como um maria-vai-com-as-outras, o professor brasileiro se vê jogado de um lado para outro por todo vento de doutrina. Esta é a era na qual imperam os modismos, as soluções fáceis, marqueteadas, maquiadas e moqueadas. Sou fruto da educação pública. Exceto pela graduação, sempre estudei em escolas públicas. Os professores que tive comportavam-se, sim, como catedráticos, porque o eram. Suas atitudes eram paradigmáticas; seus conhecimentos, exemplares. Por isso, optei pelo magistério. Hoje, os professores bem sucedidos são aqueles que conseguem entreter a audiência. Faltam-lhes substância e conteúdo; sobram-lhes adestramento político e competência mimética. Como deve, então, ser o novo professor? Autêntico e autônomo. Sujeito. Movido pela paixão. Não me candidatei ao magistério para lidar com máquinas. Clemente de Alexandria afirmou que, no pedagogo, a educação dos jovens “produz impulsos mais fortes para amá-los do que sua procriação”. Dizer que a tecnologia deve ser a motivação da educação e que ao professor cabe o papel de mediador é a mais lamentável forma de reducionismo e reificação.
Mudanças na escola. A escola também tem que mudar. Em vez de ser a cobaia dos mais sinistros interesses capitalistas, precisa se tornar um fórum para a partilha de conhecimento. Não com o papo-furado de chats artificiais e extemporâneos, mas com diálogos instigantes oriundos de pesquisa conjunta e atenção concentrada. A escola deve encarnar a concepção que a etimologia lhe atribui. Scholê era um lugar de conotação atemporal e metafísica onde os gregos ficavam, um lugar ao qual compareciam, um lugar no qual depositavam suas fichas e, mais do que isso, onde faziam política e forjavam a essência de sua cidadania. Do mesmo modo, a escola deve atrair os alunos, não repeli-los. Deve constituir o cenário de agregação de vontades, almas, personalidades, o andaime sobre o qual construir. Não se trata de instituir um gregarismo fútil (do tipo shopping center), mas de fazer da escola um polo de criação científica e transformação social. Esse projeto pode certamente envolver tecnologia; não pode nunca, porém, se limitar a ela. Além disso, a tecnologia deveria fisicamente atrair as pessoas para a escola e não distanciá-las dela.
Mudanças na gestão. A gestão educacional não pode continuar sua subserviência aos interesses mercadológicos. Não se deve pretender colocar um ou mais computadores nas salas de aula ou demais ambientes da escola simplesmente porque os fabricantes precisam vender a tralha tecnológica e o marketing da escola exige algum cosmético para promovê-la. Os gestores devem garantir que cada máquina adquirida e cada software desenvolvido sejam efetivamente empregados para a edificação dos seres humanos que se colocam sob sua tutela. No negócio da educação, o gestor não pode sucumbir à tentação de ser o atravessador de bens simbólicos, nem se arrogar o papel de um suspeito protagonista no tráfico escancarado de influência. Não vendemos diplomas; não comercializamos privilégios e mamatas. Nossa época insiste em colocar antenas nos alunos e, por isso, os chamamos de “antenados” – como se lidássemos com insetos ou dispositivos receptores de mensagens nada óbvias. Seria preferível, no entanto, que lhes déssemos coração e cérebro, em vez disso. Nossos administradores escolares precisam se inteirar, afinal de contas, de que nosso alunado não forma enxames nem completa números. Merece, nada obstante, a dignidade de indivíduo.
A escritora Ellen G. White (Mensagens escolhidas, v. 3, p. 226), referindo-se especificamente à educação cristã, lamentou a tendência de se tentar imitar os modismos de escolas ditas de vanguarda: "vossa escola deve ser uma escola que sirva de amostra. Não deve ser uma amostra segundo as escolas da atualidade. Não deve ser semelhante coisa. Vossa escola deve estar de acordo com um plano que se encontre muito à frente dessas outras escolas". Não me passa pela cabeça que, em sua concepção, "estar muito à frente" das outras escolas signifique ênfase na educação tecnológica. Quem a lê e conhece bem, sabe que essa importante escritora cristã se preocupava mais com os aspectos espirituais, intelectuais e sociais da educação.
Como se percebe, a tecnologia não figura como ingrediente de importância vital para as mudanças educacionais que considero mais urgentes. Obviamente, a tecnologia será bem-vinda caso ajude nessa direção. Contudo, a tecnologia é uma coisa e, como coisa, deverá ser sempre secundária em educação. Na medicina, a falta de um respirador pode fazer com que um paciente morra. Na escola, especialmente na área de ciências humanas, a falta de um computador pode simplesmente nos propiciar a oportunidade de reunir os alunos sob algumas árvores frondosas a fim de termos uma agradável e construtiva troca de experiências. Essa aula tem tudo para ser inesquecível.

Tuesday, April 30, 2013

Sócrates, Tecnologia e Educação

por Milton L. Torres, PhD


Ó habilidoso Thoth, a um é dado criar artefatos, a outros a julgar em que medida males e benefícios advêm deles para aqueles que os empregam. E assim acontece contigo: em virtude de teu apreço pela escrita, que é tua filha, não vês o seu verdadeiro efeito, que é o oposto daquele que dizes. Se os homens aprendem a escrita, ela gerará o esquecimento em suas almas, pois eles deixarão de exercitar suas memórias, ficando na dependência do que está escrito. Assim, eles se lembrarão das coisas não por esforço próprio, vindo de dentro de si próprios, mas, sim, em função de apoios externos. O que você inventou não é uma receita para a memória, mas apenas um lembrete. Não é o verdadeiro caminho para a sabedoria que você oferece aos seus discípulos, mas apenas um simulacro, pois dizendo-lhes muitas coisas, sem ensiná-los, você fará com que pareçam saber muito, quando, em sua maior parte, nada sabem. E eles serão um fardo para seus companheiros, pois estarão cheios, não de sabedoria, mas da pretensão da sabedoria (Platão, Fedro).

Nas considerações sobre o advento do computador como tecnologia educacional, traçando-se um paralelo com o aparecimento da escrita e o suposto preconceito de Sócrates com aquela novidade tecnológica, é necessário partir do texto que parece estabelecer essa analogia. No final do Fedro, Platão, de fato, mostra os comentários de Sócrates acerca do tema da invenção da escrita. No entanto, a fala, no texto, não reproduz as próprias palavras do filósofo. Não se trata apenas de se ouvir a voz de Sócrates através da fala de Platão. Platão apresenta a descrição que Sócrates faz das palavras ditas por Tamuz a Thoth. Ou seja, Sócrates não está expressando seu preconceito contra a escrita. Está, de fato, refletindo sobre a compreensão que a mitologia egípcia tinha do valor da escrita. Além disso, o Sócrates de Platão não está tratando do valor da escrita de modo geral. A escrita nem é o seu tema. Ele simplesmente se refere à escrita porque, com a alusão à mitologia egípcia, ele busca subsídios para provar a tese de que discursos enlatados não devem ser admitidos na arte da oratória. Isto é, ele não se levanta contra todas as formas de escrita, mas aquela usada para dar a um orador medíocre condições de parecer mais do que, de fato, é. Outra preocupação de Sócrates é que as pessoas que escrevem poemas e discursos belos transcendam a letra escrita e, em realidade, vivam o que escreveram. Seria incoerente que Platão retratasse Sócrates como inimigo da escrita, se o próprio diálogo platônico, no qual se notabilizou, é, acima de tudo, um exercício da escrita. As preocupações de Sócrates se mostram atuais e essenciais para a reflexão filosófica: credibilidade, autenticidade e competência discursivas.

Por outro lado, mesmo que Sócrates tivesse demonstrado um preconceito sem fundamentação e reflexão contra a escrita, e se provasse, como querem alguns, que mesmo homens sábios demonstram resistência às inovações sendo, portanto, avessos às mudanças, isso não provaria a tese de que toda mudança é boa. As mudanças podem ser boas ou más, dependendo de como são implementadas e a que preço. A tecnologia computacional tem dado contribuições importantíssimas para a melhoria da vida do homem atual. Isso não garante, contudo, que ela deva ser implementada em todas as dimensões de nossa vida. Se a tecnologia computacional penetrar em domínios que têm pouca afinidade com ela, isso poderá constituir um grave empecilho à realização humana. Para citar os exemplos mais óbvios, embora o computador possa fazer breves incursões na adoração e na educação, não deve se tornar a razão de ser da adoração e da educação. Que bom que haja resistência ao seu uso indiscriminado. Essa resistência serve para alertar os ágeis e mecânicos acólitos da tecnologia que, para convencer a todos, precisam ir além da prestidigitação de fórmulas engarrafadas e adornadas com animações do tipo luz de árvore de natal.