Tuesday, February 02, 2016

Resenha: A Cabana

YOUNG, William Paul. A cabana. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

por Milton L. Torres

 Comecei a ler A cabana anteontem às 22h e terminei às 9h de hoje. Foi uma leitura intensa, realizada de um golpe só. Eu tinha bons motivos para ler o livro: minha filha o recomendara e havia encontrado, na internet, uma citação sobre perdão que alguém tinha tirado do livro e que tinha despertado o meu interesse. Gostei muito do livro. Com isso não quero dizer que o autor tenha conseguido escapar à tentação de ser sentimentaloide ao explorar temas tão melodramáticos quanto a fé religiosa, o perdão incondicional, o amor paterno e a esperança. Por outro lado, ele conseguiu me manter engajado e curioso. Em alguns momentos, algumas lágrimas até me escorreram pelo rosto.
 Para quem tem uma filha, é inevitável que o enredo nos prenda. Durante um acidente no rio perto de um acampamento num parque florestal, uma menina, Missy, é raptada e morta por um maníaco. Suas roupas ensanguentadas são descobertas em uma cabana abandonada, mas o corpo não é encontrado. Após quatro anos de uma tristeza profunda, Mack, o pai, encontra um bilhete na caixa de correio, supostamente de Deus, dizendo que deveria voltar à cabana para encontrá-lo.
 Mack volta à cabana para o encontro com Deus e, no tempo em que passam juntos, Deus lhe aparece como uma mulher negra com propensões culinárias, que se apresenta como Elousia ou, como era sua preferência, Papa, o nome pelo qual a esposa de Mack costumava se referir a Deus (conforme aparece na versão em inglês). Papa se faz acompanhar de Jesus e Sarayu, o Espírito Santo. O homem, não sem alguma relutância, se afeiçoa aos três personagens. Com isso, ocorre uma teodiceia, o esforço para provar a justiça de Deus diante dos fatos pertinentes à tragédia que havia vitimado a menina.
 Essa defesa de Deus se torna o grande desafio do autor. Seu sucesso só pode ser avaliado pelo fato de conseguir manter a atenção do leitor enquanto busca esse alvo. E isso ele consegue, entre outras coisas fazendo Mack caminhar sobre as águas com Jesus, dando-lhe a oportunidade de vislumbrar Missy brincando no céu com os sonhos dos irmãos adormecidos, dando-lhe a oportunidade de voltar no tempo para se reconciliar com o pai violento e, sobretudo, oferecendo-lhe a oportunidade de perdoar o brutal assassino de sua filhinha.
 O tema do perdão é tão importante quanto o da teodiceia. De fato, as frases mais profundas do livro revolvem em torno desse assunto: “perdoar não significa esquecer... significa soltar a garganta da outra pessoa” (p. 209), “talvez você tenha de declarar seu perdão uma centena de vezes no primeiro e no segundo dia, mas a cada dia serão menos vezes, até que um dia você perceberá que perdoou completamente” (p. 212). Perdoar o assassino se torna ainda mais difícil quando Papa mostra a Mack onde estava escondido o corpo de Missy. Mesmo assim, ele consegue.
 No final, Papa dá a Mack a opção de ir para o céu ou voltar para os familiares, que é o que ele decide. Na volta para casa, sofre, porém, um acidente na estrada que o deixa desacordado por vários dias. Durante a convalescência, Mack conta tudo ao melhor amigo, Willie, que é, de fato, quem narra o livro. Depois disso, Mack leva a polícia ao local onde o corpo estava e, com isso, os policiais conseguem localizar outras vítimas e prender o criminoso.
 Eu sei que outras pessoas conseguiram ver maldade no livro, uma agenda oculta e insidiosa capaz de deformar a imagem que têm de Deus e da Trindade. Confesso que isso nem me passou pela cabeça. O que vi foi o esforço inteligente e reflexivo de fazer sentido do sofrimento e da tragédia. Com certeza, Deus deve ser muito mais do que Young consegue imaginar. Se Ele for, porém, apenas o que Young mostra, já ficarei satisfeito. Como ele, estou convencido de que “não é da natureza do amor forçar um relacionamento, mas é da natureza do amor abrir o caminho” (p. 180). Além disso, gostei de imaginar que a sobremesa favorita de Jesus seja tiramissu (p. 186) e que Deus escute, com Seu fone de ouvido, a música de cantores que ainda não nasceram. “O tempo”, como eu acredito piamente, “não representa fronteiras para Aquele que o criou” (p. 159).
 No decorrer de sua narrativa, Young faz uma crítica pouco velada à religião institucionalizada e aos estereótipos. É compreensível que os que se beneficiam dessas coisas, usando-as para controlar as pessoas, se sintam ofendidos pelo livro. Em vez dessa reação cética, cínica e cáustica, o livro deveria infundir esperança. Afinal, ele prova que “se alguma coisa importa, todas as coisas importam” (p. 232).

Tuesday, December 22, 2015

Embaraços do Professor

por Milton L. Torres

 Em trinta anos de magistério, algumas coisas embaraçosas já me ocorreram em sala de aula. A primeira aconteceu, em Pernambuco, no início da década de oitenta, quando, por causa de uma indisposição intestinal, tive que avisar os alunos do ensino médio que era provável que me ausentasse repentina e inexplicavelmente da sala. Mostrei-lhes o rolo de papel higiênico que carregava ostensivamente em um dos bolsos do guarda-pó, indumentária essencial, naquela época, para nos proteger dos danos do pó de giz, e especifiquei o tipo de atividade que deveriam desenvolver durante a minha ausência. O que, de fato, aconteceu... algumas vezes.
 Passaram-se mais de vinte anos até que me defrontasse com outra situação igualmente embaraçosa. Na Bahia, chamei um aluno do curso de fisioterapia à atenção e o forte rapaz empurrou a carteira para o lado, marchando resoluto em minha direção. Temi o pior e me encolhi à espera do golpe que eu já considerava inevitável. Ele se aproximou, me tomou pelos ombros e, com muita solenidade, me imprimiu um beijo no rosto, fazendo a promessa veemente de que não mais me causaria problemas.
 Não foi até há duas semanas que dois novos episódios voltaram a me deixar embaraçado. No primeiro deles, um aluno de grego me procurou enquanto eu aplicava uma prova a outra turma. Expliquei-lhe que não seria possível atendê-lo naquele momento e ele retrucou com voz grave: - O que tenho a lhe dizer precisa ser dito e você precisa ouvi-lo. Pedi, então, que ele voltasse no final da prova. Ele apareceu de novo cerca de meia hora antes do término da prova e ficou à espera do lado de fora da sala. Quando finalmente lhe dei atenção, o aluno me disse, em particular, que minhas aulas o haviam feito se sentir como se fosse um covarde. Segundo ele, a forma como eu conduzira as classes e o medo que ele tinha da tarefa intimidadora de aprender uma língua morta, fizeram com que ele se calasse diante do que entendia ser uma forma autoritária e humilhante de ensinar. Por um momento, o chão me faltou. Ele explicou que não havia outra pessoa de quem tivesse mais aversão e me prometeu que, se me encontrasse em qualquer outra situação da vida, ele me enfrentaria da forma que fosse necessária e que nunca mais se acovardaria diante de um abuso de autoridade. Sem reação, eu só consegui lhe fazer a pergunta: - Você se sente melhor? Ele me respondeu que sim e eu lhe disse: - Então, vá em paz.
 Jesus disse que a verdade liberta. Mas, se há verdade nas palavras daquele rapaz, ela não me fez sentir livre. Pelo contrário, como disse Melina Marchetta, em Saving Francesca, “eu me senti esquisito, embaraçado e indefeso, corando diante de minha petrificação e vulnerabilidade”. O rapaz se foi prontamente e eu fiquei remoendo aquelas palavras por duas semanas. Duas semanas exatamente até a minha próxima experiência embaraçosa.
 Ontem fui procurado por uma aluna do curso de tradutor no meu gabinete. Os corredores da faculdade já estavam praticamente desertos. Ela estava acompanhada de um colega de classe que queria que eu assinasse algumas fichas de estágio. Depois de colher minhas assinaturas, o rapaz passou a aguardá-la na antessala, conversando com minha secretária. Ela, de forma muito respeitosa, sacou um envelope com algumas fotos e me entregou uma longa carta, impossível de transcrever, na íntegra, aqui. Menciono apenas um trecho escolhido: “A sua vida marcou o meu coração. Tortura-me o pensamento de um dia não poder vir até sua sala, aconchegar-me ali e chorar, ou sorrir. Há um agradável, agradável, agradável deleite em sua presença. Posso sentir algo de Deus ao olhar para você: graça e paz!” Sem reação, ofereci fazer uma oração para que Deus a abençoasse. Ela me respondeu: - Calma! Ainda não terminei.
 A moça desembrulhou, então, um frasco de perfume, enquanto comentava: - É o meu perfume favorito e deixa partículas de brilho! Pediu, em seguida, que eu estendesse as mãos e começou a me derramar o perfume nas mãos, enquanto dizia: - Você não é Jesus. Por isso, derramo o perfume nas mãos e não nos pés. Depois disso, a moça tomou os longos cabelos anelados e, com eles, passou a me enxugar as mãos. Oramos, então, e ela me entregou um minúsculo cartão púrpura, com os versos: “Uma flor / flor será / se souber apreciar / o próprio perfume!
 Steve Jobs disse antes de morrer: “todas as expectativas, todo orgulho, toda vergonha de embaraços e fracassos, tudo isso empalidece diante do rosto da morte, deixando apenas o que é verdadeiramente importante. A morte o ajuda a evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir os ditames do seu coração!” Por isso, não tenho medo de revelar meus momentos embaraçosos, as situações que anunciam os meus fracassos. Não acredito que, como uma máquina fotográfica, esses momentos embaraçosos me roubem a alma. Nenhum dos dois alunos tem razão. A verdade é que não sou tão mau quanto afirma o estudante de grego e nem tão bom quanto me considera a aluna de tradução. Só posso dizer, para salvação ou perdição, que continuo sem medo de embaraços, continuo disposto, em todas as circunstâncias da minha vida, a seguir os ditames do coração. Não tenho medo da verdade, porque ela está no meu coração e só aqueles que conseguem olhar dentro dele podem ter um vislumbre de quem eu sou realmente. A diferença não está em mim, mas no olhar das pessoas. Eu ainda sinto, vagamente, aquele perfume nas mãos. Vão em paz!

Monday, December 14, 2015

Formatura do Curso de Tradutor Classe de 2015

   Embora não tenha sido escolhido para fazer o discurso de formatura da classe de 2015, vou manter a tradição, e postar aqui o discurso que teria feito. Não há revanchismo. O curso tem outros professores e eles merecem ser ouvidos. De fato, fico feliz quando não sou escolhido porque isso valoriza as vezes em que sou. Eu fui em 2013 e 2014, e espero sê-lo de novo, no futuro. Apesar disso, todos os meus parentes sabem que eu não gosto de formatura. Fora a formatura de teologia, à qual eu fui obrigado a comparecer, eu nunca fui a outra formatura minha. Como diz Robert Orben, “uma formatura é um evento em que a pessoa que faz o discurso diz para vários alunos vestidos em becas idênticas que a individualidade é a chave do sucesso!” Para mim, isso não faz sentido. Então, por que eu sempre venho à formatura? Eu venho a toda formatura do curso de tradutor porque eu aprendi a amar e respeitar os alunos desse curso. Aprendi a valorizar o esforço que fazem para dominar as línguas estrangeiras e o quanto se doam para ter sucesso individualmente.
   Minha esperança é que este momento tão intenso que vivem agora os una para sempre. Que a amizade da qual sou testemunha possa acompanhá-los quando encontrarem a cara metade, quando tiverem bebês, quando tiverem o primeiro emprego do qual tenham orgulho de fato, quando ganharem os primeiros prêmios e quando conquistarem seu primeiro milhão de dólares. Nesse momento, lembrem-se especialmente de seus professores. Mas não se enganem. Como disse John Green recentemente, muita gente idiota se forma na faculdade. Por isso, não cedam à tentação de se tornarem pessoas idiotas. Pode até ser que lhes pareça, mas vocês vão descobrir em breve que a formatura não é o dia mais importante de sua vida. Segundo Susan B. Anthony, os dias mais importantes da vida da gente “aparecem sem anunciar, são como cães vira-latas que entram sem cerimônia”. Hoje é um dia de cerimônia. Valorizem-no. No entanto, aguardem ansiosamente pelos dias sem cerimônia em que vocês encontrarão a felicidade que merecem.
   Não creiam nas mentiras que sua falta de experiência possa lhes estar contando neste momento. O que esta formatura significa de fato? O que ela vai valer para o seu futuro? Será que, com ela e por causa dela, vocês vão conseguir um bom emprego? Será que vocês vão se mudar para Campinas, ou Belo Horizonte, ou Tóquio? Será que vocês vão escrever uma peça, ou pintar um quadro, ou encontrar o verdadeiro amor? Que poderes esta formatura lhes concede agora? Será que ela vai servir apenas para lhes conceder um culpado – um professor ou funcionário do UNASP – que vai virar sua desculpa pelos tropeços e fracassos futuros?
   Ray Bradbury disse certa vez que não acreditava em faculdades. Ele dizia que acreditava em bibliotecas. Hoje nós praticamente nem necessitamos mais de bibliotecas. A internet é nossa biblioteca! E eu continuo acreditando em faculdades. Não apenas pelos conteúdos que elas podem ensinar, mas pelos sentimentos que elas podem colocar em seu coração, as aspirações, os sonhos, as amizades, um desejo voluptuoso e insaciável de vencer na vida e ser alguém, construído em cada interação com seus ótimos e exigentes professores e na troca de experiências com seus colegas fiéis, diligentes e solícitos. Eu nunca vou me esquecer de vocês: Bárbara, Camila, César, Danielle, Djanary, Edna, Ellen, Evellyn, Gabriela, João Lucas, Jonathan, Márcio, Nayara, Olívia, Raquel, Roseane, Sthefania e Taila. E eu peço: nunca se esqueçam de nós e uns dos outros. E a melhor maneira de vocês honrarem a confiança que seus professores depositaram em vocês... a melhor forma de vocês mostrarem que se lembram de nós... é sendo felizes e contribuindo para a felicidade das pessoas que Deus colocar em seu caminho. Sejam, portanto, felizes!


Thursday, December 10, 2015

Eu lhe peço o impossível

por Milton L. Torres

(inspirado em um poema homônimo de Ana Castillo)

Eu lhe peço o impossível:
que me ame agora e para sempre.
Me ame mesmo quando nem mais puder falar.
Me ame como os monges gostam de pregar.
Quando o mundo inteiro 
lhe disser para parar de me amar,
Me ame ainda mais!
Finja-se de surdo e continue a me amar!
Quando ficar zangado a ponto de me esquecer o nome,
Me ame que a raiva passa e a dor some!
Me ame! Me ame na hora do seu tédio,
me ame e o tédio já sumiu!
Me ame no desfile de miss Brasil.
Me ame como sempre me amou!
Eu quero um grande amor 
e não um admirador!
Quero o carinho de um rosto familiar,
alguém que me entenda só pelo olhar.
Me ame quando se sentir sozinho.
Me ame quando pensar que vai morrer.
Me ame quando não tiver o que fazer.
Me ame como uma lembrança da infância
e, se não houver nada pra lembrar,
nem segredo, cicatriz e nem lugar,
imagine um e me coloque lá.
Ame as minhas rugas, as espinhas e o andar.
Ame os meus caprichos e os meus dias de luar!
E eu prometo que vou fazer com que o impossível
vire o que comemos no jantar:
Amar você agora e sem parar!

Engenheiro Coelho, 24/11/15

A menina que não conseguia dizer meu nome

por Milton L. Torres

Shazam, abre-te-sésamo, abracadabra
As palavras que abrem ou fecham
As palavras que fecham e abrem metamorfoses
Que a menina gosta de falar
Que a menina gosta de repetir
Na fantasia de seus livrinhos finos e coloridos
Na sala escura de cinema
Enquanto a imaginação percorre o teto
Correndo entre as lâmpadas, os castiçais...

Presto! As mãos são mais rápidas do que os olhos
As palavras que sobem ou descem
As palavras que descem e sobem a coluna vertebral
Que a menina gosta de falar
Que a menina gosta de repetir
Quando imagina o beijo no escuro do portão
Na sala de cinema
Enquanto o coração salta da boca
Voando entre os assentos como uma borboleta...

Alakazam, hocus pocus, sim sala bim
As palavras que despertam ou adormecem
As palavras que adormecem e despertam o coração
Que a menina não gosta de falar
Que a menina não gosta de repetir
Quando sabe que o meu nome, se pronunciado três vezes,
Em qualquer lugar da casa
Em qualquer lugar do mundo
Vai fazer com que me entregue o coração
Pra eu colocar dentro do peito, junto com o meu coração!


Engenheiro Coelho, 27/03/2015

Ciúmes de Nietzsche

por Milton L. Torres

Não quero que você me cite,
Mas meu ciúme é só de Nietzsche
Horas debruçada sobre o livro
Com seu imóvel olhar de vidro
Não quero que você me imite,
Mas meu ciúme é só de Nietzsche
Em que pese você nem hesite
Em só querer saber de Nietzsche
Como ele faz com que você levite
E eu que nem consigo ler o Nietzsche?
Mas quer saber o meu palpite?
Você ainda vai pôr de lado o Nietzsche
E, quando isso acontecer,
Não quero nem que você grite...


Engenheiro Coelho, 5/11/2014

Não fique triste comigo

por Milton L. Torres

Não fique triste comigo.
Fique triste com a seca, o chão rachado,
a falta de sincronia dos relógios biológicos de todos os que vivem separados por abismos de tempo e espaço.
Fique triste com a noite quente
que não permitiu outros movimentos senão o estalido de lábios secos de sede,
do mesmo jeito que fico triste por que o vento tocou apenas de leve a borda de um vestido perfeito,
levando para longe o cheiro doce, quase enjoativo, de um momento feliz.
Fique triste com a vida sem graça de quem depende de um gesto, um balbucio de esperança,
do mesmo jeito que fico triste por não acender a vela que seguiria brilhando no breu tenebroso em que me encontro agora,
o breu insuportável que encheu meus olhos depois da visão que tive.
Não fique triste comigo.
Só tenha pena que os relógios não deixaram, não puderam, não acertaram
a hora de me conceder um brilho de armadura reluzente.
Não fique triste comigo.
Fique triste com o inquilino egoísta que insiste em morar sozinho no coração solitário de todos os que não recebem cartas,
por mais escassas que sejam,
para lhes dizer que há correspondência.
Não fique triste comigo;
fique triste comigo.

Engenheiro Coelho, 2/11/2014

Se você me dissesse

por Milton L. Torres

Se você me dissesse: - Emagreça!
Eu engoliria seco, jogaria fora pratos e talheres,
Tamparia o fogão, vedaria a boca,
Manteria a barriga oca
E iria para uma terra sem colheres.

Se você me dissesse: - Enlouqueça!
Eu piscaria uma vez, assanharia o cabelo,
Falaria com uma voz um tanto rouca,
Meteria o dedo no nariz
E iria para uma terra sem mulheres.

Se você me dissesse: - Apareça!
Eu arregalaria os olhos, faria dez piruetas,
Usaria uma abóbora como touca,
Faria tanta coisa louca,
Que iriam me trancar entre muretas.

Se você me dissesse: - Me abrace!
Eu daria um salto, estenderia os braços,
Não perderia um só de seus abraços.
Faria tanta coisa boba,
Que eu a levaria pro espaço.

Se você me dissesse: - Esqueça!
Eu baixaria a cabeça e sairia de fininho,
E me esconderia num canto escuro e só,
Tão quietinho, mas tão quietinho,
Que você não ia deixar de sentir dó.


Engenheiro Coelho, 3/9/14

Estrelas no céu

por Milton L. Torres

Eu quis três estrelas
Bem juntas no céu
De lá entalhadas
Com belo cinzel
E lindos espelhos,
Diáfanos véus –
De traço mais belo
Que tinta e papel!

Eu quis três conchinhas
Achadas no mar,
Tão tristes sozinhas,
Vazias com ar –
Quiseram ser minhas,
Num breve sonhar,
Levadas das ondas
De volta pra o mar...

Eu quis até gemas
De cor não vulgar,
Que fossem os temas
Do meu labutar:
Diamante, esmeralda –
Soubessem falar –
Diriam meus olhos
Vão logo chorar...

Não tive as estrelas,
Conchinhas do mar:
Busquei esquecê-las
E as gemas sem par.
Contudo, esse riso
Não pode faltar,
De tê-los comigo,
Comigo no lar...

Salvador, fevereiro de 1994.

O menino e o violino

por Milton L. Torres

Dançam os sonhos em saltos
No coração pequenino
Por estradas e asfaltos
Seguindo os sons de um violino!

Dançam os sonhos em saltos
No coração pequenino
São tantos os sobressaltos
Dos seus olhos de menino!

Sonhos em sons que são saltos
Na música de um violino
Sonhos que nunca são faltos
No coração de menino...

Música, sonhos e saltos
Primeira vez que o menino
Ouviu de perto e bem alto
Alguém tocar o violino!

Salvador, março de 1992.

As cinco fases da lua

por Milton L. Torres

Ana...
Estrela cadente que és,
Tu trazes nórdico aroma;
Teu ser me invade e me toma:
Fico prostrado a teus pés!

Leonor...
Tão cálida e terna que és:
Ribeiro de água corrente,
Vivo sorrindo contente,
Vivo prostrado a teus pés!

Sônia...
Doce e feliz, sim, tu és:
Um raio prateado de sol,
Corais de um marinho atol;
Estou prostrado a teus pés!

Tania...
A própria vida tu és,
Pois és beijo, e vento e sonho.
Eu te amo, e te quero, e ponho
Meu coração a teus pés!

Vânia...
Uma vez, duas ou dez
Eu darei voltas no mundo,
Não perderei um segundo,
Para prostrar-me a teus pés!

Amo essa estrela que é nua,
Amo tal astro cadente:
Quarto minguante e crescente
E a quinta fase da lua!

Salvador, agosto de 1990.

Sunday, November 29, 2015

Se eu...

por Milton L. Torres

Se eu morrer nos próximos cinco anos, não fiquem tristes. Independentemente de um acidente trágico ou uma doença fatal, eu terei sido tão feliz que nem a lógica mais irrefragável me convenceria do contrário. Os últimos momentos, se terríveis e agonizantes, não terão peso suficiente para me remover o sorriso maroto dos lábios ou o olhar satisfeito das vistas. Não se trata de provocação ao destino. É só um reconhecimento, a celebração de que viver é tão divertido, as pessoas são tão interessantes, que até as quedas e baques, as escorregadas e os tropeções sempre valem a pena. A luz que vejo por toda parte, os esforços simplórios do poeta, as reflexões audaciosas do filósofo, a melodia terna das cantoras, os dribles ágeis dos atletas, o ritmo acelerado dos tambores, os movimentos gráceis da bailarina, o vai-e-vem dos automóveis, o brilho, as cores, os sons de aves, nuvens, tempestades, oceanos, sol e lua, a luz que vejo por toda parte – só isso terá valido a pena!
                Não se preocupem com minha salvação. Eu já fui salvo muitas vezes: no primeiro beijo sob a chuva, na canção sobre a linha do horizonte, nas garatujas com que escrevi aquela frase em grego, no voo inicial da imaginação, na leitura precoce do evangelho e na liberdade de todos os livros que li, reli e desejei ter escrito. De fato, o evangelho, para mim, vai além da estrada, do entreposto em que renovamos as forças para a jornada. Em vez de estalagem ou picadeiro, é um reflexo espelhado na água, essa mesma água que dessedenta, acalma e clareia. Assim, procurei não turvar a fonte. Assim, apenas cedi à paisagem serena e passei a vida observando as dezessete metamorfoses das libélulas.
                Se eu morrer nos próximos cinco anos, não fiquem tristes e só se lembrem de mim quando tiverem vontade de rir ou menear a cabeça. Lembrem-se de mim, à porta da igreja ou na sala de aula. Lembrem-se das piadas tolas, da minha voz desafinada, dos gestos desengonçados, da roupa mal escolhida, dos meus vários dias sem dinheiro, da minha fidelidade a um time de futebol que levou a vida inteira para ganhar um título! Nunca ganhei na loteria, nunca pulei de paraquedas, nunca comi caviar, nunca fui à Disneylândia, nunca andei de camelo! Uma vez levei um tapa por roubar um beijo; outra vez, participei de um jogo de basquete e não fiz nenhuma cesta; outra vez ainda, fui reprovado na audição do coral. Pensem como era improvável a minha felicidade! E, no entanto, estou aqui, dizendo desta felicidade que me enche o coração e quase transborda de tão intensa e difícil de controlar!
               Se eu não morrer nos próximos cinco anos, talvez tenha que reescrever o que falo agora. É que a felicidade não traz consigo os presságios do futuro. E a minha felicidade está para sempre ligada à felicidade daqueles a quem amo. Eu pude suportar quaisquer pequenos dissabores que eu tive que enfrentar, mas não poderia ser feliz se sequer imaginasse que um filho ou filha, a nora, um sobrinho ou sobrinha, um cunhado ou cunhada, um irmão ou irmã, um amigo ou amiga, minha cara metade, tivesse um dia escuro ou um momento insuportável de dor. Então, se eu não morrer nos próximos cinco anos, cuide-se bem. Caso contrário, ao estragar a sua felicidade, você também estragará a minha.

Wednesday, September 30, 2015

Eu chorei hoje

Eu chorei hoje porque meu cachorro morreu. Não chorei tanto por ele. Chorei por minha mortalidade, na constatação de que o ser humano é pouco diferente do ser canino, a não ser pela verificação fulminante de que somos piores. Não espargimos a mesma afeição. Os olhos não destilam a mesma sinceridade. O corpo, as nádegas e a cauda não reproduzem a mesma alegria. A língua e a boca não se guardam de atropelar os sentimentos dos outros e de fazê-los soçobrar de desgosto e decepção. Os nossos olhos não pedem, não suplicam e muito menos agradecem. Não sabemos meter o rabo entre as pernas com a mesma classe, nem expressar nossa absoluta necessidade das migalhas do afeto que contentaria o cão, levitante e feliz, mas não a nós. Não sabemos comer na mão dos outros. Não lambemos as lágrimas que escorrem do rosto alheio. Não sabemos falar sem palavras, pois sempre enfiamos sons incompreensíveis nos grunhidos atordoados que articulamos quando devíamos falar com o coração e não com essa voz esganiçada e feia que usamos para rebaixar e prejudicar. Não sabemos morder a tigela vermelha e carregá-la conosco aonde quer que vamos, certos, seguros, certíssimos de que, na vida, só necessitamos de duas coisas: um pouco de comida e um cafuné na barriga. Em vez disso, nós nos enfrentamos e torcemos o pescoço um do outro por coisas de que não necessitamos. Nem sequer latimos para alertar as pessoas de nossos ataques, sempre traiçoeiros e mortais. Não sabemos rodar três, cinco, dez vezes para encontrar a posição ideal, pois arrogantemente obedecemos aos vis instintos e obrigamos os outros a dançar, mesmo quando não há música. Nunca admitimos simplesmente nos colocar aos pés de alguém: a lealdade, para nós, é determinada por interesses escusos e nem sempre óbvios ou obviáveis. Nós nos enchemos de melindres quando o que queríamos mesmo era saltar no colo de alguma pessoa ou, pelo menos, ali deitar a cabeça. Não temos o impulso de proteger aqueles que nos são caros; apenas vamos tocando a vida para ver onde ela vai dar. Não sabemos amar, só aparentar que amamos. Não vivemos em um mundo cão; quem dera! Vivemos num mundo humano. Eu hoje chorei por um cachorro, mas também chorei por mim, chorei por você, chorei por nós...

Monday, December 22, 2014

Formatura do Curso de Tradutor Classe de 2014

A vida é um jogo de basquete...

O basquetebol é o esporte favorito dos meus filhos. Não entendo muito do jogo, mas eles cresceram me falando a respeito dele. E, sabem de uma coisa, acho que esta turma de formandos em tradutor e intérprete se parece com um time de basquete. Por isso, vou parafrasear 2 Tm 4:7 à moda desse esporte: “Arremessei a bola, fiz a cesta, acabei com o jogo. Agora a medalha é minha...” Você acabou de ganhar a final do campeonato, mas só me deram cinco minutos para comentar o jogo. Por isso, eu gostaria de celebrar, com você, não o que nós professores realizamos (que eu acho que foi muito pouco), mas o que você realizou.

BIZETTI: você não tentou ser melhor do que seus colegas, você tentou ser melhor do que você mesma, e conseguiu ser a cestinha de vários de nossos jogos (não de todos, mas de vários)

CRERIANE: as mulheres que querem ser iguais aos homens não têm ambição, pois as mulheres podem ser muito melhores do que os homens, até no basquete – eu a considero a campeã de enterradas

EDUARDO: não deixou que a catimba dos outros se transformasse na ira do time – em vez disso, você cadenciou o jogo

EMILIANA: você deu os melhores dribles, você trouxe alegria para o jogo – tenho orgulho de ter você no meu time

FABRÍCIO: você provou que grandes coisas podem ser feitas quando você faz um monte de coisas pequenas – você foi o campeão do jogo simples, ponto a ponto

FERNANDO: quanto mais a gente trabalha, mais sorte a gente tem: você só perdeu treino p/fazer estágio no Canadá  - além disso, nosso time também tinha que ter um símbolo sexual

GRAZIELI: você é o que eu chamaria de campeã dos tocos; não conseguiu mudar tudo o que encarou, mas teve a coragem de encarar um monte de coisas, exceto, é claro, quando era a Rabêlo que falava

HUDSON: quando a gente voa uma vez, a gente nunca mais tira os olhos do céu – é como se você tivesse entrado durante o jogo e não quisesse mais sair da quadra

JOSIANNE: você sempre levou o coração consigo – campeã em assistências, sem você seus companheiros de time não teriam tido o mesmo desempenho

KERILIN: você agiu como se o mundo conspirasse para fazê-la feliz, dando-nos um gostinho de que o campeonato já estava ganho

KETLIN: fazer o que precisa ser feito, quando precisa ser feito, quer a gente goste ou não – por isso, foi sua (e do Fernando) a braçadeira de capitão

LUIZ FELIPE: você mais do que suou a camisa – campeão da vitalidade, ninguém conseguiu acompanhá-lo na quadra

LUMINITA: uma pessoa pode fazer a diferença (mesmo que não fale muito), desde que, como você, tenha a mão santa

MATHEUS: houve momentos em que eu não sabia para onde você estava indo, mas o time precisava dessa leveza

RABÊLO: o importante, no jogo, não é passar para os companheiros de time a garrafa d’água, mas acender o fogo (se eu não soubesse que a Ketlin era o capitão, eu pensaria que era você)

RAQUEL: você ficava esperando os rebotes – não venceu nenhuma partida sozinha, mas conseguiu entrar para o time

RENATA: as coisas nunca são tão simples quanto parecem – você conseguiu questionar a estratégia do jogo e propor novas jogadas

SANDERSON: sonhar acordado é tão importante quanto sonhar dormindo – e você sonhou com o título

TAMARA: em quadra, a concentração resolve muitas dificuldades (a concentração é uma das minhas maiores virtudes)

VANESSA: quando você começou, seus arremessos não davam nem aro; eu a coloquei no banco, mas você conseguiu voltar para o jogo

A vida é como um jogo de basquete. Você precisa suar muito. Quem não treina, não joga. Não se pode trapacear. O doping tira você do jogo. É mais difícil fazer pontos de longe. É imperdoável perder arremessos livres. Na vida e na quadra, cada tranco que você dá nas pessoas é punido como falta, mas cada tranco que você recebe lhe dá a oportunidade de marcar pontos. Na vida e na quadra, os bêbados só fazem papel de bobos; os inconsequentes não passam de carga para os outros. É preciso trabalhar em equipe. Você precisa de uma tática, um plano de jogo, uma cadência, e, acima de tudo, você precisa de um bom técnico. Mesmo com as qualidades notáveis que cada um tem, você não vence sozinho. Tenha respeito: respeite os que se importam com o placar do jogo. Na vida e na quadra, nós nos colocamos sob as regras de um Árbitro. Não o provoque desnecessariamente. Todo jogo acaba, todo vigor diminui no decorrer da partida. Aprenda, portanto, a cultivar a simpatia do público. Quanto mais gente torcendo por você, melhor. Deixe-me ser um deles. Deixe-nos ser os seus torcedores. Não decepcione o time, não envergonhe o UNASP. Por mais fútil e banal que seja o assunto, não ouse desdenhar daqueles que torcem por você. Você sai daqui hoje para entrar na quadra da vida. Dou-lhe um pequeno tapa nas costas, não na convicção de que você entendeu tudo, não na convicção de que o treino acabou, mas certo de que você vai fazer o seu melhor, certo de que você vai honrar a camisa que veste. E, se, algum dia, você precisar de um palpite, apareça. Duvido que você precise de um conselho; mas pode ser que você precise de um palpite. E você sabe que nós do UNASP sempre temos um palpite para dar, pois nós nos importamos com você...